O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve uma vitória expressiva no campo digital após a derrubada, pela Câmara dos Deputados, da Medida Provisória (MP) que funcionava como alternativa ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Segundo relatório da consultoria Bites, divulgado com exclusividade pelo jornal “O Globo”, perfis ligados à esquerda dominaram amplamente o debate nas redes sociais, transformando a derrota parlamentar em uma narrativa favorável ao Planalto.

Desde a votação, foram registradas 552,4 mil menções feitas por governistas, o que representa 74% das 764,5 mil postagens sobre o tema nos últimos três dias. Expressões como “Congresso Inimigo do Povo” tornaram-se recorrentes, marcando presença ainda mais forte do que na ocasião da votação da chamada “PEC da Blindagem”.

“O uso dessas expressões pelos governistas apareceu mais do que no momento da PEC da Blindagem, o que mostra a relevância do movimento e a capacidade de articulação digital do governo Lula”, afirmou André Eler, diretor adjunto da Bites.

Apesar do predomínio nas redes, o resultado no Congresso foi uma das principais derrotas do governo no campo político. A MP, que previa tributação de títulos de investimento e cobrança retroativa de impostos de empresas de apostas esportivas (“bets”), foi rejeitada por 251 votos a 193. Com isso, o governo deixou de garantir uma arrecadação estimada em 31,6 bilhões de reais e terá de adotar medidas de contenção de gastos da ordem de 14,9 bilhões de reais, resultando em impacto total de 46,5 bilhões de reais no orçamento até o próximo ano.

Nos bastidores, auxiliares do Planalto já reconheciam, desde o dia anterior à votação, que não havia votos suficientes para aprovar a MP. Integrantes da base tentaram reverter o quadro por meio de sucessivas reuniões com lideranças partidárias, mas a mobilização não surtiu efeito. Ainda assim, o governo decidiu levar a proposta à votação para deixar registrada a posição de cada parlamentar.

Aliados de Lula interpretam a reação à MP como um ensaio para a disputa eleitoral de 2026. Segundo interlocutores do Planalto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), teria atuado para convencer congressistas a se posicionarem contra o texto, usando o argumento de que sua aprovação daria “30 bilhões de reais para Lula gastar em ano eleitoral”.

Foto: Ricardo Stuckert / PR


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