O executivo Daniel Vorcaro, apontado como pivô das investigações sobre um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master, negou um pedido considerado sensível durante depoimento sigiloso prestado ao Supremo Tribunal Federal. A apuração investiga operações que teriam alcançado cerca de R$ 12 bilhões e envolvem a venda de créditos do Master ao Banco de Brasília, o BRB, operação que acabou sendo questionada por órgãos de controle e pela Justiça.
Segundo relatos de investigadores, Vorcaro foi questionado diretamente pela delegada Janaina Palazzo se estaria disposto a fornecer a senha de acesso ao seu telefone celular, apreendido no momento de sua prisão, ocorrida em 17 de novembro. O pedido foi feito no curso da oitiva realizada sob forte clima de tensão, com a presença de representantes da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de um juiz auxiliar designado pelo gabinete do ministro relator.
O conteúdo do celular é considerado estratégico por investigadores e por integrantes do meio político e jurídico de Brasília. No aparelho, segundo apuração já divulgada, estava armazenado o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes. O documento previa o pagamento de aproximadamente R$ 130 milhões ao longo de três anos para atuação junto ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso Nacional em defesa dos interesses da instituição financeira.
Durante o depoimento, a delegada reforçou o pedido de acesso ao celular, alegando a relevância do conteúdo para o esclarecimento das suspeitas. Após consultar o advogado Roberto Podval, que o acompanhava na audiência, Vorcaro recusou-se a fornecer a senha. Ele afirmou que o aparelho continha mensagens de caráter estritamente privado, que não teriam relação direta com as investigações sobre possíveis fraudes envolvendo o banco.
Investigadores ouvidos sob reserva destacam que a negativa não impede, necessariamente, o acesso ao conteúdo do telefone por outros meios técnicos. Ainda assim, avaliam que uma postura colaborativa, como a autorização para acesso a dados armazenados em nuvem, poderia ser interpretada como sinal de boa vontade por parte da Polícia Federal e do Ministério Público ao final da apuração. “A colaboração sempre pesa na avaliação global do caso”, comentou um integrante da investigação.
Após a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telemático de Vorcaro, a Comissão Parlamentar de Inquérito do INSS recebeu um arquivo contendo a relação de números telefônicos registrados no aparelho do banqueiro. A lista revelou contatos de pelo menos três ministros do Supremo Tribunal Federal, cinco senadores, cerca de vinte deputados federais e um governador. Apesar disso, os parlamentares tiveram acesso apenas aos registros de contatos, sem informações sobre ligações ou troca de mensagens.
O depoimento foi marcado por desconforto explícito entre a equipe da Polícia Federal, liderada por Janaina Palazzo, e os procuradores da República que acompanhavam a audiência. A tensão aumentou quando o ministro Dias Toffoli determinou o encaminhamento de oitenta e duas perguntas para serem feitas ao investigado. A delegada afirmou que não poderia submeter questionamentos que não tivessem sido previamente elaborados por ela.
Após discussão, Janaina Palazzo concordou em apresentar as perguntas, desde que constasse em ata que elas haviam sido encaminhadas diretamente pelo gabinete do relator. As questões foram organizadas em seis blocos temáticos, abordando desde as conexões políticas de Vorcaro até detalhes da negociação de venda do Master ao BRB e reuniões mantidas com integrantes do Banco Central.
Um dos pontos mais sensíveis do depoimento foi o bloco dedicado à “dimensão política: articulações e interferências”. Nesse trecho, Vorcaro foi questionado se teria tratado com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB. Ele admitiu manter relações sociais com diversas autoridades, mas evitou citar nomes e afirmou que se encontrou poucas vezes com o governador, negando ter solicitado qualquer tipo de intervenção em favor de seus interesses.
Logo após o anúncio da aquisição, em março, Ibaneis Rocha chegou a celebrar publicamente o negócio, classificando-o como um “dia de festa”. Para a Justiça Federal do Distrito Federal, porém, a operação foi descrita como resultado de “pura camaradagem”, expressão que passou a ser citada em decisões e relatórios preliminares.
Outro ponto que chamou atenção foi o fato de Vorcaro não ter sido questionado sobre o contrato firmado com o escritório de Viviane Barci de Moraes. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões durante três anos. A ausência do tema no interrogatório foi interpretada por investigadores como um elemento adicional de desconforto e reforçou a percepção de que o depoimento expôs fissuras na condução do caso.
Ao final da audiência, prevaleceu entre os participantes a avaliação de que o depoimento, longe de esclarecer completamente os fatos, ampliou o clima de desconfiança e evidenciou disputas institucionais em torno da investigação do Banco Master e de seus desdobramentos políticos.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

