O deputado Ivan Valente se despediu do Congresso Nacional após quase três décadas de atuação parlamentar e oito mandatos consecutivos. A saída ocorreu de forma discreta, após seu último discurso na Câmara, em 19 de março, quando defendeu a cassação de parlamentares acusados de desvio de emendas e fez críticas contundentes a adversários políticos.

Filiado ao PSOL, Valente não mencionou durante a fala que aquele seria seu pronunciamento final. Na condição de suplente da federação com a Rede, ele teve de devolver o mandato à titular Marina Silva. Após deixar o cargo, comunicou a aliados que não pretende disputar novas eleições, encerrando sua trajetória institucional.

A carreira política de Valente foi marcada por forte atuação ideológica e posicionamentos firmes à esquerda. Antes disso, teve participação ativa na resistência à ditadura militar, período em que foi perseguido e preso. Militante do Movimento pela Emancipação do Proletariado, passou anos na clandestinidade até ser capturado em 1977.

Durante a prisão, foi submetido a torturas, que deixaram sequelas físicas, mas não alteraram suas convicções políticas. Após a anistia, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores e mais tarde ajudou a criar o PSOL, partido pelo qual construiu sua trajetória mais longa no Congresso.

Nos últimos anos, o ex-deputado manifestou descontentamento com o ambiente político. Em avaliações públicas, afirmou que o nível de debate na Câmara caiu e criticou o aumento da polarização e da radicalização. Também demonstrou indignação com decisões recentes do Legislativo relacionadas a temas sensíveis.

Ao comentar a derrubada de veto a propostas ligadas à responsabilização de envolvidos em tentativas de ruptura institucional, Valente classificou o episódio como preocupante. Para ele, medidas desse tipo podem contribuir para a banalização de atos considerados graves no contexto democrático.

Mesmo fora do mandato, o ex-parlamentar pretende continuar atuando politicamente. Ele tem defendido que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adote uma agenda mais alinhada às pautas da esquerda, com foco em direitos trabalhistas e mobilização social.

Valente argumenta que a base governista precisa intensificar o diálogo com movimentos sociais e retomar iniciativas voltadas à ampliação de direitos. Segundo ele, a estratégia política será determinante para o desempenho eleitoral nos próximos anos.

Em paralelo à trajetória política, Valente também enfrentou desafios pessoais. Em 2023, passou por um transplante de rim, com doação realizada por sua esposa, Vera Lúcia. A recuperação o afastou temporariamente das atividades parlamentares.

Reconhecido como perseguido político, ele teve seu processo reavaliado pela Comissão de Anistia, que concedeu indenização e pedido formal de desculpas pelas violações sofridas durante a ditadura. O gesto foi simbólico para o encerramento de um ciclo marcado por militância, resistência e atuação política contínua.

Mesmo fora do Congresso, Valente afirma que seguirá participando de debates públicos, mobilizações e atividades políticas, mantendo sua presença em espaços de articulação social e partidária.

Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados


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