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Por Mônica Bergamo

A OID (Organização Interamericana de Defensoras e Defensores das Audiências) e a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) criticaram nesta terça-feira (1º) as falas do diretor-presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Glen Lopes Valente, que tem pressionado os veículos da estatal, como a TV Brasil, a reduzirem a cobertura jornalística sobre a pandemia da Covid-19.

Como mostrou a coluna, Valente afirmou, durante uma conversa com a chefia da empresa na semana passada, que “é chato” falar da crise sanitária diariamente e que a campanha de imunização contra o vírus “não é um negócio emocionante” para ser veiculado constantemente.

A EBC —que tem sob sua gestão a TV Brasil, a Agência Brasil e rádios públicas— é alvo de críticas internas e públicas de funcionários, que afirmam haver censura do governo Jair Bolsonaro (PL) nas redações da empresa e ingerência nas atividades jornalísticas.

Para a OID, entidade que é presidida por Joseti Marques, ouvidora-geral da EBC de 2014 a 2018, emitiu nota afirmando que “informar sobre a pandemia e todos os fatos relacionados não é uma mera questão de programação televisiva, mas de prestação de serviço público à população”.

No comunicado, a organização diz que “repudia com veemência a interferência do diretor-presidente na orientação jornalística dos veículos públicos de comunicação, principalmente a TV Brasil“.

“Ao considerar que o jornalismo de emissoras públicas deve seguir o modelo de algumas empresas comerciais, nas quais prevalece o vale tudo na busca por audiência, o diretor-presidente da EBC demonstra não apenas desconhecimento da importância da comunicação pública e sua previsão constitucional, mas também insensibilidade ao considerar que informações sobre a pandemia de Covid-19 e seus desdobramentos não devam ser noticiadas porque, segundo suas próprias palavras, ‘é chato’ falar de crise sanitária”, afirma a OID.

Ainda segundo a nota, “a EBC é uma empresa pública federal, criada para dar efetividade ao princípio constitucional de complementaridade entre o sistema público, privado e estatal de comunicação. Portanto, apesar do flagrante desvirtuamento de sua missão sob a gestão do atual governo, cabe aos veículos da EBC primarem por atender, acima de tudo, ao interesse público”.

A ABI também disse repudiar as afirmações do diretor-presidente da EBC e, em nota assinada pelo presidente da associação, Paulo Jeronimo, lembrou que a pandemia de Covid-19 já matou cerca de 630 mil brasileiros.

“Para a ABI, o acesso à informação pelos cidadãos é um direito constitucional, e a tentativa de manipular o noticiário ou, até mesmo, censurá-lo configura um crime contra o Estado democrático de Direito.”

A fala de Glen Lopes Valente recomendava a redução do espaço dado à pandemia em veículos de comunicação pública sob o guarda-chuva da EBC.

“Eu acho que tem que dar, mas não todo dia, entendeu? Todo dia é chato. Entendeu? Porque… ‘De novo?'”, disse Valente na ocasião. “Acho [que tem] que, uma vez por semana, fazer um destaque do que está acontecendo. Todo dia ficar falando de vacinação… Sabe, não é um negócio emocionante”, disse.

Ele ainda comparou a pandemia da Covid-19 ao surto de H1N1. “Que nem teve o Tamiflu para a influenza, vai ter alguma coisa [medicamento para tratamento]”, afirmou, minimizando a duração da crise.

Segundo funcionários, os comentários de Valente não se restringem à chefia dos veículos —ele também tem pressionado as equipes por um “jornal leve”, classificando as edições que falam da crise como “jornal pesado”. Procurada, a EBC diz que não irá comentar.

O diretor-presidente compartilha em seu perfil no Twitter postagens de ministros do governo sobre feitos de suas respectivas pastas e conteúdos que exaltam a gestão federal e o presidente Bolsonaro.

Fonte: Folha de São Paulo


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