Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Engana-se quem acredita que o assassinato de um candidato à presidência da República no Equador seja fato isolado e que diga respeito apenas às questões internas daquele país.
Dificilmente alguém bem informado conseguirá desvincular a morte de Fernando Villavicencio, um jornalista que, nos últimos anos, especializou-se em denunciar corrupção no governo de Rafael Correa (2007-2017) e na petroleira estatal de lá, a Petrocuador, de episódios da Operação Lava Jato.
Se no Brasil, a Lava Jato está para lá de desmoralizada, com a revelação de bastidores que expos a canalhice e subserviência aos interesses dos Estados Unidos por parte de Deltan Dallagnol e de Sérgio Moro, em outros países ela continua viva e fazendo estragos.
Seus métodos como o lawfare (uso da Justiça para perseguir adversários), golpes via parlamento e a disseminação de fake news, pelas redes sociais e também pela velha mídia, estão mais presentes do que nunca.
É o caso do Equador, mas também do Peru e da Argentina.
A execução de Villavicencio, com vários tiros, quando saia de uma escola em Quito, após participar de um ato de campanha eleitoral, foi reivindicada por um grupo autodenominado Los Lobos. Pelo que tem sido divulgado pela mídia corporativa de lá e replicado aqui, o grupo seria formado por colombianos, com forte envolvimento no tráfico de drogas. Mais ainda: a mídia equatoriana, desde o primeiro momento, tentou jogar a responsabilidade por este assassinato em apoiadores de Rafael Correa.
O Equador enfrenta uma grave crise política. Para escapar a mais uma tentativa de impeachment, o presidente Guillermo Lasso dissolveu a Assembleia Nacional e convocou novas eleições. Foi a primeira vez que o artigo da Constituição conhecido como “Morte Cruzada” foi aplicado. Pela lei, ao dissolver a Assembleia, Lasso estava obrigado a antecipar as eleições presidenciais.
O assassinato de Villavicencio aconteceu faltando 10 dias para as eleições, marcadas para 20 de agosto. Apesar de ter sido decretado estado de sítio, as eleições, pelo menos até agora, estão mantidas.
Para desespero de Lasso, um dos homens mais ricos do Equador cujo nome aparece em listas de paraísos fiscais, quem lidera a disputa é a ex-deputada Luisa González, aliada e ex-integrante do governo de Rafael Correa.
Ao todo sete candidatos estão na disputa, com Luisa liderando com folga e chances reais de vitória no primeiro turno. Villavicencio se encontrava num distante quinto lugar, mas sua morte pode alterar a situação e jogar a disputa para o segundo turno, onde tudo pode acontecer.
País riquíssimo em petróleo e recursos minerais, o Equador experimentou, durante os anos de governo de Rafael Correa, enorme desenvolvimento. A frente do movimento denominado Revolução Cidadã, ele direcionou a renda do petróleo para programas sociais e administrou a Petrocuador, a Petrobras de lá, de forma soberana.
Tais posturas incomodaram os ocupantes da Casa Branca, que consideram inadmissível um país da América do Sul integrar a OPEP, entidade que reúne os grandes exportadores mundiais de petróleo e fixa o preço cobrado por barril.
Ao longo do governo, Correa enfrentou duas tentativas de golpe. Conseguiu debela-las em grande medida graças ao forte apoio que possui junto à população.
Tanto que foi reeleito e conseguiu eleger seu sucessor, o vice-presidente Lenin Moreno.
Uma vez no poder, Lenin foi cooptado pelos interesses estadunidenses. Uma de suas primeiras ações foi suspender o asilo político que Correa havia concedido ao jornalista australiano Julian Assange, líder dos WikiLeaks.
Perseguido pela Casa Branca por revelar atrocidades dos militares dos Estados Unidos contra civis durante a Guerra do Iraque, Assange foi extraditado para a Inglaterra, onde se encontra preso.
Há, no momento, há uma campanha mundial, da qual o presidente Lula faz parte, em defesa da liberdade para Assange. Como jornalista, ele não cometeu nenhum crime.
Suas denúncias estão comprovadas por vídeos e documentos.
Ao longo do governo, Lenin rompeu com Rafael Correa e passou a persegui-lo.
Correa foi alvo de acusações não comprovadas e de julgamento viciado, que o condenou a oito anos de prisão por corrupção. A maior parte das acusações tinha relação com a Petroecuador, numa enorme semelhança com o que aconteceu com Lula. Várias dessas acusações foram baseadas em elementos fornecidos pela Operação Lava Jato, que se intrometeu na vida do Equador.
Como Lula, Rafael Correa mantem enorme força junto aos setores mais pobres da população. Por pouco, seu candidato Andrés Arauz, não foi vitorioso na eleição passada. Como sua candidata agora tem chance de vencer no primeiro turno, a morte de Villavicencio deve ser vista dentro de um contexto não só político como geopolítico, no momento em que a hegemonia dos Estados Unidos se vê abalada e alvo de questionamentos por todo o Sul Global.
Não falta nem mesmo quem veja nesse assassinato uma armação no gênero “facada” levada às últimas consequências.
Se explorada como está sendo, pode reforçar candidaturas de direita e viabilizar o segundo turno.
Lasso só venceu as eleições de 2021, porque sob o patrocínio velado dos Estados Unidos, um candidato que se apresentava como indígena, o economista Yaku Perez, que não tinha nada de indígena, dividiu os votos da esquerda e levou o pleito para o segundo turno. Milhões de dólares e uma enxurrada de fake news completaram o serviço.
Yaku Pérez está de novo no páreo, mas longe de empolgar os eleitores. A depender do desenrolar dos fatos, o risco maior é dos votos de Villavicencio reforçar o segundo colocado, Otto Sonnenholzner, um nome de direita, que conta com o apoio velado de Lasso e, por tabela, dos Estados Unidos.
Lasso repassou para o FBI a tarefa de investigar esse assassinato.
Com a economia dolarizada, o Equador vive crise sem precedentes. Mesmo a miséria e o desemprego atingindo índices alarmantes, a mídia faz de tudo para convencer a população de que o problema maior é “impedir a volta dos corruptos ao poder”.
Já vimos esse filme antes.
A situação no Peru guarda semelhanças com o que se passa no Equador. Depois de seis presidentes em menos de três anos, numa eleição duríssima em meados de 2021, venceu o candidato de um pequeno partido de esquerda, o professor e sindicalista Pedro Castillo.
Como a vitória foi apertada, a candidata derrotada, a extremista de direita, Keiko Fujimori, pediu recontagem de votos. Foi feita e confirmou a vitória de Castillo. Mesmo assim, sua posse só ocorreu, depois que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reconheceu o resultado, um mês após ter sido proclamado.
Castillo, nos 11 meses que duraram seu governo, enfrentou oposição cerrada do Congresso, onde a direita e de extrema-direita dominava a quase totalidade das cadeiras. A oposição era tamanha, que nem aprovar nomes de ministros e do primeiro-ministro, uma das características do presidencialismo de lá, ele conseguia.
Para superar o impasse, Castillo acionou o dispositivo “Morte Cruzada”, presente também na Constituição peruana. Ao contrário do Equador, ele foi derrubado pelo Congresso, num golpe branco que guarda muitas semelhanças com o que aconteceu com Dilma Rousseff, em 2016.
É interessante observar como a mídia corporativa brasileira, quando aborda esse episódio, trata Castillo como golpista, ao mesmo tempo em que Lasso é apresentado como o presidente que se valeu do que determina a Carta Magna de seu país.
Quanto à Dilma, até agora apenas a mídia alternativa refere-se à sua deposição como o golpe parlamentar, jurídico e midiático que foi.
Castillo está preso, condenado preventivamente a três anos de detenção por ser o suposto líder de uma organização criminosa que cometeu delitos na Petroperu, a Petrobrás de lá.
Novamente, a Lava Jato, está no centro do processo, mesmo a maioria de suas ações já tendo sido anuladas no Brasil.
Dina Boluarte, a vice de Castillo (a maldição dos vices?) assumiu e, desde então, o Peru encontra-se mergulhado numa guerra civil não declarada.
Mais de 70 pessoas já morreram em conflitos com forças policiais na capital Lima e no interior do país. Os movimentos sociais exigem a convocação de novas eleições e tacham Dina de “impostora”. Ela se mantem no poder graças ao apoio dos Estados Unidos, que fazem do Peru uma espécie de plataforma para se intrometer na vida dos países da América do Sul, especialmente onde há governo progressista.
Vale mencionar, ainda, que o Peru foi o país que mais sofreu com denúncias, sem provas, da Lava Jato. Denúncias que levaram ao suicídio, em 2011, o ex-presidente Alan Garcia, pouco antes de ser preso no caso da construtora Odebrecht.
Sobre o assunto, recomendo a leitura do “Livro Uma Guerra contra o Brasil”, do empresário Emílio Odebrecht. Ele explica esse episódio em detalhes.
Não por acaso esse livro teve repercussão próxima de zero na mídia, mesmo o autor tendo chegado a ser o mais importante empresário brasileiro.
Às vésperas das eleições primárias, que acontecem na Argentina neste domingo (13/8), a população enfrenta as consequências diretas do lawfare contra a ex-presidente e atual vice, Cristina Kirchner. Seus dois mandatos (2007-2015) tiveram cunho fortemente desenvolvimentista e política externa soberana.
Foi o bastante para jogar sobre ela a ira do Tio Sam.
O candidato à sua sucessão, Daniel Sciole, foi derrotado pelo neoliberal Maurício Macri, um amigo dos Estados Unidos. Macri deixou a Argentina numa crise econômica de tamanha magnitude, que nem o retorno dos peronistas ao poder, com Alberto Fernandez como presidente e Cristina como vice, conseguiu debelar. Vale lembrar que Macri assinou com o FMI, às vésperas do encerramento de seu mandato, um empréstimo impagável.
O resultado é conhecido. Pandemia, queda nas exportações e graves problemas sociais levaram a inflação a ultrapassa os 100% ao ano. Como o país não dispõe de reservas externas (dólares) para fazer face aos compromissos da dívida, se não fosse a China – que comprou a parte dessa dívida que venceu agora – os peronistas não teriam qualquer chance nas eleições de outubro.
Para os interesses imperialistas do Tio Sam, seria ótimo a Argentina chegar às eleições mergulhada no caos, pois aumentaria as chances de candidatos que se pautam pela cartilha neoliberal retornarem à Casa Rosada.
Para quem não sabe, replicas de Bolsonaro estão presentes em vários países vizinhos. O exemplar argentino atende pelo nome de Javier Milei, um bizarro e performático economista que vê comunista debaixo da cama.
Até o momento, Cristina se mostra decidida a não disputar as eleições, preferindo se concentrar na defesa dos vários processos que pesam contra ela. Processos que repetem, quase ipsis litteris, o lawfare que Lula enfrentou.
A compra de parte da dívida externa argentina pela China, um componente com o qual a Casa Branca não contava, tornou-se ingrediente de suma importância nesse quadro.
A coisa que menos interessa à Casa Branca, seja ela ocupada por democrata ou republicano, é uma maior presença econômica da China na América do Sul. Por outro lado, os Estados Unidos não movem uma palha para auxiliar os países da região.
A maneira encontrada por Washington para tentar manter o controle é através do combate, não declarado, aos governos progressistas. Combate que atende pelo nome de guerra híbrida.
A mídia corporativa latino-americana, cuja matriz se localiza em Washington, obviamente, finge que não sabe de nada disso.
Ao contrário. Quando noticia esses fatos, o faz sem qualquer contextualização, como se fossem pacotes isolados numa prateleira.
Aliás, você já reparou como a mídia brasileira quase nunca aborda o que se passa nos países vizinhos? Sabemos muito mais do que acontece em Nova York, Londres ou Paris do que em Quito, Lima ou Buenos Aires.
As exceções são quando acontecem mortes, tragédias e acidentes climáticos.
Num quadro como esse, a eleição de Lula para um terceiro mandato significou um divisor de águas.
Desenvolvimentista, ele tem obtido importantes vitórias nesses pouco mais de sete meses. Político experiente, mestre no diálogo e na negociação, Lula precisa estar preparado para novos e cada vez mais duros enfrentamentos.
Se o cerco a Bolsonaro está se fechando e dificilmente o ex-capitão escapará de processos e da prisão, isso está longe de significar que os setores alinhados com os interesses externos, do parlamento aos militares, passando pela mídia e pelo judiciário, se deram por vencidos.
As críticas que Lula tem recebido na mídia nacional e internacional por sua política externa que prioriza a união da América Latina e o fortalecimento do BRICS, principal instrumento para um mundo multipolar, deixa visível o leque dos interesses contrariados.
Por tudo isso, Lula precisa levar a sério a denúncia que a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, fez em seu pronunciamento durante a Cúpula da Amazônia, encerrada na última terça-feira.
Delcy defendeu a soberania dos países que integram a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica – Equador, Peru e Brasil fazem parte – e disse, com todas as letras, que quem está por trás das ameaças contra o presidente Lula são aqueles “alinhados ao Norte” e que “preferem ter governos nos países amazônicos que sejam complacentes com atividades ilícitas e com a destruição da biodiversidade”.
Seis dias antes, um homem havia sido preso em Belém por ameaçar a vida de Lula.
A Lava Jato está desmoralizada, mas a guerra híbrida e seus velhos e novos métodos, estão mais presente do que nunca na América do Sul.
Lula, liderança maior da região e uma das principais do mundo multipolar que se delineia, precisa redobrar os cuidados.

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