Ângela Carrato – Jornalista e Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.
Se o Brasil tivesse meios de comunicação minimamente comprometidos com a democracia e a soberania nacional, as manchetes, no dia seguinte ao primeiro comício de campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Belo Horizonte, seriam: “aviso aos esquartejadores de Tiradentes: estamos de volta para fazer uma nova independência neste país”.
Esta frase, com que Lula praticamente encerrou seu discurso, sintetiza o programa que pretende implementar caso eleito. E sua vitória parece cada dia mais consolidada, como indicam todas as pesquisas de intenção de voto.
Há 230 anos, Tiradentes, herói nacional, era morto e esquartejado pelos poderosos de então, por defender a independência e o desenvolvimento do Brasil. Lula, por sua vez, passou 580 dias preso e foi alvo de todo tipo de mentira e difamação, por defender os interesses do país e da maioria do povo brasileiro.
Como estes meios de comunicação são qualquer coisa, menos comprometidos com os interesses nacionais, praticamente ignoraram o assunto. A Folha de S. Paulo, por exemplo, preferiu destacar a redução de vantagem de Bolsonaro em relação à Lula, numa manchete talhada para fomentar divisões. Como se isso não bastasse, ainda publicou, logo abaixo, quatro fotos do ocupante do Palácio do Planalto.
As imagens não são exatamente positivas para Bolsonaro, pois ele aparece numa richa com um influenciador digital. Quem conhece um mínimo sobre semiótica, sabe que elas também estão longe de ser negativas. Algo que o jornalista e um golpista-mor na história brasileira, Carlos Lacerda, há muito sintetizou: falem mal, mas falem de mim. Dito de forma contemporânea, o importante é ter visibilidade.
E isso Bolsonaro tem tido de sobra.
Já o jornal O Globo, simplesmente ignorou o comício de Lula, que reuniu na capital mineira, mais de 100 mil pessoas. A publicação local, O Tempo, fez de tudo para esconder o assunto, mencionando-o apenas num canto de página sob o título de “Avante avisa Lula que vai montar comitê ‘Luzema’ em BH”. Lula havia dito que uma das razões para ter vindo a Belo Horizonte foi apoiar o candidato Alexandre Kalil na disputa pelo governo do Estado, tecendo duras críticas ao hoje bolsonarista envergonhado governador Romeu Zema. Detalhe: a publicação mal disfarça o apoio a Zema.
A única publicação minimamente fiel ao que Lula disse foi o jornal Estado de Minas, ao manchetar uma frase do ex-presidente, abraçado a Kalil: “nós vamos fazer este estado crescer”. Não há, no entanto, explicação jornalística, para o ex-grande jornal dos mineiros não ter publicado, na primeira página, a belíssima foto da Praça da Estação, tomada por milhares de populares e bandeiras do PT e do Brasil.
Para entender o comportamento da mídia mineira e brasileira é preciso recuar no tempo a fim de observar o golpismo intrínseco nela. O Grupo Globo, seja sob o comando de Roberto Marinho ou de seus filhos, é na prática um difusor e defensor dos interesses dos Estados Unidos aqui. Não por acaso, a TV Globo só foi viabilizada a partir do ilegal acordo entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life, no início da década de 1960. Não por acaso, a TV Globo cresceu nos governos ditatoriais e sempre se pautou pelo combate a governos progressistas como os de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Lula e Dilma Rousseff.
A Folha de S. Paulo, como o Grupo Globo, apoiou a ditadura militar e o golpe travestido de impeachment contra Dilma. Ela e o Jornal Nacional, junto coma revista Veja, fizeram dobradinhas na divulgação de mentiras e difamações contra o PT e seus principais dirigentes, ao mesmo tempo em que enalteciam os Joaquins Silvérios da Operação Lava Jato.
O Tempo, propriedade do empresário e político Vittorio Mediolli, segue os interesses e humores do dono. Haja vista a recente defesa que fez da candidatura de Aécio Neves para o Senado, quando até o próprio Aécio sabia que só lhe restava disputar a reeleição para deputado federal.
Principal veículo do que restou dos Diários Associados, o Estado de Minas historicamente está longe de qualquer compromisso com a democracia. Não só tramou como foi apoiador de primeira hora do golpe militar de 1964. Era no edifício Acaiaca, no centro de Belo Horizonte, onde funcionava a TV Itacolomi, propriedade dos Associados, que aconteceram reuniões de empresários e jornalistas a favor da deposição de Goulart.
Engana-se quem acredita que este jornal mudou. Ele apenas está se adaptando às circunstâncias. Ao ver Mediolli fechado com Zema, a alternativa foi ficar com Kalil. Está do lado certo, mesmo que por linhas tortas e sem qualquer compromisso com os fatos.
Lamentavelmente é isso o que temos. O leitor, ouvinte ou telespectador literalmente que se dane, pois esta mídia não se sente e não está comprometida com a informação. Prova disso é que escondeu do seu “respeitável público” os compromissos firmados por Lula em seu discurso: fim do garimpo em terras indígenas, criação do ministério dos Povos Originais, recriação dos ministérios das Mulheres e da Igualdade Racial, fim à privatização da Petrobras e da Caixa Econômica Federal.
Lula colocou o dedo nos interesses do capital nacional e internacional, responsáveis maiores pelos golpes no Brasil. Grupos que lá fora e aqui posam de defensores do meio ambiente, mas que deixam para nós apenas buracos e mortes. A população de Minas Gerais que o diga! Acabar com a discriminação em relação aos povos originários, aos negros e às mulheres significa não mais tolerar crimes, preconceitos e salários desiguais. É importante lembrar que a primeira medida tanto dos golpistas em 1964 quanto de Temer, em 2016, foi alterar a legislação trabalhista.
É importante destacar também que o fato de metade da população brasileira estar desempregada ou subempregada não se deve a nenhum acaso. Precarizar o trabalho no Brasil é o projeto permanente de uma classe dominante que não tem nenhum compromisso com o desenvolvimento do país. Desde que o seu lucro esteja garantido, para ela tanto faz que voltemos a ser colônia.
Dar um basta na destruição da Petrobras e da Caixa Econômica Federal são dois outros aspectos que arrepiam os golpistas brasileiros, inclusive a mídia. Ligados como são aos interesses do Tio Sam, eles querem continuar entregando o petróleo brasileiro e mantendo a Petrobras como vaca leiteira de seus acionistas privados. Pouco importa que os brasileiros venham pagando com suor e lágrimas os bilhões de reais distribuídos a cada trimestre a uns poucos oligarcas brasileiros e estrangeiros. Por tudo isso, Lula ainda enfrentará muitas dificuldades até a eleição e não terá um minuto de trégua em seu governo.
Na época da Inconfidência Mineira não havia imprensa. As informações eram passadas de boca em boca ou através de rudimentares panfletos. Nos dias atuais, a mídia tem todas as possibilidades de informar com fidelidade e em tempo real. Não o faz porque não lhe é conveniente. Os séculos se passaram, mas os inimigos do Brasil continuam os mesmos.
Nas eleições de outubro, precisamos retomar a nossa independência.
