A indefinição sobre a composição da chapa ao Senado apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Pernambuco tem provocado uma disputa intensa entre lideranças políticas do estado, envolvendo antigos aliados, ministros do governo e partidos do chamado Centrão. No centro da discussão estão a ex-deputada federal Marília Arraes, hoje filiada ao Solidariedade, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, e nomes influentes da política pernambucana, como Miguel Coelho, do União Brasil, e Eduardo da Fonte, do Progressistas.
No diretório estadual do Partido dos Trabalhadores, a única definição consolidada até o momento é a candidatura à reeleição do senador Humberto Costa. A segunda vaga ao Senado permanece em aberto e é tratada como peça estratégica tanto para a eleição estadual quanto para o projeto nacional de reeleição de Lula. As negociações envolvem interesses locais, alianças partidárias e a necessidade de manter uma base ampla de apoio ao governo federal.
Nos bastidores, há consenso de que o caminho mais provável é o apoio de Lula ao prefeito do Recife, João Campos, do PSB, na disputa pelo governo estadual. A partir dessa definição, caberia ao prefeito discutir com o presidente e com os partidos aliados a formação da chapa ao Senado. Integrantes do PT, no entanto, reconhecem que conversas do Palácio do Planalto com o PSD nacional, presidido por Gilberto Kassab, podem alterar o cenário e embaralhar a montagem da chapa em Pernambuco.
A situação se tornou ainda mais complexa após a governadora Raquel Lyra deixar o PSDB e se filiar ao PSD no ano passado. O movimento levou uma ala do PT a defender a construção de um palanque duplo para Lula no estado, estratégia que permitiria acomodar diferentes alianças regionais, mas que enfrenta resistência de setores que preferem uma chapa única, alinhada a João Campos.
Interlocutores do prefeito afirmam que ele mantém boa relação com Marília Arraes, sua prima, com Silvio Costa Filho e também com Miguel Coelho, ex-prefeito de Petrolina e atual presidente estadual do União Brasil. A eventual escolha de um nome mais à direita para a chapa ao Senado é vista como consequência do desejo de Campos de dialogar com a federação formada entre União Brasil e Progressistas, com o objetivo de facilitar a governabilidade caso seja eleito governador.
Essa possibilidade, porém, encontra resistência dentro do PT, especialmente em relação a Miguel Coelho, considerado por parte da militância petista como alinhado ao bolsonarismo. Coelho admite a aliados que votou no ex-presidente Jair Bolsonaro em dois mil e vinte e dois, mas argumenta que, desde o ano seguinte, passou a integrar o grupo político de João Campos e que não teria dificuldades em dialogar com o PT. Nos bastidores, seu nome é visto como alguém capaz de agregar votos no interior do estado.
A primeira pesquisa Datafolha divulgada neste ano em Pernambuco, no entanto, trouxe novos elementos para a disputa. O levantamento aponta Marília Arraes na liderança de todos os cenários testados para o Senado, com índices que variam entre trinta e seis e quarenta e um por cento das intenções de voto. Alinhada à esquerda desde a juventude, ela aparece à frente inclusive de Humberto Costa, que registra entre vinte e quatro e vinte e seis por cento.
Rival política da governadora Raquel Lyra, Marília deixou o PT em dois mil e vinte e dois após embates internos. Ela lançou sua pré-candidatura ao Senado em outubro do ano passado, em evento que contou com a presença de João Campos. Apesar disso, aliados do prefeito avaliam que a permanência da ex-deputada em um partido de menor capilaridade pode dificultar as negociações para a chapa majoritária.
Diante desse cenário, políticos locais apostam que Marília poderia disputar o Senado de forma independente, sem integrar formalmente a chapa do governo estadual, hipótese que ela rejeita com veemência. A ex-deputada afirma que sua trajetória recente demonstra alinhamento claro com o campo progressista e com o projeto de enfrentamento ao bolsonarismo, ressaltando que é a única mulher cotada para a chapa e que lidera todas as pesquisas.
Marília também foi procurada por outras siglas, como o PDT, interessadas em lançá-la ao Senado. Segundo interlocutores, a condição imposta por ela para uma eventual mudança partidária é que a legenda não tenha candidato próprio ao governo estadual, preservando o apoio a Lula e a João Campos, considerados inegociáveis em sua estratégia política.
Já o ministro Silvio Costa Filho é visto com bons olhos tanto pelo PT quanto pelo grupo de João Campos, sendo considerado um aliado leal ao presidente Lula. O principal obstáculo à consolidação de sua candidatura é o desempenho modesto nas pesquisas. No levantamento do Datafolha, ele aparece com índices entre dez e treze por cento, abaixo de outros nomes da direita, como Miguel Coelho e Eduardo da Fonte, que variam entre dezoito e vinte e dois por cento.
Em entrevistas, Silvio Costa Filho evita confirmar a intenção de disputar o Senado, afirmando que o Republicanos e o PT caminham no sentido de apoiar João Campos ao governo estadual. A indefinição, contudo, mantém seu nome no radar das negociações, especialmente pela relação próxima com o Planalto.
Entre petistas, cresce a preferência por Eduardo da Fonte caso a federação entre União Brasil e Progressistas indique um nome para a chapa ao Senado. O principal entrave é sua proximidade com a governadora Raquel Lyra, o que gera desconfiança no grupo de João Campos. A direção estadual do PT afirma que o segundo nome da chapa deve vir de um partido de centro, mas aguarda uma definição de Lula sobre o apoio ao governo estadual para avançar nas conversas.
Humberto Costa, por sua vez, confirma a candidatura à reeleição e afirma que a prioridade do PT em dois mil e vinte e seis será garantir a vitória de Lula e ampliar a bancada de senadores no Nordeste. Segundo ele, o segundo nome da chapa precisa estar comprometido com o projeto nacional e disposto a integrar a base de apoio do governo no Senado.
Foto: Carlos Moura/Agência Senado

