Belém (PA) — O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimiento de Afectados por Represas (MAR) marcaram o primeiro dia da Cúpula dos Povos, nesta quarta-feira, 12 de novembro, com uma agenda de mobilização e debate político de impacto, que uniu o ativismo nas águas à presença institucional.
O grito das águas
A manhã começou com a Barqueata Histórica (9h às 14h), um dos momentos mais simbólicos da Cúpula. O MAB e o MAR estiveram no ato político sob as águas, que reuniu cerca de 200 embarcações e milhares de pessoas.
O trajeto, que percorreu o Rio Guamá e a Baía do Guajará, foi uma denúncia viva contra as corporações que barram e contaminam os rios, expulsando comunidades e aprofundando a crise climática. A participação dos movimentos reafirma a exigência sobre o fim do modelo de exploração e a reparação imediata dos danos causados por grandes projetos de infraestrutura.
Seminário internacional e presença institucional
No período da tarde, a luta pela reparação e justiça climática migrou para o Centro de Eventos Benedito Nunes (CEBN), na UFPA. O Seminário Internacional sobre as realidades das populações atingidas (14h às 16h30) foi o palco de um debate profundo sobre as consequências globais das barragens e da crise climática.
A fala inaugural do Seminário Internacional coube à Letícia Oliveira, coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e moradora de Mariana (MG). Ela trouxe a memória incontornável dos dez anos de impunidade e do rastro de destruição social e ambiental deixado pelo rompimento da barragem da Samarco (Vale/BHP) em sua cidade, definindo o tom de denúncia e exigência de reparação para o debate.
Em seu depoimento, Letícia Oliveira relembrou as consequências devastadoras do crime da Vale em Mariana, mas também destacou que a lógica de exploração e impunidade não é exclusiva do Brasil. Ela citou exemplos globais, como o caso da Chevron no Equador, que nos anos 1980 deixou resíduos de petróleo na Amazônia equatoriana, e inúmeras situações semelhantes enfrentadas por comunidades em países da África. A fala da coordenadora do MAB sublinhou, assim, o caráter internacional e sistêmico dos crimes ambientais corporativos.
“Não vivemos isso apenas no Brasil. Tivemos o caso da Chevron, no Equador, que na década de 1980 deixou resíduos de petróleo na Amazônia equatoriana. E há situações semelhantes em países da África”.
O ato político de encerramento do encontro ganhou um peso institucional significativo com a presença de Ministros representantes do governo brasileiro: Anielle Franco, Ministra da Igualdade Racial do Brasil; Wellington Dias, Ministro do Desenvolvimento Social e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil e Paulo Teixeira, Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil.
O seminário reforçou a exigência de que as políticas públicas sejam direcionadas às populações mais impactadas, com foco na soberania territorial e na transição justa.
O Ministro Wellington Dias (MDS), por sua vez, garantiu o apoio institucional do Governo Federal à causa dos atingidos:
“É um momento de reflexão, mas também de esperança. Cada vez mais, tragédias como essas deixam de ser histórias isoladas e passam a ser debatidas em fóruns globais, com o olhar da humanidade sobre elas. Esse movimento é um passo gigante para fortalecer a luta dos povos atingidos e para garantir que o desenvolvimento não venha à custa da dor de ninguém. No Brasil, temos importantes parcerias, lideradas pelo presidente Lula, para avançar nesse debate e construir soluções justas e sustentáveis. Contem com o MDS e com o Governo do Brasil.”
Carta Pública
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimiento de Atingidos por Represas y Crisis Climatica (MAR) anunciaram, na ocasião, o lançamento da Carta Pública, documento que consolida as demandas e as vozes das organizações e comunidades que lutam por justiça socioambiental. Elaborada a partir dos intensos debates e trocas de experiência do IV Encontro Internacional, esta Carta será formalmente entregue à Cúpula dos Povos, servindo como uma plataforma de pressão e diálogo.
O objetivo é assegurar que as questões críticas relativas aos impactos de grandes empreendimentos, a defesa dos territórios e a urgência da crise climática – sob a perspectiva dos povos mais afetados – sejam incorporadas de maneira inegociável nas tratativas globais . Este documento representa o compromisso transnacional dos movimentos em exigir responsabilidade histórica e um novo paradigma de desenvolvimento que priorize a vida sobre o lucro.
O dia 12 de novembro, marcado pela força da Barqueata e pelo peso político do Seminário Internacional, consolidou a agenda do MAB e MAR na Cúpula dos Povos. A presença de Ministros de Estado e a voz contundente dos atingidos, como Letícia Oliveira, transformaram o encontro em um ato de exigência global por reparação e justiça climática. A mensagem que emerge das águas e dos debates é inequívoca: a resistência dos povos das águas e das florestas, unida ao apoio institucional e internacional, é a única via para desmantelar o modelo de exploração corporativa e construir um futuro baseado na soberania popular e no fim da impunidade.
Foto: JOKA_MAB

