Desde que foi eleito pela primeira vez para a Presidência da República, em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva não enfrentava uma rebelião interna no Partido dos Trabalhadores (PT) tão intensa como a atual. A crise foi desencadeada dentro da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), a mais influente do partido. Uma ala desse grupo, do qual Lula faz parte, não aceita a indicação de Edinho Silva para a presidência da legenda.

Edinho, ex-prefeito de Araraquara, se reuniu nesta terça-feira (11) com a nova ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e com o presidente interino do PT, senador Humberto Costa (PE). Buscando apoio para sua candidatura, ele tenta construir consenso dentro da legenda. No entanto, diante da resistência interna, aliados do ex-prefeito cogitam antecipar a formalização de sua candidatura para consolidá-la.

As eleições internas do PT estão marcadas para 6 de julho e permitirão que os filiados escolham a nova cúpula do partido. Entretanto, os embates públicos dentro da CNB têm provocado divisões, levando militantes a apelidarem a corrente de “Construindo uma Nova Briga”.

As divergências também levantaram suspeitas sobre filiações em massa motivadas pela disputa. De outubro de 2023 a fevereiro de 2024, o PT registrou 341 mil novos filiados, um crescimento de 13%, elevando o número total para quase três milhões de membros.

A tensão se intensificou após um jantar na residência de Gleisi Hoffmann, no último dia 6, no qual Lula foi alertado sobre a resistência a Edinho dentro da CNB. Participantes do encontro argumentaram que seria necessário um nome alternativo para a presidência do partido. “Vamos buscar um candidato que unifique o PT e fortaleça o governo“, declarou o deputado Jilmar Tatto (SP), secretário de Comunicação do partido.

O vazamento do jantar irritou Lula, que não quer ser visto como refém das disputas internas do PT. A fragmentação dentro do partido ocorre em um momento delicado, com a popularidade do presidente em queda e a necessidade de ampliar alianças para 2026. O próximo presidente do PT terá papel estratégico na condução da campanha presidencial de Lula ou de seu sucessor político.

Para acalmar os ânimos, a coordenação da CNB divulgou uma nota pedindo respeito a Lula. O comunicado ressaltou que ele foi convidado para a reunião onde ficou definido que Humberto Costa assumiria a presidência interina do partido. “Lula é uma referência legítima nos processos internos do PT e merece respeito”, destacou o texto.

Entretanto, durante o jantar, Lula ouviu duras críticas a Edinho. Alguns membros da CNB apontaram que sua proximidade com figuras envolvidas nos escândalos do mensalão e da Lava Jato poderia desgastar ainda mais o partido. O encontro contou com a participação de Gleisi Hoffmann, Jilmar Tatto, Humberto Costa, José Guimarães (CE), Paulo Okamotto, Washington Quaquá e Gleide Andrade.

Edinho, que foi ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) no governo Dilma Rousseff, se disse indignado com o vazamento da reunião. “Lula caiu em uma armadilha”, afirmou. “É revoltante que um encontro para buscar unidade tenha sido usado como instrumento de luta interna.”

Na ocasião, Lula ponderou que nunca houve um candidato à presidência do PT eleito por unanimidade e defendeu Edinho. No entanto, afirmou que a escolha seria feita em conjunto com a CNB.

A disputa pelo controle da tesouraria do PT é um fator central na crise. O partido administra cerca de R$ 700 milhões anuais, oriundos dos fundos partidário e eleitoral. Edinho resiste à permanência de Gleide Andrade, secretária de Finanças do PT, que pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Em 17 de fevereiro, o Diretório Nacional do PT aprovou uma alteração no estatuto do partido, permitindo que dirigentes e parlamentares concorressem a mais um mandato mesmo após três gestões consecutivas. A medida, apelidada de “emenda Gleide”, favorece a reeleição da atual tesoureira e ampliou o embate interno.

“Nosso desafio é reeleger Lula e garantir a unidade do partido. E vamos conseguir”, disse Humberto Costa, que ocupa interinamente a presidência do PT.

Conflitos internos não são novidade no PT. Em 1994, uma ala à esquerda, liderada por Rui Falcão (SP), derrotou o grupo de Lula e assumiu o controle da legenda antes da eleição presidencial. Agora, porém, Lula ocupa a Presidência da República e enfrenta um racha dentro de sua própria corrente política.

Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil


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