Subir ao palco, segurar o microfone e convencer o público em apenas três minutos de que a sua ideia pode mudar a indústria nacional. Esse foi o desafio lançado aos participantes do primeiro Festival Curicaca, realizado em Brasília entre os dias 7 e 11 de outubro. Promovido pelo governo federal e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o evento reuniu centenas de jovens empreendedores em uma grande “batalha de startups”, com foco em soluções tecnológicas sustentáveis e premiações que somaram R$ 200 mil.
O festival, inspirado em grandes conferências internacionais de tecnologia e inovação, contou com quatro palcos instalados na Arena BRB, no Estádio Mané Garrincha, e programação gratuita. Durante cinco dias, o público acompanhou debates, oficinas e apresentações voltadas à transformação digital e à sustentabilidade industrial.
“Nosso objetivo é aproximar indústria, inovação, universidades e institutos federais, fortalecendo a discussão sobre o futuro da produção brasileira, que não é mais feita de chaminé e fumaça, mas de biotecnologia e sustentabilidade”, declarou o presidente da ABDI, Ricardo Capelli. Segundo ele, o Curicaca é parte de uma agenda mais ampla ligada à Nova Indústria Brasil (NIB), política lançada pelo governo em 2024 que prevê investimentos de R$ 300 bilhões até 2026 para impulsionar a modernização do setor produtivo.
O destaque do festival foi o Desafio Nacional de Inovação, no qual 350 projetos se inscreveram para disputar 20 prêmios de até R$ 15 mil. No formato conhecido como “pitching”, as startups tinham apenas três minutos para apresentar suas ideias a uma banca de especialistas. “É uma experiência muito intensa, que exige preparo e clareza. Para o nosso projeto, esse tipo de rodada é fundamental para crescer”, contou Antônio Silveira, de 19 anos, estudante da Faculdade Tecnológica de Pompéia Shunji Nishimura, no interior paulista.
Silveira é um dos 12 integrantes da startup *Vigilância Agrícola e Resposta Digital*, criada a partir de um projeto de extensão acadêmico. A equipe desenvolveu um sistema que combina técnicas tradicionais de captura de pragas com inteligência artificial para otimizar o uso de armadilhas em plantações. O objetivo é reduzir os danos causados por insetos como os tripes, que afetam culturas de algodão e outras lavouras. “Esse primeiro suporte financeiro ajuda muito. A gente precisa transformar o protótipo em um produto comercializável e buscar a patente tecnológica”, explicou.
O grupo já havia vencido outra competição, o Desafio de Inovação Holambra Cooperativa, conquistando um prêmio de R$ 15 mil. Agora, eles buscam atrair investidores e ampliar o uso da tecnologia no campo.
Além das apresentações das startups, o festival organizou dez “trilhas do conhecimento” que abordaram temas como energia renovável, biotecnologia, economia circular, segurança tecnológica, transformação digital e inclusão social. Uma das mesas mais concorridas discutiu a presença feminina nas *deep techs* brasileiras, enquanto outro painel analisou os efeitos da desinformação sobre o setor industrial. “Falar de inovação também é falar de diversidade e de responsabilidade social. A indústria do futuro precisa incluir e educar”, afirmou Capelli durante uma das sessões.
As discussões foram intercaladas com atrações culturais. “A gente quis mostrar que inovação e cultura caminham juntas”, explicou o diretor de programas da ABDI, Rodrigo Moreira. A noite de encerramento contou com um show do cantor Jorge Aragão no palco principal do Mané Garrincha, enquanto em outros espaços de Brasília se apresentaram artistas como DJ Marky e a banda Dead Fish.
O evento teve o apoio da Petrobras, que destinou parte dos recursos por meio da Lei Rouanet, e contou com a parceria de entidades do setor produtivo, universidades e incubadoras tecnológicas. A ABDI destacou que o Curicaca deve se tornar um festival anual, ampliando o número de participantes e as oportunidades de conexão entre startups e investidores.
De acordo com os organizadores, o principal legado do encontro é demonstrar que inovação e sustentabilidade podem ser motores do desenvolvimento industrial brasileiro. “Temos empresas e jovens talentos provando que é possível lucrar com a restauração ambiental, com a reciclagem e com o uso inteligente dos recursos naturais. Não é caridade, é economia criativa e produtiva”, ressaltou Capelli.
O público estimado foi de mais de 10 mil pessoas ao longo dos cinco dias de programação. Além de palestras e competições, o Curicaca abrigou estandes de incubadoras, institutos federais e startups em busca de parcerias. “O que a gente viu aqui foi uma vitrine de talentos e ideias que podem transformar o país”, afirmou a pesquisadora Camila Borges, que apresentou um projeto sobre biotecnologia voltada à produção de medicamentos.
Os vencedores da “batalha de startups” receberam prêmios de até R$ 15 mil cada, totalizando R$ 200 mil distribuídos entre os projetos mais promissores. Para muitos, o reconhecimento representa o primeiro passo rumo ao mercado. “O incentivo é pequeno perto do que ainda precisamos, mas é um sinal de que vale a pena investir em ciência e tecnologia no Brasil”, comentou Silveira ao final do evento.
Com a mistura de competição, conhecimento e cultura, o Festival Curicaca encerrou sua primeira edição reafirmando a importância da inovação sustentável como caminho para o desenvolvimento econômico e social. “O que começa aqui é um novo ciclo para a indústria brasileira, em que a criatividade e a responsabilidade ambiental andam de mãos dadas”, concluiu Capelli.

