A possível entrada em vigor, a partir de 1º de agosto, da tarifa de 50% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, preocupa não apenas o agronegócio brasileiro, mas também o setor industrial. Dados do Monitor do Comércio Brasil-EUA, produzido pela Amcham Brasil, revelam que as exportações industriais brasileiras para o mercado norte-americano atingiram US\$ 16 bilhões no primeiro semestre de 2025, um crescimento de 8,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Caso a taxação seja implementada, boa parte dessas vendas poderá se tornar inviável.
Diante da gravidade do cenário, o governo federal corre para definir uma resposta. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou, na noite de domingo, uma reunião extraordinária para tratar do tarifaço. Participaram do encontro o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, e técnicos do Ministério da Fazenda.
Mais cedo, Alckmin afirmou que o governo editará, até terça-feira, o decreto que regulamenta a Lei de Reciprocidade Econômica, dispositivo que permitiria ao Brasil adotar medidas de retaliação. “Nós vamos trabalhar para reverter isso, porque não tem sentido essa tarifa”, declarou o vice-presidente em São Paulo. “Entendemos que ela é inadequada, ela não se justifica”, completou.
A regulamentação da lei pode autorizar o país a impor tarifas sobre produtos norte-americanos, suspender concessões comerciais, restringir investimentos e até revisar direitos de propriedade intelectual concedidos a empresas dos Estados Unidos.
A importância do mercado norte-americano para a indústria brasileira ficou ainda mais evidente com os números recentes. No primeiro semestre de 2025, os EUA se consolidaram como o principal destino das exportações industriais do Brasil, com 12,4% do total, à frente de parceiros tradicionais como Mercosul (US$ 11,5 bilhões), União Europeia (US$ 10,8 bilhões) e China (US$ 9,7 bilhões).
Em nota, a Amcham manifestou preocupação com os efeitos do tarifaço: “O recente anúncio de tarifas de 50% para o Brasil a partir de 1º de agosto tem o potencial de inviabilizar parte expressiva das exportações brasileiras para os EUA. A Amcham defende esforço diplomático para uma solução negociada no curto prazo.”
Entre os produtos industriais mais vendidos aos americanos estão aeronaves da Embraer (US$ 1 bilhão), produtos semiacabados de ferro ou aço (US$ 1,9 bilhão) e óleos combustíveis (US\$ 830 milhões). Analistas alertam que a Embraer será uma das empresas mais afetadas caso as tarifas sejam mantidas.
Apesar do bom desempenho exportador, a balança comercial bilateral no setor industrial continua negativa para o Brasil. O déficit foi de US$ 3,7 bilhões no primeiro semestre de 2025, um aumento de 55,6% em relação ao mesmo período de 2024. No geral, a indústria aumentou sua participação nas exportações para os EUA de 76,6% para 79,8%, impulsionada especialmente por bens oriundos da agroindústria.
Considerando todos os setores, o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos somou US$ 41,7 bilhões neste ano, um avanço de 7,7% em comparação com 2024. É o segundo maior valor da série histórica e mantém os EUA como o segundo maior parceiro comercial do Brasil em bens. As exportações brasileiras totalizaram US$ 20 bilhões, alta de 4,4%, enquanto as importações de produtos americanos chegaram a US$ 21,7 bilhões, aumento de 11,5%. O saldo resultou em déficit de US$ 1,7 bilhão para o Brasil.
Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, a tarifa pode causar impactos significativos. “Os impactos dessas tarifas podem ser graves para a nossa indústria, que é muito interligada ao sistema produtivo americano. Uma quebra nessa relação traria muitos prejuízos à nossa economia. Por isso, para o setor produtivo, o mais importante agora é intensificar as negociações e o diálogo para reverter essa decisão”, avaliou.
Especialistas apontam que a regulamentação da Lei de Reciprocidade Econômica fortalece o Brasil em uma eventual negociação com os Estados Unidos, embora represente riscos caso ocorra uma escalada no conflito. “Entendo que vai ser preciso negociar, mas há uma diferença quando se tem um arcabouço jurídico que permite utilizar instrumentos para responder às retaliações de Trump. Usar essa lei fortalece o Brasil nas negociações”, afirmou a advogada Vera Kanas, especialista em comércio internacional do escritório VK Law.
Ela também avaliou que a carta de Trump tem motivações políticas, algo que deve ser desconsiderado no processo de negociação. “O Brasil é um país com poderes independentes e soberania. A alegação de perseguição política a Bolsonaro, usada por Trump, não deve interferir”, afirmou.
Outro especialista, o advogado João Amadeus, tributarista do escritório Martorelli Advogados, destacou que os impactos não se restringem ao agronegócio. “A indústria e o comércio também serão afetados. Se o Brasil recorrer à Lei de Reciprocidade, há risco de agravamento da disputa comercial.”
Segundo ele, a conjuntura econômica atual do Brasil não permite adotar uma postura de confronto. “Me preocupa a questão jurídica. Se houver mais retaliações, investimentos previstos podem ser adiados. Contratações que estavam em andamento podem ser suspensas. Isso gera um efeito cascata e um ciclo vicioso de judicialização”, explicou.
A expectativa do governo e do setor produtivo é de que ainda seja possível reverter a medida. Há precedentes: em outras ocasiões, Trump recuou após pressões internas. Empresas americanas que operam no Brasil ou dependem de insumos brasileiros para sua produção podem ser decisivas nessa pressão. Internamente, o Supremo Tribunal Federal já reagiu à carta do presidente norte-americano. O ministro Luís Roberto Barroso, presidente da Corte, afirmou em resposta pública que as acusações de perseguição política carecem de fundamento e que houve “compreensão imprecisa dos fatos” por parte de Trump.
Foto: Instituto Aço Brasil / Divulgação

