O ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos) estreou nesta terça-feira, 1º, a rádio Maravilha FM em Belo Horizonte. A emissora, voltada ao público evangélico, marca a retomada da presença pública de Cunha em Minas Gerais, estado onde o ex-presidente da Câmara dos Deputados começa a intensificar sua agenda com o objetivo de disputar novamente uma vaga no Legislativo Federal.

A programação da Maravilha FM inclui notícias, esportes, pregações evangélicas e música gospel. Cunha faz participações frequentes, com mensagens transmitidas de hora em hora. Em uma delas, às 13h, afirmou: “A paz do senhor Jesus. Provérbios, capítulo 15, versículo 1º: ‘A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira’. Que as bênçãos de Deus nos alcancem nesta hora.”

Durante toda a tarde, Cunha leu versículos do livro de Provérbios, sempre iniciando com a saudação “a paz do senhor Jesus” e encerrando com o pedido “que as bênçãos de Deus nos alcancem nesta hora.”

Esta não é a única investida de Cunha no setor radiofônico em Minas. Outras cinco rádios registradas no estado pertencem a Daniel de Sá, marido da deputada federal Dani Cunha (União-RJ), filha de Eduardo Cunha. Sá assumiu as emissoras entre 2024 e 2025 em cidades como Além Paraíba, Carangola, Guarani, Raul Soares e Leopoldina. Cunha já atuava em rádios gospel no Rio de Janeiro, o que reforça sua aposta nesse segmento em Minas.

Em 2025, Cunha ampliou sua presença em municípios mineiros como parte de sua estratégia de retorno à Câmara. Em 26 de junho, o ex-deputado desembarcou no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte e foi recebido com vaias e gritos de “ladrão” por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo relatos, Cunha estava no mesmo voo de Bolsonaro, mas não chegou a participar da agenda do ex-presidente.

No dia 30 de junho, Cunha visitou Além Paraíba (MG) e reuniu-se com vereadores locais. O vereador Reginaldo Regisom (PL) tratou Cunha como pré-candidato: “O encontro discutiu o futuro de Além Paraíba, com foco em atrair investimentos, destravar projetos e fortalecer o município nos cenários estadual e federal. Este encontro é mais um passo para garantir que Além Paraíba receba a atenção e os recursos que merece.”

Além disso, Cunha participou em abril da Expozebu, em Uberaba (MG), evento que reuniu lideranças da centro-direita, e esteve na inauguração de uma Igreja Mundial do Poder de Deus em Araxá (MG) ao lado de Valdemiro Santiago. Também patrocinou um time de futebol de Uberaba.

Lideranças políticas mineiras afirmam que, até o momento, não houve conversas formais com Cunha sobre uma possível candidatura. Filiado ao Republicanos, Cunha poderia interferir nas ambições eleitorais do senador Cleitinho (Republicanos), que planeja disputar o governo de Minas em 2026.

Em dezembro de 2024, Cleitinho fez um duro discurso no Senado contra a possibilidade de Cunha voltar à política: “A vontade que eu tinha era de dar um murro na cara de um cara como Eduardo Cunha, que quer ser candidato. Mas não pode, porque o culpado ainda vira a gente. Esses caras devem estar tomando uísque e rindo da cara do povo.”

O deputado federal Euclydes Pettersen, presidente estadual do Republicanos, negou qualquer articulação com Cunha. “Entrei em contato com o presidente nacional Marcos Pereira e perguntei se houve conversação. A nível estadual, nunca houve aproximação ou negociação com Eduardo Cunha para candidatura em Minas. Também não houve contato a nível nacional.”

Cunha, que presidiu a Câmara entre 2015 e 2016, foi o responsável por abrir o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o que o tornou um adversário histórico do PT. No entanto, nem mesmo integrantes do PL, partido do ex-presidente Bolsonaro, admitem conversas sobre filiação de Cunha. “Nem o partido e nem ele chegaram a tratar disso conosco”, disse o deputado federal Domingos Sávio, presidente estadual do PL em Minas Gerais.

Cunha teve seu mandato cassado em setembro de 2016 por quebra de decoro parlamentar, após mentir na CPI da Petrobras ao afirmar que não possuía contas secretas na Suíça. A cassação foi aprovada por 150 votos a favor, dez contrários e nove abstenções. A denúncia que levou à abertura do processo partiu da Rede e do PSOL.

Pouco depois, em outubro de 2016, Cunha foi preso preventivamente em Brasília, permanecendo detido até 2021. No ano seguinte, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou a condenação de mais de 16 anos de prisão que ele havia recebido no âmbito da Operação Lava Jato.

Atualmente, Eduardo Cunha mantém laços com importantes figuras da política nacional. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, iniciou sua trajetória política com o apoio direto de Cunha. Em 2016, o ex-deputado foi um dos principais articuladores da candidatura de Motta à liderança do MDB, embora o paraibano tenha sido derrotado por Leonardo Picciani (RJ) por sete votos, após forte intervenção de aliados do governo Dilma Rousseff.

Motta, que integrou o grupo de jovens parlamentares que orbitavam Cunha — ao lado de nomes como André Fufuca, atual ministro do Esporte —, presidiu a CPI da Petrobras por indicação direta de Cunha em 2015. Essa mesma CPI contribuiu para o processo que levou à cassação do padrinho político.

No desfecho de 2016, Motta votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, mas se ausentou na votação que cassou o mandato de Eduardo Cunha.

Mesmo com pendências relacionadas à Lei da Ficha Limpa, Cunha se candidatou a deputado federal por São Paulo em 2022, mas obteve apenas pouco mais de cinco mil votos. Já sua filha, Dani Cunha, foi eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro com mais de 75 mil votos.

Hoje, com Dani Cunha atuando em Brasília, Eduardo Cunha mantém presença constante na capital federal. Ele participou, inclusive, da festa que comemorou a eleição de Hugo Motta como presidente da Câmara, em fevereiro deste ano, reforçando seus laços políticos e sinalizando que ainda busca espaço no cenário nacional.

 

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil