Cerca de 150 milhões de pessoas acessam as redes sociais no Brasil, segundo o relatório Digital 2021, da parceria entre We Are Social e a Hootsuite. O país é o terceiro que mais usa as plataformas. Os objetivos se difundem em aprender receita para o jantar até ler notícias e falar com os amigos.

Neste ano, mais um objetivo será adicionado: ajudar a escolher um candidato nas eleições de outubro, cuja campanha começa para valer em 16 de agosto com horários maiores no rádio e na televisão. As estratégias de marketing político já estão sendo postas em prática.

Além dos planejamentos de cada postulante, a segunda edição do levantamento Observatório das Eleições 2022, da Vert.se Inteligência mostra que entre os assuntos mais comentados nas bolhas de audiência dos presidenciáveis, nenhum deles apresenta propostas de governo.

Os dados da consultoria de inteligência indicam que, na semana passada, por exemplo, o assunto de maior destaque nas plataformas foi a visita do presidente Jair Bolsonaro (PL) ao Recife, depois da tragédia causadas pelas chuvas, e ainda a possibilidade de vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno, apontada pelo Datafolha e pela FSB.

A CEO da Vert.se Inteligência, Carol Zaine, destaca que se aproveitar dos assuntos em alta para emplacar bons números nas redes sociais pode esvaziar o debate. “É um risco que correm, infelizmente. Muitos estão apenas preocupados em ser lembrados pelas pessoas na hora de apertar o botão da urna e, para isso, são capazes de qualquer coisa”, aponta.

“Isso não quer dizer que o candidato não possa entrar em uma tendência, em um desafio ou brincadeira que está viralizando. Mas isso deve ser apenas uma das partes da estratégia e, ainda assim, bem analisada. Deve ser uma decisão tomada de olho nos dados. Em campanha, não dá para tomar decisões no escuro”, diz.

No momento de pré-campanha, o grande desafio para qualquer pré-candidato é o ‘awareness’. Manter o seu nome vivo, presente nas mentes da população, ou no caso aqui, dos usuários”, responderam. Desde que anunciou a pré-candidatura, a equipe de Ciro tem feito um trabalho diretamente voltado para as redes, no intuito de manter o candidato no imaginário dos usuários. A equipe do pedetista diz acreditar que uma forma de medir o desempenho da campanha é a queda nos índices de rejeição — e, sob este parâmetro, estão obtendo êxito.

No entanto, isso tem feito a tendência em jogar para segundo plano as propostas ser a principal estratégia. “Claro que temos também nas nossas redes conteúdos mais detalhados e profundos. Mas achamos que, apesar da ansiedade do mercado, da imprensa, e dos próprios atores políticos, os eleitores só irão refletir e definir seus votos mesmo durante a campanha eleitoral. O desafio até lá é se manter sempre presente, e sob uma ótica positiva, no imaginário da população”, esclareceu a equipe. Os demais pré-candidatos foram procurados, mas não responderam aos questionamentos até o fechamento desta edição.

Outro levantamento, realizado pelo Radar Aos Fatos, da Agência Aos Fatos, apontou que um a cada dois tweets publicados pelos cinco principais pré-candidatos ao Planalto foi endereçado a outros adversários, especialmente seus concorrentes diretos.

Postagens que atacam opositores figuram com quase três milhões de interações aos perfis dos presidenciáveis mais bem colocados na última pesquisa Datafolha — Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, André Janones (Avante) e Simone Tebet (MDB).

Foram analisados os 250 tweets mais populares entre 1º de janeiro e 20 de maio. Destes, 121 (48%) continham investidas contra oponentes, 58 (23%) abordavam aspectos de pré-campanha ou propaganda e 24 (10%) citavam propostas, legado e ações.

Mensagens que não abordavam nenhum desses temas (47 ao todo, ou 19%) foram classificadas como “outros”, ou seja, quase metade do conteúdo divulgado na rede social tinha apenas o intuito de intensificar a corrida eleitoral, em vez de fomentar o debate sobre as propostas.

Ideologias

O especialista em marketing político e consultor de equipes de marketing e comunicação parlamentar Anderson Alves endossa os dados encontrados no levantamento ao explicar que majoritariamente a espinha dorsal das campanhas será pautada nas ideologias.

“Direita e esquerda, bem contra o mal, são temas impulsionados por Lula e Bolsonaro. Estamos vendo, pelo lado dos bolsonaristas, muitos empresários, pastores, pessoas que não tem contexto político se organizando para defender o candidato. Uma esquerda mais engajada, que até possui projetos com as minorias, o movimento negro, LGBT, entre outros, se vê formando uma mega aliança — que está acontecendo entre partidos de esquerda e o Lula — para bater de frente com o Bolsonaro”, explica.

Alves aponta que, no meio digital, se vê com mais evidência a guerra de “um contra o outro”. De um lado, Bolsonaro com grupos grandes de comunicação. De outro, Lula com maior quantidade de grupos.

Carol Zaine explica que as redes sociais têm o trunfo de aproximar o candidato do seu eleitor, com um discurso simples, direto e objetivo. Quase como a relação estabelecida entre influenciadores e seus públicos. Mas a CEO da Vert.se garante que, em se tratando de política, apenas assumir a postura de ‘influencer’ não é suficiente.

“Não basta o candidato influenciar, ele tem que, de fato, convencer. E esse convencimento vem de um trabalho bem estruturado de inteligência e comunicação. É preciso que os candidatos estejam de olho nos dados”, diz a especialista.

Ela aponta que algumas premissas precisam ser estabelecidas para que a performance seja aprimorada. A primeira delas é definir métricas realistas. Ou seja, trabalhar por parâmetros numéricos que estejam de fato dentro do alcance.

“Segundo, fazer mapeamento dos nichos em que precisa estar presente para a construção do diálogo e, terceiro, ter mapeado quais são suas audiências para que possa se comunicar com todas elas”, explica.