Enquanto setores do governo federal seguem adotando um discurso de confronto com o Congresso Nacional, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, vem atuando para restabelecer o diálogo com as lideranças da Câmara dos Deputados. Parlamentares do Centrão já demonstram disposição para “virar a página” e “sentar para conversar com o governo”, desde que o Palácio do Planalto não tente recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reverter a decisão que derrubou o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

Entre os líderes partidários, há também a expectativa de que o governo assuma o compromisso de avançar em medidas que fortaleçam o ajuste fiscal. Desde que o decreto do IOF foi rejeitado, o Planalto vem insistindo na defesa do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, destacando que ele tem promovido o que chamam de “justiça tributária”. Nas redes sociais, a comunicação do governo reforça uma narrativa de “nós contra eles”, com foco na defesa dos mais pobres.

Apesar do tom mais duro em público, integrantes do governo reconhecem, nos bastidores, que é preciso recuperar terreno. Nos últimos dias, Gleisi tem procurado líderes do Centrão para retomar as pontes. Depois da derrota expressiva no Congresso, a ministra fez contato com parlamentares para entender as razões do resultado. Eles explicaram que a resistência ao aumento de impostos é muito forte entre as bases eleitorais, o que inviabilizou uma posição diferente.

Auxiliares próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmam que, mesmo após a derrota, os canais de diálogo com o Centrão nunca foram completamente interrompidos. “O governo precisa compreender que nem sempre vamos caminhar juntos. Essa postura de confronto não contribui. É hora de virar a página e abrir diálogo com o governo. Quero conversar com a Gleisi nesta semana, estou pronto para negociar. Vamos olhar para frente”, afirmou o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas Fernandes.

Para o líder do MDB, Isnaldo Bulhões, o governo precisa demonstrar disposição em discutir contrapartidas, como o corte de gastos públicos, o que pode atrair o apoio de parcelas da classe média, historicamente mais críticas ao presidente Lula. “O governo precisa abrir esse debate. Rever estatais que perderam sentido, rediscutir o tamanho do Estado com foco na eficiência. Esse é um diálogo que a classe média quer ter, mas há resistências dentro do governo. O diálogo não foi rompido. O que o Congresso expressou foi a falta de ambiente para aumento de tributos. Esse foi o recado político”, avaliou Bulhões.

Com o objetivo de manter o ritmo de votações de interesse do Planalto antes do recesso parlamentar, Gleisi e o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), tentam agendar uma conversa com o deputado Arthur Lira (PP-AL). Lira é o relator do projeto que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R\$ 5 mil. O texto é considerado prioritário pelo governo e os petistas querem utilizar a medida como trunfo eleitoral na disputa presidencial de 2026.

Apesar da importância atribuída ao projeto, Lira decidiu adiar a entrega de seu parecer. O texto deveria ter sido publicado na última sexta-feira, mas aliados informaram que o deputado preferiu aguardar. Segundo interlocutores, a proposta está pronta, mas Lira entendeu que o clima político não era favorável para a apresentação imediata.

Enquanto Gleisi busca reconstruir o diálogo, líderes do Congresso relatam um crescente distanciamento de Haddad. Deputados afirmam que a relação com o ministro da Fazenda começou a se desgastar no início do ano, especialmente diante da percepção de que ele estaria impondo dificuldades para a liberação de emendas parlamentares. O decreto sobre o IOF agravou a situação e foi entendido como uma decisão unilateral de Haddad, sem consulta prévia aos deputados.

Ministros que mantêm interlocução com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com Gleisi têm defendido que ambas as partes busquem um armistício para reduzir a tensão e superar a crise. Para esses auxiliares, o governo acertou ao defender a justiça fiscal e adotar um discurso coeso após a derrota, mas também precisa demonstrar que não deseja prolongar o ambiente de confronto.

Interlocutores informam que Gleisi e Hugo Motta não conversaram desde a rejeição do decreto do IOF. Nesse cenário, parlamentares lembram que o Congresso possui instrumentos para pressionar o governo, como a possibilidade de indicar o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) para a relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, o que poderia criar embaraços para o Planalto.

Aliados de Gleisi afirmam que a ministra não tem interesse em manter um clima de enfrentamento, mas reforçam que o debate público sobre a tributação dos super-ricos precisa avançar. A ministra continua dialogando com lideranças da Câmara e deve intensificar esses contatos nos próximos dias para tentar construir novas pontes e evitar impasses futuros.

Foto: Divulgação / SRI

 


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