A possibilidade de Guilherme Boulos (PSOL-SP) assumir a Secretaria-Geral da Presidência intensificou as divergências dentro do PSOL e evidenciou um racha entre suas principais lideranças. O partido, que já abrigava diferentes visões sobre a relação com o governo Lula, enfrenta um embate que pode redefinir sua postura política nos próximos anos.
O PSOL se divide entre aqueles que defendem a independência da legenda em relação ao Executivo e os que veem a participação em cargos do governo como um movimento natural para um partido que se consolidou como uma força relevante na esquerda brasileira. Para a deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), a possível nomeação de Boulos seria contraditória. “A decisão do PSOL foi clara de não compor governo, e isso está bem redigido na resolução aprovada em dezembro de 2022”, afirma.
Por outro lado, setores do partido enxergam essa movimentação com naturalidade. A deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) defende a ideia de que o PSOL deve ocupar espaços estratégicos. “Essa discussão acontece desde o início do governo. Estou mais preocupada com o que vai ser do Brasil”, pondera.
A crise interna do partido se agravou recentemente com a demissão do economista David Deccache, assessor da liderança do PSOL na Câmara dos Deputados. Deccache, crítico da agenda econômica do governo Lula, manifestava suas opiniões nas redes sociais e afirmou ter sido dispensado por razões políticas. Sua saída gerou insatisfação em um setor do partido que prega maior distanciamento do Planalto.
Deccache faz parte de uma ala minoritária do PSOL, vinculada ao Movimento Esquerda Socialista (MES), um dos grupos fundadores da legenda, que historicamente defende uma postura independente em relação ao governo federal. Parlamentares alinhados a essa corrente, como Fernanda Melchionna (RS), Glauber Braga (RJ), Sâmia Bomfim (SP), Luiza Erundina (SP) e Chico Alencar (RJ), votaram contra sua demissão.
Entre esses, Melchionna, Braga e Sâmia são considerados integrantes da ala minoritária, enquanto Erundina e Alencar mantêm uma postura independente. Já o grupo que votou pela demissão incluiu Guilherme Boulos (SP), Célia Xakriabá (MG), Erika Hilton (SP), Ivan Valente (SP), Pastor Henrique Vieira (RJ), Luciene Cavalcante (SP), Talíria Petrone (RJ) e Tarcísio Motta (RJ), todos ligados à ala majoritária da legenda.
A justificativa apresentada pelo grupo majoritário foi a de que Deccache fazia ataques públicos a parlamentares do PSOL e à presidente do partido, Paula Coradi. O economista nega essa acusação. Em resposta à polêmica, a direção do PSOL afirmou que a liderança da bancada na Câmara tem autonomia para definir seus assessores e que a demissão de Deccache foi um ato burocrático, sem motivação política.
O conflito dentro do partido remonta ao Congresso Nacional do PSOL realizado em 2023, quando a aliança entre as correntes Revolução Solidária (liderada por Boulos), Primavera Socialista (do ex-presidente Juliano Medeiros) e outros aliados derrotou o MES, grupo liderado por Luciana Genro. A eleição de Paula Coradi para a presidência do partido consolidou essa aproximação com o governo Lula, aprofundando as divisões internas.
O setor minoritário do partido acusa a ala majoritária de autoritarismo e falta de diálogo. “A militância não decide nada. Não há democracia interna na organização deles. E eles querem fazer a mesma coisa com o PSOL, [impor] uma organização de cima para baixo, em que a liderança manda e a militância obedece, como se gado fosse”, declarou Deccache.
A revista Movimento, vinculada ao MES, publicou um editorial criticando a condução do partido. “Esse episódio [de demissão] não é isolado. Reflete a política do setor majoritário do partido, dirigido por Guilherme Boulos, que combina adesão ao governismo com autoritarismo.”
Por outro lado, a ala majoritária sustenta que o debate foi artificialmente ampliado e que parte do PSOL não compreende os riscos do avanço da extrema-direita. “É um erro grave que parte da esquerda não compreenda os riscos do avanço da extrema-direita aqui e no mundo e tenha seu horizonte limitado a disputas internas”, afirmou o grupo ligado a Boulos em nota pública.
A assessoria de Boulos informou que o deputado não comentaria o caso e encaminhou a nota assinada pela maioria do partido.
Entre os parlamentares da ala minoritária, a possibilidade de saída do PSOL foi descartada, ao menos por enquanto. A exceção é Glauber Braga, que admitiu estar discutindo internamente se faz sentido permanecer na legenda.
A atual crise no PSOL remete às origens do partido, que surgiu de uma ruptura com o PT no primeiro governo Lula (2003-2006). Na época, parlamentares como Babá, Heloísa Helena, João Fontes e Luciana Genro se opuseram à reforma da Previdência proposta pelo governo petista e foram expulsos do partido. Como resposta, fundaram o PSOL em 2004.
Hoje, a legenda se vê novamente dividida entre um setor que deseja manter uma postura mais crítica ao governo Lula e outro que defende maior alinhamento estratégico. O desfecho dessa disputa interna pode ter impactos significativos não apenas no futuro do PSOL, mas também na configuração da esquerda brasileira nos próximos anos.
Fotos: PSOL 50

