Em 24 de maio de 1866, na Batalha de Tuiuti, o então tenente-coronel Emílio Luís Mallet, ao ser informado sobre o avanço da cavalaria paraguaia contra as defesas brasileiras, respondeu: “Eles que venham; por aqui não passarão”. O oficial se tornaria patrono da Artilharia e, anos depois, impediria um massacre em Peribebuí, em 1869, ao intervir contra a degola de comandantes paraguaios determinada pelo Conde d’Eu.

Na semana passada, a “cavalaria inimiga” assumiu outra forma: um grupo de oficiais da reserva, ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, tentou insuflar a crise política dentro dos quartéis. Foram neutralizados pelo comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, sem necessidade de confrontos formais. “O consenso no Alto-Comando é de que a crise é política e não deve contaminar a instituição”, relataram fontes.

Os generais avaliam que o objetivo da ultra direita era provocar uma crise militar para fragilizar Tomás e abrir caminho a um golpe. Comparações foram feitas com os anos 1960, quando grupos armados — tanto à esquerda quanto à direita — afirmavam agir “em nome do povo” sem perguntar se ele desejava tal radicalização. “Em uma República, o Exército não pode ser braço armado de partido”, lembraram oficiais, ressaltando que excessos do STF não configuram ditadura.

O apoio ao ministro da Defesa, José Múcio, é unanimidade na cúpula. “A rejeição ao golpismo não significa adesão ao petismo”, reforçam, destacando que simpatias políticas não devem se sobrepor à legalidade.

Na quinta-feira, duas solenidades reuniram a alta oficialidade. Na promoção de oficiais-generais, o então chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general Richard Nunes, destacou: “É preciso instruir e orientar subordinados para assegurar o caráter perene de uma instituição calcada no respeito à hierarquia e à disciplina”.

Entre os promovidos estava Marcelo Zucco, irmão do deputado Luciano Zucco (PL-RS), um dos líderes da ocupação do Congresso. Mais tarde, na transmissão do EME para o general Francisco Humberto Montenegro Júnior, Richard fez um tributo a Tomás: “Conte sempre com este soldado para manter inexpugnável a fortaleza da hierarquia e da disciplina: ‘Eles que venham. Por aqui não passam!’”.

Presentes à cerimônia, além de Múcio e Tomás, estavam antigos chefes do EME e generais recém-promovidos. Tomás retribuiu: “Seu farol são a lei e a ética; e sua consciência, a sua maior julgadora. É assim que o seu comandante o vê, como verdadeiro soldado”.

Desde 2022, Tomás e Richard são alvo de ataques da ultra direita, que busca desestabilizar o país. Para o comando militar, as mensagens e gestos da semana passada reafirmam que a trincheira do Exército está do lado da ética e da legalidade, ecoando o lema de Mallet.

Foto: Cap Edvaldo/Exército Brasileiro

 

 

 


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