Com Jair Bolsonaro (PL) inelegível e réu por tentativa de golpe de Estado, a direita brasileira já movimenta suas peças em busca de um novo nome para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026. Entretanto, a insistência de Bolsonaro em manter o discurso de que será candidato tem travado articulações mais concretas nesse sentido. Atualmente, o campo conservador vive um cenário de congestionamento, com mais de meia dúzia de potenciais pré-candidatos de olho no Palácio do Planalto.

Cientistas políticos ouvidos pelo “Estadão”, avaliam que é improvável que a direita consiga se unir em torno de uma candidatura única ainda no primeiro turno. A fragmentação tende a ser favorecida pelo interesse dos partidos em ampliar suas bancadas no Congresso e pelo desejo de diversas lideranças de direita em ganhar projeção nacional, mirando não só 2026, mas também 2030 — um cenário que tende a ser o início de um novo ciclo político, sem Lula nem Bolsonaro como protagonistas.

Governadores como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União-GO) e Ratinho Júnior (PSD-PR) já se movimentam nacionalmente e são apontados como potenciais candidatos à Presidência. Uma imagem emblemática desses movimentos foi registrada em 6 de abril de 2025, quando os quatro posaram juntos em um trio elétrico na Avenida Paulista durante ato de apoio a Bolsonaro. Embora estivessem sob o guarda-chuva do bolsonarismo, os gestos individuais apontam para ambições próprias.

A consultoria política Dharma, em relatório encaminhado a clientes no início de junho, afirmou que o cenário mais provável para 2026 é o da divisão da direita no primeiro turno. O documento indica que a multiplicidade de candidaturas funcionaria como uma estratégia para ampliar a presença legislativa das legendas, permitindo concentração de recursos e fortalecimento de bancadas no Congresso. O uso coordenado dos fundos Partidário e Eleitoral, aliado às emendas parlamentares, é visto como peça-chave.

Creomar de Souza, cientista político e CEO da Dharma, sustenta que o principal entrave à unidade da direita são os partidos do Centrão. “O movimento desses partidos é claro: evitam se comprometer com um nome para a Presidência, mas atuam de forma incisiva para garantir uma posição estratégica nas eleições de 2026”, afirma.

Outro fator que contribui para a pulverização de candidaturas é a percepção de que 2026 será uma espécie de ensaio geral para a disputa de 2030. Como Lula e Bolsonaro provavelmente não estarão nas urnas, o próximo pleito é visto por muitos políticos como chance de ouro para alcançar projeção nacional e capitalizar politicamente para o futuro.

A tese de renovação política se sustenta, segundo os analistas, na idade avançada de Lula — que completará 81 anos em 2026 — e na situação jurídica de Bolsonaro, hoje inelegível até 2030. Além disso, o ex-presidente responde a processos que podem culminar em sua prisão ainda neste ano. Esse contexto reforça a ideia de que o Brasil caminha para o encerramento de uma era de polarização entre os dois líderes.

O governador do Paraná, Ratinho Júnior, por exemplo, afirmou recentemente, durante evento do agronegócio, que “o Brasil está sendo governado há 40 anos pela geração das décadas de 50 e 60” e que é hora de uma nova geração assumir o protagonismo. Para ele e outros nomes cotados, como Eduardo Leite (PSD-RS), Michelle Bolsonaro (PL) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), a eleição de 2026 é tanto uma vitrine quanto uma porta de entrada para um novo ciclo.

A eleição de 2026 será um marco, seja com Lula vencendo ou perdendo, porque provavelmente será sua última disputa presidencial, especialmente por conta da idade. Isso abre espaço para o lançamento de novos nomes – se não para 2026, certamente para 2030”, afirma o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Para Ramirez, o fim da presença de Lula e Bolsonaro nas urnas representará um vácuo de lideranças que os partidos precisarão preencher rapidamente. “Poucos partidos se preocuparam em construir novas lideranças ou preparar sucessores jovens. Lula e Bolsonaro concentram enorme capital político. Depois deles, o jogo muda — e os partidos vão ter que correr para preencher esse vácuo.”

A antropóloga Isabela Kalil, também da FESPSP, considera que as eleições de 2026 não marcam o início de um novo ciclo, mas o fim da era lulista nas urnas. “É um encerramento, mas ainda não dá para dizer que um novo ciclo começou”, avalia. “No entanto, estamos em um momento de mudanças profundas na política – desde a comunicação até o papel da esquerda e da direita. E isso, de fato, favorece o surgimento de novas lideranças.”

Para Kalil, Bolsonaro terá mais facilidade em transferir seu capital político do que Lula. “Não subestimaria nenhum dos Bolsonaros. Nunca tivemos esse tipo de transferência de votos pelo sobrenome na Nova República”, afirma.

Além disso, há quem veja a eleição presidencial como uma aposta de baixo risco e possível alto retorno. A avaliação é reforçada pela atual reprovação do governo Lula, que, segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada em junho, chega a 57%. Embora esse cenário possa se alterar até outubro de 2026, o descontentamento atual fortalece a ideia de que a eleição está aberta.

“Do lado da direita, há uma leitura – talvez enviesada, por estarem na oposição – de que o Lula está tão frágil que qualquer um pode vencê-lo. E isso gera uma consequência: vários querem se lançar agora, antes mesmo das legendas se definirem”, afirma Creomar de Souza.

Para ele, governadores que não têm possibilidade de reeleição são os mais incentivados a antecipar candidaturas. “Não à toa, o (governador de Goiás, Ronaldo) Caiado lançou sua pré-candidatura cedo. Não à toa, o (governador de Minas, Romeu) Zema tenta nacionalizar seu nome de forma até histriônica.”

Isabela Kalil acredita que, caso Tarcísio de Freitas decida disputar a Presidência, uma união no campo da direita no primeiro turno se tornaria viável. “Tarcísio é um nome que resolveria todos os problemas da direita. Hoje, o nome mais viável é o dele, com alguém mais próximo da família Bolsonaro como vice. A Michelle, por exemplo, é um nome forte”, afirma.

Como revelou o “Estadão”, Jair Bolsonaro já sinalizou apoio a uma possível candidatura presidencial de Tarcísio em 2026, compondo uma chapa com Michelle Bolsonaro como vice. A combinação, segundo interlocutores, poderia unir as diversas correntes da direita em torno de um único projeto — e com isso, pavimentar o caminho para um novo ciclo político no país.

Com informações do Estadão.

Foto: Divulgação


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