A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, afirmou neste domingo (6) que o enfrentamento das mudanças climáticas e a transição energética exigem planejamento e compromisso. Durante participação na Cúpula do Brics, realizada no Rio de Janeiro sob a presidência do Brasil, Marina reconheceu que o mundo inteiro convive com contradições quando se trata da exploração de combustíveis fósseis e destacou que o importante é a disposição para superá-las.
Ao ser questionada por jornalistas sobre os projetos de exploração de petróleo, especialmente na Margem Equatorial, uma extensa área marítima entre o Rio Grande do Norte e o Amapá, a ministra destacou que as tensões entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental são comuns em diversos países. “Vivemos um momento de muitas contradições, e o importante é que estamos dispostos a superar essas contradições”, declarou.
Marina lembrou que, na COP28, realizada em Dubai no ano passado, o Brasil assumiu o compromisso de caminhar para o fim do uso de combustíveis fósseis. Segundo ela, a transição deve ser liderada pelos países desenvolvidos, com os países em desenvolvimento seguindo o processo. “O que venho defendendo é que precisamos de um mapa do caminho. A pior maneira de enfrentar uma situação adversa, que afeta a todos, é não nos prepararmos para ela. Por isso foi corretamente estabelecido que essa será uma transição justa e planejada”, afirmou.
A ministra ressaltou que o Brasil já demonstrou que é possível conciliar crescimento econômico e proteção ambiental. Como exemplo, Marina citou o compromisso brasileiro de zerar o desmatamento até 2030, mesmo com o peso da agricultura na economia nacional. “Já conseguimos reduzir o desmatamento em 46% na Amazônia e em 32% no país inteiro. Com isso, evitamos lançar mais de 400 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. E, ao mesmo tempo, a agricultura cresceu 15%, a renda per capita aumentou mais de 11% e o Brasil abriu mais de 300 novos mercados para seus produtos agrícolas”, destacou.
Marina também enfatizou o potencial do Brasil em liderar a agenda ambiental global, desde que haja financiamento robusto por parte dos países ricos para apoiar ações climáticas nos países mais vulneráveis. “O Brasil talvez seja um dos únicos países que têm um compromisso claro de zerar o desmatamento até 2030. Isso é liderar pelo exemplo”, disse a ministra, reforçando as metas de redução de emissões e outras políticas ambientais implementadas pelo governo.
Para Marina, o maior obstáculo atualmente não é a ausência de acordos, mas a dificuldade de implementação das medidas já aprovadas e a falta de recursos financeiros constantes. “Os países em desenvolvimento são unânimes em afirmar que precisamos de recursos financeiros e tecnológicos. É fundamental combinar investimentos públicos que sejam capazes de atrair recursos privados”, apontou.
Ela também defendeu a transferência de tecnologia para que os países em desenvolvimento possam realizar suas próprias transições energéticas e se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas. “São recursos muito elevados, especialmente para infraestrutura. E há uma agenda crucial, que é a de perdas e danos: como compensar as populações e regiões que já estão sendo dramaticamente afetadas, principalmente nos países mais vulneráveis”, completou.
A ministra citou que a COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão, em 2024, estabeleceu o objetivo de destinar US$ 1,3 trilhão por ano ao financiamento climático até 2035. No entanto, o acordo fechado previa apenas US$ 300 bilhões anuais por parte dos países desenvolvidos para ajudar no enfrentamento da crise climática.
Marina destacou que a próxima COP30, que será realizada em Belém, deverá ser a conferência da implementação, com metas mais ambiciosas e financiamento climático mais consistente. Ela lembrou que, até o momento, apenas 22 países apresentaram suas novas metas climáticas. A ministra reforçou que o Brasil tem atuado ativamente no cenário internacional, liderando discussões no G20 e no Brics sobre desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas.
Entre as propostas brasileiras, Marina destacou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que pretende captar cerca de US\$ 4 bilhões por ano para serem distribuídos entre os 70 países que ainda preservam florestas tropicais. O fundo combina recursos públicos e privados e busca remunerar os países que mantêm suas florestas em pé. “Esse é um mecanismo de pagamento por serviços ambientais. As florestas garantem o equilíbrio climático do planeta e essa iniciativa vai beneficiar também os povos originários e comunidades locais que são os verdadeiros guardiões dessas áreas”, explicou.
Marina acrescentou que o governo Lula está desenvolvendo uma proposta para remunerar grandes, médias e pequenas propriedades rurais que mantêm áreas de reserva legal excedente, como forma de incentivar a preservação e a recuperação ambiental. “São instrumentos econômicos essenciais para combater as mudanças climáticas, a desertificação, a perda de biodiversidade e, ao mesmo tempo, reduzir a pobreza e as desigualdades sociais, promovendo emprego e geração de renda”, afirmou.
Entre as alternativas financeiras para viabilizar essas ações, Marina citou o fortalecimento do Fundo Clima, do Ecoinvest e do próprio Fundo Amazônia, além de parcerias internacionais e o envolvimento do setor privado. A ministra encerrou sua fala defendendo que a construção de um futuro sustentável passa pelo esforço coletivo e pela capacidade dos países de conciliar desenvolvimento econômico com responsabilidade ambiental.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

