Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmam que o petista pretende tratar do combate ao crime organizado e ao chamado “andar de cima” da criminalidade durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, previsto para esta semana. Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que a pauta poderá ser utilizada politicamente pelo governo brasileiro num momento de desgaste com o Congresso Nacional e de dificuldades nas pesquisas eleitorais.

A estratégia do governo envolve destacar ações contra crimes financeiros, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e organizações criminosas transnacionais. Nesse cenário, auxiliares de Lula afirmam que o nome do empresário Ricardo Magro, ligado à Refit, deverá aparecer nas conversas entre os dois presidentes, já que o assunto foi abordado anteriormente em diálogo mantido pelos líderes no ano passado.

Magro é apontado por autoridades como um dos maiores devedores contumazes do país. Ele foi alvo de operação da Polícia Federal em novembro do ano passado, em investigação relacionada a suposto esquema de sonegação fiscal. Os investigadores estimam prejuízo de R$ 26 bilhões aos cofres públicos. O empresário e a empresa negam qualquer irregularidade.

Dentro do governo, o caso passou a ser tratado como exemplo simbólico do combate ao crime financeiro e às organizações econômicas acusadas de utilizar estruturas empresariais para fraudar impostos. A avaliação de aliados de Lula é de que a defesa pública de medidas contra esse tipo de prática possui forte apelo junto à população e pode ajudar na recuperação da popularidade do presidente.

Em dezembro do ano passado, Lula já havia mencionado o tema após conversa com Trump. Durante evento no Palácio do Planalto, o presidente afirmou ter citado ao americano o caso de “um dos grandes chefes do crime organizado”, sem mencionar diretamente o nome do empresário. Na ocasião, o petista declarou que os Estados Unidos poderiam colaborar com o Brasil prendendo pessoas envolvidas em esquemas financeiros ilegais.

Aliados do governo acreditam que uma sinalização de cooperação entre Brasil e Estados Unidos nessa área teria impacto político relevante. O entendimento de integrantes do Planalto é de que um eventual acordo internacional voltado ao combate ao crime organizado poderia fortalecer o discurso de Lula de enfrentamento às elites econômicas acusadas de praticar crimes financeiros.

O vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou nesta terça-feira que o combate ao crime organizado estará entre os principais assuntos da reunião bilateral. Em entrevista à GloboNews, Alckmin afirmou que Brasil e Estados Unidos podem ampliar a cooperação envolvendo controle financeiro, investigação internacional e fiscalização de atividades ligadas ao comércio de combustíveis, armas e drogas.

Segundo Alckmin, o governo brasileiro considera essencial atingir não apenas operadores do crime organizado, mas também financiadores e empresários suspeitos de participar de esquemas ilegais. Sem citar diretamente Ricardo Magro, o vice-presidente declarou que houve, pela primeira vez, um enfrentamento mais duro contra grupos econômicos acusados de enriquecer por meio de fraudes tributárias.

Apesar disso, auxiliares presidenciais afirmam que o foco principal da conversa entre Lula e Trump será uma cooperação mais ampla no combate às organizações criminosas transnacionais. Um integrante do governo afirmou reservadamente que o objetivo não é personalizar a discussão em torno de um único empresário, mas ampliar mecanismos conjuntos de investigação e inteligência financeira.

Outro tema sensível previsto para a reunião é a possibilidade de os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo brasileiro tenta impedir essa medida e avalia que a eventual classificação poderia gerar impactos econômicos e diplomáticos relevantes para o Brasil.

Além do debate sobre segurança pública, Lula e Trump também deverão tratar de temas econômicos e internacionais. Entre os assuntos previstos estão as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, a exploração de minerais críticos e os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã.

A comitiva brasileira contará com ministros de diferentes áreas do governo. Devem acompanhar o presidente aos Estados Unidos representantes da Fazenda, Relações Exteriores, Justiça e Segurança Pública, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Dentro do Planalto, a pauta de combate ao crime organizado passou a ocupar espaço central na estratégia política do terceiro mandato de Lula. Integrantes do governo afirmam que o discurso contra o “andar de cima” da criminalidade vem sendo utilizado para aproximar o presidente de setores da sociedade que defendem punições mais rigorosas contra crimes financeiros e corrupção.

Aliados de Lula avaliam que o encontro com Trump também poderá ser utilizado para demonstrar capacidade de articulação internacional em meio à crise política enfrentada pelo governo no Congresso. Nos bastidores, integrantes do Executivo reconhecem preocupação com a perda de apoio parlamentar após derrotas recentes em votações importantes.

Na semana passada, o governo sofreu dois reveses expressivos. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal e o Congresso derrubou o veto presidencial relacionado ao projeto sobre dosimetria das penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

Após essas derrotas, adversários passaram a afirmar que Lula enfrenta enfraquecimento político. Setores da oposição chegaram a classificar o presidente como um “pato manco”, expressão utilizada para descrever governantes com baixo capital político e dificuldades para aprovar medidas no Legislativo.

Mesmo diante do cenário adverso, aliados do presidente defendem cautela na relação com o Congresso Nacional. Pessoas próximas a Lula afirmam que o petista orientou integrantes da articulação política a evitar novos confrontos públicos com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Governistas atribuem parte da derrota de Jorge Messias ao receio de parlamentares diante do avanço de investigações envolvendo setores políticos e empresariais. Entre os casos citados nos bastidores está o escândalo envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Integrantes do PT defendem intensificar a associação entre adversários políticos e investigações financeiras para desgastar nomes ligados ao centrão e ao bolsonarismo. Nos bastidores do governo, alguns aliados passaram a utilizar a expressão “Bolso Master” para relacionar o escândalo bancário ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Pesquisas internas que circulam no Planalto indicaram leve melhora na avaliação do governo após os episódios recentes envolvendo Jorge Messias e o Banco Master. Auxiliares de Lula afirmam que parte da população enxergou a derrota do chefe da Advocacia-Geral da União como reação de setores políticos incomodados com investigações financeiras em andamento no país.

Integrantes do governo também avaliam que a agenda internacional poderá servir para deslocar o foco das discussões políticas internas e reforçar a imagem de Lula como interlocutor relevante em negociações globais. Apesar disso, auxiliares presidenciais demonstram cautela em relação ao comportamento de Trump durante os encontros oficiais. O presidente americano é visto por integrantes do Planalto como uma figura imprevisível, capaz de alterar posições políticas rapidamente e produzir declarações de forte impacto público. Ainda assim, governistas acreditam que a aproximação entre os dois países em temas ligados ao combate ao crime organizado poderá gerar resultados concretos na cooperação policial, no intercâmbio de informações financeiras e na repressão a estruturas internacionais de lavagem de dinheiro consideradas prioritárias pela equipe de segurança pública.

Foto: Ricardo Stuckert/PR


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