Os líderes do Brics se preparam para discutir, na próxima semana, medidas conjuntas que fortaleçam o comércio entre os países do bloco e reforcem o multilateralismo. Embora os Estados Unidos não devam ser mencionados nominalmente, o pano de fundo das conversas será a reação às tarifas impostas pelo presidente americano Donald Trump sobre produtos brasileiros e de outras nações emergentes.

Convocada pelo Brasil, que exerce a presidência do grupo neste ano, a reunião ocorrerá em um momento delicado. O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado aumenta as tensões. Integrantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que, caso Bolsonaro seja condenado e preso, os EUA poderão ampliar sanções contra o Brasil, em linha com medidas já aplicadas contra o ministro Alexandre de Moraes.

Trump justificou parte do tarifaço de 50% sobre exportações brasileiras com base na situação de Bolsonaro. Lula, no entanto, deixou claro que não aceitará ingerências externas. “Não admitiremos que questões internas sejam usadas como moeda em negociações comerciais”, afirmou.

Segundo interlocutores em Brasília, uma das propostas em análise será ampliar o uso de moedas locais nas transações do bloco. O movimento preocupa Washington, que vê nessa medida uma ameaça ao papel do dólar como moeda dominante no comércio global. Fontes ligadas ao governo brasileiro explicaram que “essa é uma alternativa legítima para reduzir vulnerabilidades externas e dar mais independência às nossas economias”.

A reunião será realizada de forma virtual, provavelmente na segunda-feira, reunindo os 11 países do Brics: África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Índia, Indonésia, Irã e Rússia.

O encontro terá como mote oficial a defesa do multilateralismo, mas também abordará a guerra entre Rússia e Ucrânia, a situação dos palestinos na Faixa de Gaza e a preparação para a COP30, marcada para novembro em Belém. Lula reforçará pessoalmente o convite para que todos os líderes estejam presentes no evento climático.

Produtos como carnes, calçados, café, pescados, madeira, frutas, cerâmica e bens de capital foram pesadamente atingidos pelo tarifaço americano. Em resposta, o Brasil informou a Washington que avalia usar a Lei de Reciprocidade, aprovada neste ano pelo Congresso. O dispositivo legal permite adotar medidas como elevação de tarifas de importação, cassação de patentes e aumento de tributos sobre livros, filmes e produtos ligados à propriedade intelectual.

O governo também acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) e pediu consultas formais aos EUA. Os americanos aceitaram dialogar, mas especialistas estimam que o processo pode levar anos.

Além disso, Brasília enviou relatórios a Washington abordando pontos como combate à corrupção, combate ao desmatamento, tributação sobre o etanol importado, proteção de patentes, pirataria na Rua 25 de Março em São Paulo e até o uso do PIX como instrumento de pagamento.

Atualmente, os EUA investigam práticas comerciais brasileiras sob a chamada Seção 301 da Lei de Comércio, mecanismo que permite adotar novas sanções se forem identificadas práticas consideradas desleais ou ilegais.

Com o objetivo de abrir canais de diálogo, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) organiza, nos dias 3 e 4 de setembro, uma missão empresarial a Washington. O grupo reunirá cerca de 130 empresários e dirigentes de associações industriais, que terão encontros com parlamentares americanos e reuniões bilaterais com instituições parceiras.

Na quarta-feira, os representantes brasileiros participarão de uma plenária com setores público e privado dos EUA para discutir a investigação com base na Seção 301. O governo federal não enviará representantes, já que a audiência é voltada ao setor privado.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, reforçou a importância de manter pontes abertas. “Precisamos de todas as formas manter a firme e propositiva relação de mais de 200 anos entre Brasil e Estados Unidos. Nosso propósito com esta missão é aprofundar o diálogo e contribuir para as negociações por meio de argumentos técnicos que demonstrem a relevância e as vantagens mútuas dessa parceria para os dois países. As economias brasileira e americana são complementares”, afirmou.

Analistas avaliam que, embora as tarifas de Trump tenham provocado tensões, também deram novo impulso ao Brics, que passou a ter no comércio um eixo ainda mais estratégico. Para diplomatas em Brasília, “o grande feito de Trump foi tornar o Brics mais coeso e mais focado em alternativas comerciais”, sobretudo em um momento em que parte do mundo busca reduzir a dependência dos Estados Unidos.

Foto: Alexandre Brum/BricsBrasil

 

 


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