A entrada do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado na corrida presidencial passou a redesenhar o cenário político no campo e provocou um freio na aproximação entre o agronegócio e o senador Flávio Bolsonaro. A expectativa inicial de aliados do parlamentar era de que o setor consolidasse apoio ainda na fase de pré-campanha, movimento que agora tende a se tornar mais lento e incerto.
Embora ainda distante de Flávio nas pesquisas de intenção de voto, Caiado possui histórico consolidado de interlocução com produtores rurais e lideranças do agro. Durante sua gestão em Goiás, políticas voltadas ao setor foram bem avaliadas. Dados do Ministério da Agricultura indicam que o estado registrou crescimento de 23% na exportação de grãos em 2025 na comparação com o ano anterior, desempenho frequentemente citado por aliados como prova de alinhamento com o campo.
Antes da confirmação da candidatura de Caiado, aliados de Flávio tratavam como natural a adesão do agronegócio ao nome do senador. A leitura era de que a proximidade histórica entre o setor e o bolsonarismo, construída desde 2018, garantiria apoio progressivo, mesmo sem manifestações públicas imediatas. A estratégia previa uma aproximação gradual, iniciada por parlamentares da bancada ruralista e ampliada posteriormente por entidades representativas.
Com a nova configuração, lideranças do setor passaram a adotar postura mais cautelosa. Conversas mais avançadas com a pré-campanha de Flávio foram desaceleradas, e o momento agora é de observação. A intenção é manter diálogo com diferentes pré-candidatos antes de uma definição mais clara.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo, Tirso Meirelles, resume o cenário ao apontar uma divisão no primeiro turno. Segundo ele, o setor ainda acompanha o ambiente político e evita assumir compromissos antecipados. A estratégia passa por apresentar uma pauta comum aos pré-candidatos, com demandas ligadas à segurança jurídica no campo, previsibilidade do Plano Safra, ampliação do seguro rural e melhoria da infraestrutura.
A entrada de Caiado reforça esse movimento não apenas por ampliar o número de opções, mas também pelo capital político acumulado ao longo de sua trajetória. Médico e pecuarista, ele construiu carreira ligada aos interesses do campo e foi um dos fundadores da União Democrática Ruralista, entidade que ganhou projeção nos anos 1980.
Na pré-campanha, o discurso de proximidade com o agro deve ser central. Entre as medidas destacadas por apoiadores estão a extinção de cobranças sobre o setor em Goiás, investimentos em logística rural e revisão de multas aplicadas a produtores. Essas ações são apresentadas como exemplos de políticas alinhadas às demandas do campo.
No campo governista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também tentou ampliar diálogo com o agronegócio em seu terceiro mandato, ainda que com resultados limitados. Apesar de avanços como a ampliação de recursos do Plano Safra, declarações do presidente geraram resistência entre produtores.
O cenário não se alterou de forma significativa nem com a atuação do senador Carlos Fávaro, que deixou o Ministério da Agricultura para disputar as eleições e possui interlocução com o setor. A aproximação, contudo, não foi suficiente para ampliar o apoio ao governo.
No entorno de Flávio Bolsonaro, a mudança é vista como um revés parcial. O agronegócio era considerado peça-chave para conferir sustentação econômica ao projeto eleitoral. Agora, será necessário disputar espaço com Caiado, que reúne credenciais próprias junto ao setor.
Diante desse novo quadro, cresce dentro do PL a possibilidade de compor chapa com a senadora Tereza Cristina como vice. A ex-ministra é reconhecida como uma das principais representantes do agronegócio no Congresso e poderia ajudar a reduzir resistências.
Apesar das incertezas, aliados de Flávio avaliam que o processo ainda está em fase inicial e que o apoio poderá ser consolidado ao longo da campanha. Já entre lideranças do agro, a tendência é manter cautela e ampliar o poder de influência até a definição mais clara do cenário eleitoral.
Foto: Divulgação/ GEG

