Jovens de países da América Latina e do Caribe se reuniram em Brasília para discutir estratégias de enfrentamento da fome e de transformação dos sistemas agroalimentares da região. O encontro ocorreu durante a abertura do Fórum de Juventudes para a Transformação dos Sistemas Agroalimentares da América Latina e Caribe, realizado como parte das consultas preparatórias para a trigésima nona Conferência Regional da FAO, marcada para março. O debate reuniu representantes do meio rural, movimentos sociais, governos e organismos internacionais.

Durante o evento, o representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, Rene Orellana, destacou que o Brasil conseguiu sair pela segunda vez do Mapa da Fome das Nações Unidas graças ao fortalecimento de políticas públicas integradas. Segundo ele, programas como o Bolsa Família, a alimentação escolar, o apoio à agricultura familiar, a ampliação do crédito e o acesso à tecnologia foram decisivos para esse resultado.

“Toda essa política implementada nos últimos anos tem fortalecido a segurança alimentar do Brasil, que dá o exemplo porque são políticas integrais, holísticas, que favorecem o consumo, o mercado e também os produtores”, afirmou Orellana. Para ele, a articulação entre grandes, médios e pequenos produtores cria complementaridade e amplia a capacidade de resposta à insegurança alimentar.

O fórum integra uma série de consultas regionais com diferentes setores da sociedade civil, que antecedem a conferência regional da FAO. A proposta é reunir contribuições de jovens de contextos diversos, respeitando as diferenças econômicas, sociais e produtivas existentes entre os países da região. O resultado desses encontros será consolidado em um documento que servirá de base para os debates oficiais.

“Nós esperamos que essa experiência e esse conhecimento que eles têm sejam investidos em produzir um documento que dê luzes aos textos que serão discutidos na conferência regional”, disse Orellana. Segundo ele, ouvir as juventudes é essencial para garantir políticas mais conectadas à realidade dos territórios.

Presente à abertura do evento, a secretária nacional de Juventude, Vitória Genuino, defendeu a incorporação das soluções já desenvolvidas pelas juventudes e pelos movimentos sociais. Para ela, muitas respostas aos desafios da fome e da pobreza já existem nos territórios, mas precisam ser reconhecidas e fortalecidas pelo poder público.

“A gente pode fazer esses enfrentamentos a partir de tecnologias sociais existentes. Essa troca de realidades e experiências é muito importante para a produção de políticas públicas inspiradas no que a sociedade civil já faz”, afirmou. Segundo a secretária, o governo federal dispõe de instrumentos como assistência técnica, extensão rural e programas voltados à segurança alimentar.

Vitória citou iniciativas como o Programa Cozinha Solidária, que atua em áreas periféricas e vulneráveis, como exemplo de ação capaz de articular políticas públicas com a participação comunitária. Para ela, o combate à fome exige olhar integrado, que envolva produção, distribuição e acesso aos alimentos.

A representante da Guatemala e da Liga Continental das Mulheres Indígenas e Camponesas da América Latina, Hilda López, ressaltou a importância de ampliar a presença juvenil nos espaços de decisão. Segundo ela, a ausência de jovens nos processos políticos limita a capacidade de enfrentar simultaneamente a fome e a crise climática.

“Tendo esse espaço oportuno, existe muita habilidade, muito talento e muita criatividade para que a juventude possa realizar mudanças significativas”, afirmou. Para López, a participação ativa das juventudes fortalece a democracia e contribui para políticas mais eficazes.

A avaliação é compartilhada pelo representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, que defendeu maior protagonismo juvenil na cobrança e no aprimoramento dos programas governamentais. Para ele, os jovens precisam ir além da crítica e participar de forma propositiva da construção de soluções.

“Os jovens precisam ocupar espaços como este para que se envolvam de maneira ordenada, sistêmica e propositiva, indo além da simples discussão”, afirmou. Meza destacou que a juventude tem papel estratégico na renovação do setor rural e agrícola.

Durante o fórum, os participantes relataram enfrentar barreiras estruturais como dificuldade de acesso à terra, ao crédito, ao trabalho decente, à educação e às tecnologias. Esses obstáculos, segundo os jovens, contribuem para o êxodo rural e para o enfraquecimento da produção de alimentos em pequenas comunidades.

Representando jovens indígenas da região andina do Equador, Eduardo Peralta defendeu o fortalecimento da soberania alimentar como resposta à crise climática, à poluição e à perda da biodiversidade. Para ele, é fundamental valorizar os saberes tradicionais e a relação com a terra.

“É importante cuidar da Mãe Terra, a Pachamama, porque ela nos concede o alimento; é de onde tudo sai”, afirmou. Segundo Peralta, as sementes e os conhecimentos ancestrais são base para sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Sobre o êxodo rural, Jorge Meza destacou a necessidade de levar inovação e tecnologia ao campo. Para ele, o Estado deve criar condições para que os jovens permaneçam em suas comunidades, com oportunidades de renda e desenvolvimento.

“O jovem está muito mais predisposto a trabalhar em contextos de inovação e tecnologia. Se levadas ao setor rural, eles podem fazer parte desse processo de modernização”, afirmou. Segundo Meza, isso contribui para reduzir desigualdades e fortalecer economias locais.

Além da consulta às juventudes, a FAO promoveu encontros com agricultores familiares, comunidades camponesas, povos indígenas, pescadores e consumidores. Também foram realizadas consultas com setores privado, científico e acadêmico, buscando coerência regional em temas globais.

Ao final do processo, será elaborada uma declaração conjunta da sociedade civil, que será entregue aos Estados-membros durante a conferência regional. O documento deve refletir prioridades para o biênio dois mil e vinte e seis a dois mil e vinte e sete.

A Conferência Regional da FAO ocorre a cada dois anos e funciona como espaço de diálogo técnico e político. O objetivo é avaliar avanços e desafios no combate à fome, definir prioridades e avançar no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o compromisso de erradicar a fome e promover sistemas agroalimentares sustentáveis na região.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


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