Uma tecnologia pioneira, desenvolvida na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais, está impulsionando o uso da macaúba — palmeira nativa do Cerrado — e ampliando significativamente seu potencial como fonte de biocombustível sustentável. Essa inovação, resultado de mais de 15 anos de pesquisa, abre caminho para o cultivo comercial em larga escala, inclusive em áreas degradadas, e consolida o óleo vegetal extraído de seus frutos como alternativa viável ao combustível fóssil na aviação civil.
A pesquisa, conduzida no Laboratório de Reprodução Vegetal da Unimontes e apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), é coordenada pelo professor Leonardo Ribeiro. O grupo desenvolveu um protocolo inédito capaz de reduzir o tempo de germinação das sementes da macaúba de até dois anos para apenas duas semanas.
“Nosso grupo estuda tecnologias para favorecer a germinação e a produção de mudas em larga escala. Dessa forma é possível a implantação de cultivos e a expansão da cultura que tem sido interesse de empresas e da iniciativa pública”, explica o pesquisador. “A quebra da dormência da semente foi o gargalo que a ciência conseguiu resolver”.
Os resultados permitiram identificar que a baixa taxa de germinação era consequência da dormência natural das sementes, mecanismo que retarda a germinação para garantir a sobrevivência da espécie em ambientes áridos. Em condições normais, apenas cerca de 10% germinavam no período de até dois anos, inviabilizando o cultivo industrial.
O laboratório também trabalha com outras palmeiras, como o buriti (Mauritia flexuosa) e o coquinho azedo (Butia capitata), destacando-se nacionalmente pelos avanços na germinação de espécies oleaginosas. “Essa palmeira é muito importante porque é uma das espécies vegetais mais oleaginosas que se conhece. Nós procuramos entender vários aspectos reprodutivos da macaúba para que sejam importantes na geração de tecnologias”, afirma Túlio Oliveira, bolsista de pós-doutorado.
Os protocolos inéditos resultaram em uma patente registrada em 2013 e concedida em 2018. Em 2023, a tecnologia ganhou impulso comercial: a patente foi transferida para a Acelen Energia Renovável, multinacional do setor energético, em um projeto com aportes bilionários. A parceria gerou investimentos superiores a R$ 300 milhões, e o projeto total prevê aportes de até R$ 3 bilhões em plantios e unidades de beneficiamento, consolidando a macaúba como matéria-prima estratégica para a produção de bioquerosene de aviação.
O acordo de licenciamento resultou na instalação de um polo tecnológico em Montes Claros, que utiliza a tecnologia da Unimontes para produzir até 10 milhões de mudas por ano, com projeção de implantar entre 100 mil e 200 mil hectares de cultivo. A iniciativa já gerou cerca de 90 empregos diretos na região.
“O coco macaúba já servia como fonte de renda para muitas famílias no Norte de Minas, mas ainda havia muito a ser explorado do potencial econômico desse pequeno fruto”, afirma Bruno Araújo, secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais.
O professor Leonardo Ribeiro celebra o impacto. “A tecnologia gerada dentro da universidade é útil para impulsionar o desenvolvimento da região e oferecer oportunidades tanto de emprego quanto de geração de renda”. Ele conclui que “a Unimontes transforma ciência local em matriz energética global”.
Foto: Júlia Rodrigues / Fapemig

