O empresário Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti, alvo da Operação Sem Desconto, decidiu permanecer em silêncio diante da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS após responder às perguntas iniciais do relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). A decisão, anunciada por seu advogado, Thiago Machado, marcou o tom de um depoimento cercado de desconfiança e tensão política nesta segunda-feira (6), no Congresso Nacional. “O Fernando vai permanecer, a partir de agora, em silêncio. Não vai dizer sim ou não”, afirmou o defensor.
Cavalcanti é ex-sócio do advogado Nelson Willians, investigado pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU) por envolvimento em um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A operação, deflagrada em abril do ano passado, apura um sistema que desviava mensalidades de associações de aposentados e pensionistas.
O empresário obteve um habeas corpus do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe garantiu o direito de não responder a perguntas que pudessem incriminá-lo. Mesmo assim, no início de seu depoimento, por volta das 16h30, negou qualquer participação nas fraudes. “Nunca fui laranja, atuador ou beneficiário de qualquer esquema. Minha atuação sempre foi de gestor, e os pagamentos recebidos foram compatíveis com minhas funções e com a minha vida”, declarou.
Durante a Operação Sem Desconto, a PF apreendeu mais de vinte veículos de luxo pertencentes a Cavalcanti, entre eles uma Ferrari avaliada em cerca de R$ 4,5 milhões, uma réplica de carro de Fórmula 1 e diversas motocicletas. Os automóveis estavam guardados em um shopping de Brasília, para onde haviam sido levados um dia antes da deflagração da operação.
“Contra Fernando Cavalcanti não pesa qualquer investigação de envolvimento direto em fraude com o INSS. Os veículos são de propriedade da minha empresa, adquiridos de forma lícita. Alguns ainda estão em financiamento, como a Ferrari, que termino de pagar em 2027. Aqui em Brasília é comum que carros sejam guardados em estabelecimentos comerciais”, justificou o empresário.
Além dos veículos, a PF apreendeu dezenas de relógios de luxo e vinhos avaliados em mais de R$ 7 milhões. O relator da CPMI questionou a rápida evolução patrimonial de Cavalcanti, que em 2017 trabalhava na Assembleia Legislativa de São Paulo como assessor parlamentar, recebendo pouco mais de R$ 5 mil mensais. “Em 2017 eu tava vindo da Assembleia e tinha um patrimônio que não chegava a R$ 100 mil. Em 2025, meu patrimônio está declarado no imposto de renda, mas é uma informação que não quero detalhar aqui”, respondeu o empresário.
O deputado Alfredo Gaspar rebateu: “Já vimos movimentações do senhor com Nelson Willians e com Camisotti de milhões de reais. Vou trazer para a CPMI esse exemplo de sucesso que é o senhor”.
Nelson Willians é dono de um dos mais caros escritórios de advocacia do país e é conhecido por exibir uma vida de luxo nas redes sociais. Ele teria atuado com Maurício Camisotti e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontados como os principais operadores do esquema de corrupção.
O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), criticou a postura da defesa e afirmou que Cavalcanti estaria utilizando o espaço da comissão como estratégia judicial. “É impossível que alguém saia de São Paulo ganhando R$ 5 mil por mês e, em poucos anos, amealhe um patrimônio de R$ 200 milhões em carros e uma adega de R$ 7 milhões. As quebras de sigilo e as movimentações financeiras mostram que ele é parte de um esquema sofisticado”, disse.
Viana reforçou que a PF investiga Cavalcanti como suposto “laranja” e destacou inconsistências entre seus rendimentos declarados e o patrimônio acumulado. “Os dados mostram que ele não tem lastro para justificar tantos bens valiosos. Mesmo com declarações de imposto de renda, é difícil explicar a origem de tanto dinheiro”, afirmou.
O senador classificou o grupo investigado como uma “máfia” que teria corrompido servidores públicos e mantido relações estreitas com políticos. “É uma quadrilha que tomou de assalto a Previdência, com liberdade de acesso ao Congresso e doações a campanhas. É um modus operandi conhecido, sustentado por uma sensação de impunidade, como se jamais fossem descobertos”, observou.
A CPMI também aguarda resposta do ministro André Mendonça, do STF, sobre o pedido de reconsideração de um habeas corpus que permite a Maurício Camisotti não depor à comissão. “O Camisotti é fundamental para entendermos como todas as peças se encaixam nesse esquema de roubo da Previdência. Esperamos a resposta do ministro, e, se for necessário, farei nova visita ao Supremo”, disse Viana.
Entre as entidades sob investigação da PF e da CGU está a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), suspeita de ser controlada por intermediários ligados a Camisotti. De acordo com os dados da operação, as contribuições dos associados cresceram de R$ 135 mil em 2021 para quase R$ 14,9 milhões em 2022, e saltaram para R$ 91 milhões em 2023, o que reforça as suspeitas de desvio sistemático de recursos.
O relator Alfredo Gaspar afirmou que a CPMI continuará a rastrear os fluxos financeiros das associações e das empresas ligadas aos investigados. “Esses números mostram a dimensão de uma estrutura que se infiltrou nas aposentadorias e pensões de milhões de brasileiros, desviando recursos de quem mais precisa”, declarou.
A CPMI do INSS, instalada em 2024, tem o objetivo de apurar irregularidades em descontos de mensalidades associativas, fraudes em empréstimos consignados e desvios de verbas públicas. As investigações contam com apoio técnico da Polícia Federal, da CGU e do Tribunal de Contas da União (TCU). O colegiado também deve convocar novos depoimentos de empresários e ex-gestores públicos ligados às investigações para esclarecer o destino dos valores desviados e os vínculos políticos envolvidos.
Ao final da sessão, o presidente Carlos Viana afirmou que a CPMI seguirá reunindo provas e que o caso poderá ser encaminhado ao Ministério Público Federal. “O que está em jogo aqui é a dignidade dos aposentados brasileiros. Esses recursos foram retirados de quem contribuiu por décadas. Nosso papel é expor, punir e impedir que esse tipo de esquema volte a se repetir no país”, concluiu.
Foto: Lula Marques/Agência Brasil

