O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou neste domingo, 6 de julho, o papel desempenhado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial, afirmando que essas instituições contribuem para um sistema financeiro desigual. Segundo Lula, as economias emergentes e em desenvolvimento estão, na prática, financiando as nações mais ricas, numa espécie de “Plano Marshall às avessas”.
As declarações foram feitas durante a segunda sessão plenária da cúpula de líderes do Brics, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro. O encontro abordou temas como o fortalecimento do multilateralismo, questões econômicas globais e o desenvolvimento da inteligência artificial.
O presidente comparou a situação atual ao Plano Marshall, programa de ajuda dos Estados Unidos para reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial. Lula ressaltou que, enquanto FMI e Banco Mundial priorizam os países desenvolvidos, os fluxos de ajuda internacional para as nações pobres diminuíram e o custo da dívida dessas economias aumentou.
Aproveitando a presidência brasileira no Brics, Lula defendeu que os países do Sul Global tenham maior poder de decisão no FMI. “As distorções são inegáveis”, afirmou. “O poder de voto dos membros do Brics deveria ser de pelo menos 25%, não os 18% que temos hoje.”
Lula criticou ainda o modelo neoliberal, que, segundo ele, contribui para o agravamento das desigualdades sociais. “Três mil bilionários acumularam US\$ 6,5 trilhões desde 2015”, apontou o presidente brasileiro.
Durante seu discurso, Lula elogiou o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do Brics, destacando a adesão recente da Argélia e o avanço das negociações para entrada da Colômbia, Uzbequistão e Peru. “O Novo Banco de Desenvolvimento dá uma lição de governança”, afirmou Lula, ressaltando que o NDB oferece financiamento para uma transição justa e soberana. Criado em 2015 pelo Brics, o banco é presidido desde 2023 pela ex-presidente Dilma Rousseff e tem sede na China. O NDB também permite a participação de países que não integram o Brics. Dilma participou da sessão deste domingo e fez um discurso aos líderes.
Lula voltou a defender a implementação de justiça tributária global, com os mais ricos pagando proporcionalmente mais impostos, e o fortalecimento das ações contra a evasão fiscal. “São medidas fundamentais para consolidar estratégias de crescimento inclusivas e sustentáveis, próprias para o século XXI”, disse.
O presidente também dirigiu críticas à Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando que a paralisação da entidade e o crescimento das práticas protecionistas criam uma situação de desigualdade insustentável para os países em desenvolvimento. O comentário foi feito no contexto da guerra tarifária iniciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que passou a aplicar tarifas adicionais sobre produtos importados como forma de proteger a indústria americana.
Ainda durante o encontro, Lula anunciou que o Brics aprovou uma declaração conjunta sobre a governança da inteligência artificial. O presidente ressaltou que o documento envia “uma mensagem clara e inequívoca” de que as novas tecnologias devem ser desenvolvidas e utilizadas de forma justa, inclusiva e equitativa. “O desenvolvimento da inteligência artificial não pode se tornar um privilégio de poucos países ou uma ferramenta de manipulação nas mãos de bilionários”, declarou Lula. Ele destacou a importância da participação do setor privado e da sociedade civil nesse processo.
O presidente brasileiro celebrou a expansão do Brics, que nesta 17ª reunião incluiu, pela primeira vez, países-parceiros. Lula afirmou que essa ampliação “coroa a histórica expansão do Brics” e enriquece o bloco com diferentes visões regionais. Os países-parceiros não têm poder de voto nas deliberações, conforme o formato estabelecido na cúpula realizada em Kasan, na Rússia, em 2024.
“O Brics é um ator incontornável na construção de um mundo multipolar, menos desigual e mais pacífico”, declarou Lula. O grupo é formado por 11 países-membros: África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irã e Rússia. Juntos, esses países representam 39% da economia mundial e 48,5% da população global.
Os parceiros atuais do Brics são Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. O bloco busca fortalecer a cooperação entre as nações do Sul Global e defende maior equidade nas instituições internacionais. A presidência do Brics é rotativa entre os membros, e o Brasil será sucedido pela Índia em 2026.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

