O diretor global da NDC Partnership, Pablo Vieira, afirmou que mais de 180 países deverão apresentar metas climáticas atualizadas antes da realização da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em novembro, em Belém, no Pará. Essas metas, conhecidas como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês), são compromissos firmados no Acordo de Paris para conter o aquecimento global e limitar o aumento da temperatura a 1,5 °C.
De acordo com Vieira, cerca de 80% das nações ainda estão em atraso na atualização de seus compromissos de redução das emissões de gases do efeito estufa. Atualmente, apenas 29 países apresentaram suas novas metas, mas a expectativa é que, até a COP30, mais de 180 entreguem suas NDCs. Para o especialista, a demora ocorre porque os governos estão em busca de propostas mais consistentes. “Os países estão demorando, mas acho que muito disso acontece por estarem buscando algo com maior qualidade. Eles entendem que precisam fazer um trabalho melhor para que as metas sejam realistas, implementáveis e passíveis de investimento”, explicou.
Apesar disso, Vieira ressaltou que a implementação bem-sucedida das NDCs ainda não foi atingida na escala necessária, principalmente nos países em desenvolvimento. Ele também destacou que a conjuntura geopolítica atual tende a dificultar o avanço desses compromissos.
Até 29 de agosto, estão programados mais de 200 eventos relacionados às mudanças climáticas em todo o Brasil, organizados por setores públicos, privados e pela sociedade civil. Esses encontros buscam mobilizar a população, reforçar a urgência das ações e ampliar o debate nacional antes da conferência em Belém.
O cientista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia, também participou da abertura da RCAW e reiterou os riscos do aquecimento global. Segundo ele, a floresta amazônica está próxima de um ponto de não retorno em razão da combinação de desmatamento, degradação, queimadas e aumento das temperaturas. “Tivemos quatro secas muito profundas recentemente: 2005, 2010, 2015/2016 e 2023/2024. Essas secas fazem com que a reciclagem de água seja muito menor. O resultado é que a estação seca está até cinco semanas mais longa nas últimas décadas”, alertou.
De acordo com estudos citados por Nobre, se o desmatamento continuar e o aquecimento global ultrapassar os 2 °C, a Amazônia pode perder até 70% de sua cobertura florestal em um período de 30 a 50 anos, transformando-se em uma savana degradada. Nesse cenário, até o ano de 2100, a floresta poderá lançar na atmosfera mais de 250 bilhões de toneladas de gás carbônico.
Outra participação marcante no evento foi a de Taily Terena, cientista social e antropóloga do povo Terena, no Mato Grosso do Sul. Integrante do Conselho Nacional de Mulheres Indígenas e do Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas da ONU, Taily relatou os efeitos das mudanças climáticas sobre a vida dos povos indígenas. Ela destacou o impacto das secas e dos incêndios no Pantanal. “Ano passado foi um dos anos mais tristes que eu já vi. Eu nasci na cidade, mas nas férias tenho a memória de tomar banho nas lagoas naturais da aldeia. Hoje, a água não chega nem no nosso tornozelo. Em épocas da seca, como agora em agosto, a gente vê os peixes boiando mortos por conta do calor”, relatou.
Para Taily, a COP30 representa uma oportunidade para ampliar o engajamento da sociedade brasileira e global. Ela ressaltou que, embora a realização da conferência no Brasil seja uma conquista importante, somente a pressão constante da população poderá garantir a implementação das leis ambientais. “Ter a COP30 esse ano aqui no Brasil é muito importante para a gente mostrar ao mundo que o Brasil é um grande negociador e um grande protetor das florestas. Mas a implementação das leis só vai acontecer se nós brasileiros, e todos os movimentos da sociedade civil, cobrarmos mais ações dos poderes públicos e do setor privado”, concluiu.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

