O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) será o coordenador da equipe de transição do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos próximos dois meses. O grupo deverá se instalar na sede do CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), em Brasília, e se manter na ponte aérea com São Paulo.

O anúncio foi feito nesta tarde pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann, após encontro com Lula e outros coordenadores de campanha em um hotel em São Paulo. Os petistas pretendem acelerar o processo de transição para evitar qualquer problema por parte do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo Gleisi, ela e o ex-ministro Aloízio Mercadante (PT) deverão compor a equipe da coordenação, chefiada por Alckmin. O vice eleito foi escolhido em especial por seu perfil de centro. Para petistas, o ex-tucano tem a imagem e o perfil do governo de conciliação que o grupo quer formar neste primeiro momento.

A gente já mostrou isso [intenção de formar um grupo pluripartidário] durante a campanha, quando a gente fez essa frente ampla. Ele é o vice-presidente eleito, tem mais do que legitimidade para isso”, disse Gleisi.

O grupo já deve fazer reuniões nessa quinta-feira (3) com a gestão Bolsonaro. Ela deverá ligar ainda nesta tarde para Ciro Nogueira e marcar um encontro. Segundo ela, o primeiro assunto a ser tratado será o orçamento do ano que vem, decidido pelo Legislativo atual.

Com certeza, [o primeiro tema] é a questão orçamentária. Geraldo Alckmin já teve um contato com o [presidente do Senado] Rodrigo Pacheco. Wellington [Dias], que vai ser senador, já está em contato com a Comissão Orçamentária, então nosso primeiro foco será essa questão”, disse a presidente.

O grupo petista deverá ter 50 pessoas, entre políticos, técnicos e servidores. Ela reforçou ainda que os nomes indicados não serão necessariamente ministros do novo governo, assunto a ser decidido para quando Lula voltar de uma viagem de lua-de-mel à Bahia nesta semana.

Quem participa dessa comissão de transição não quer dizer que vai ser ministro. Não há definição para ministério, o presidente Lula não entrou nesse assunto. Não há essa urgência”, disse Gleisi.

Na tarde de ontem (31), Gleisi e o prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT), coordenador de comunicação da campanha, conversaram por telefone com o ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP), na tentativa de “quebrar o gelo” na transição entre os dois grupos.

Internamente, o PT não espera qualquer facilitação da gestão atual no acesso a dados e informações, e diz temer até sabotagem. Com Lula liderando as pesquisas desde o ano passado e as diversas ameaças do presidente em não aceitar o resultado, o partido se prepara há meses para fazer uma transição praticamente sozinho.

Para a cúpula petista, já está dado que Bolsonaro só deverá fazer o que a lei manda —e de jeito protocolar e mal feito. Petistas acham que as pastas não darão acesso a parte das informações. Alguns ministérios podem ser pior do que outros, em especial os geridos por ministros ligados à chamada “ala ideológica” do governo, como Comunicações, Educação, Relações Exteriores e Defesa.

Nos bastidores, há ainda um medo de que setores do governo atual façam um movimento de sabotagem deliberado: deixem a nova gestão no escuro ao máximo que puder e, em casos extremos, cheguem a apagar arquivos.

Por isso, a cúpula petista entende que o quando mais ágil for estabelecido o grupo e iniciar esse processo de transição, melhor será. Em meio ao alvoroço dos caminhoneiros, Gleisi e Edinho conversaram com Ciro Nogueira ontem e Alckmin trocou mensagens com o atual vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos).

A reportagem os petistas afirmaramm que as duas conversas foram “cordiais”. Segundo o PT, Ciro se colocou à disposição para ajudar a facilitar a transição nos próximos dois meses.

Em Brasília, a equipe petista ficará instalada na sede do CCBB. Segundo os petistas, o local já foi oferecido por Ciro Nogueira e deverá ser oficializado assim que o governo Bolsonaro indicar sua equipe.

Trata-se do mesmo prédio em que em 2002 Lula fez a transição do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 2002. À época, Antônio Palocci, que assumiria o Ministério da Fazenda, coordenou o grupo, que contava ainda com os ex-ministros Aloízio Mercadante (PT) e Gilberto Carvalho (PT), que compõe o entorno lulista até hoje.


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