O líder do PT na Câmara dos Deputados, o deputado federal Lindbergh Farias (RJ), acionou nesta terça-feira a Justiça contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a divulgação de um vídeo manipulado envolvendo uma fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As representações foram protocoladas na Advocacia-Geral da União, no Tribunal Superior Eleitoral e no Supremo Tribunal Federal. Segundo o parlamentar, o conteúdo divulgado retirou de contexto uma crítica de Lula para atacá-lo politicamente por meio de desinformação.
De acordo com Lindbergh, a publicação feita por Flávio atribuiu ao presidente declarações que não correspondem ao sentido original de seu discurso, configurando, na avaliação do deputado, uma prática deliberada de manipulação de conteúdo audiovisual. O líder petista classificou o episódio como “imputações criminosas sem qualquer respaldo factual” e afirmou que houve abuso da liberdade de expressão, desinformação estruturada e propaganda política negativa antecipada.
“A conduta ultrapassa os limites da liberdade de expressão no sentido da crítica política legítima e configura manipulação deliberada de conteúdo audiovisual, técnica típica de fake news, com alto potencial de dano institucional e eleitoral”, escreveu Lindbergh em uma das petições encaminhadas às autoridades.
O pedido ao TSE foi justificado pelo entendimento de que o processo eleitoral não se restringe ao período oficial de campanha. Para o deputado, a difusão contínua de narrativas falsas ao longo do tempo influencia a opinião pública e pode comprometer a lisura do debate político. Embora Flávio Bolsonaro tenha retirado o vídeo do ar posteriormente, Lindbergh sustenta que isso não elimina a irregularidade, já que o material continua circulando em outros perfis e plataformas.
“O processo eleitoral se constrói de forma permanente, sendo continuamente influenciado por narrativas falsas que moldam a opinião pública ao longo do tempo. A exclusão posterior da publicação não afasta a ilicitude, uma vez que o conteúdo segue sendo compartilhado e produzindo efeitos duradouros”, argumentou o parlamentar.
A fala de Lula que deu origem à controvérsia ocorreu durante uma agenda oficial na Casa da Moeda do Brasil, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira. No discurso, o presidente defendeu a ampliação do acesso à educação e criticou o atraso histórico do país na criação de universidades. Lula comparou o Brasil a outros países da América Latina e questionou a lógica histórica de exclusão educacional.
“O Brasil foi descoberto em 1500. A República Dominicana foi descoberta em 1498. Pouco tempo depois, eles já tinham universidade, enquanto aqui demorou mais de quatro séculos. Por que isso acontecia? Porque existia a ideia de que pobre não precisava estudar, que pobre nasceu só para trabalhar”, afirmou o presidente, em tom crítico.
Na sequência, Lula rebateu a noção de que apenas os ricos deveriam ocupar espaços de maior qualificação profissional. “A gente não quer ser só pedreiro ou cortador de cana. A gente também quer ser engenheiro, doutor, médico, professor”, disse, ao defender políticas de inclusão educacional.
O vídeo que circulou nas redes sociais, no entanto, apresentou apenas o trecho em que Lula menciona a frase “pobre não precisa estudar”, sem o contexto crítico em que foi dita. Esse recorte passou a ser compartilhado por políticos da direita, incluindo Flávio Bolsonaro, que publicou uma gravação reagindo ao conteúdo editado.
“Lula, você não está batendo bem da cabeça. O pobre vai fazer o que quiser, quer que o filho prospere”, afirmou o senador no vídeo. “Você empobreceu o Brasil. Você mesmo disse que, quando as pessoas ficam mais inteligentes, deixam de votar no PT”, completou.
Lindbergh também lembrou que, no início do mês, acionou a Justiça contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) por outra publicação envolvendo Lula. Na ocasião, Nikolas compartilhou uma montagem em que o presidente aparecia sendo detido por agentes dos Estados Unidos, após a captura do venezuelano Nicolás Maduro, alegando tratar-se apenas de um “meme”.
Para o líder do PT, esse tipo de conteúdo ultrapassa o humor político e pode estimular discursos graves. Ele defende que Nikolas, Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro respondam criminalmente por normalizar a ideia de intervenção militar estrangeira no Brasil.
“Esse Nikolas Ferreira tem que ser preso, está cometendo crime atrás de crime. Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro a mesma coisa. Eles estimulam abertamente uma intervenção armada e estrangeira contra o Brasil”, afirmou Lindbergh em vídeo divulgado nas redes sociais.
Foto Lula Marques/Agência Brasil

