O presidente nacional do MDB, o deputado federal Baleia Rossi, afirmou que o partido pode optar por não apoiar nenhuma candidatura presidencial nas eleições de dois mil e vinte e seis caso o cenário eleitoral volte a ser marcado por forte polarização. Em entrevista, o dirigente explicou que a legenda tende a adotar uma posição de neutralidade se a disputa se resumir a polos antagônicos, mas ressaltou que essa equação pode mudar caso surja uma candidatura com perfil mais ao centro político, capaz de dialogar com diferentes segmentos da sociedade e do próprio MDB.
Segundo Baleia, nomes como os governadores Ratinho Júnior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, ambos filiados ao PSD, se enquadrariam nesse perfil e poderiam levar o MDB a discutir um apoio formal. Ele destacou, no entanto, que qualquer decisão sobre alianças será tomada pela convenção nacional do partido e dificilmente será unânime, dado o caráter plural e federativo da sigla.
“Independentemente da decisão do MDB, tanto a ala que pode apoiar o Lula quanto a que pode apoiar o Flávio, isso vai ser respeitado como uma posição individual, vai ser algo permitido. Nós não temos uma imposição, a decisão não é de cima para baixo”, afirmou Baleia, ao reforçar que divergências internas fazem parte da identidade histórica do partido e não geram punições ou retaliações.
Em uma conversa de quase uma hora, o presidente do MDB também avaliou o cenário político nos Estados e disse acreditar que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deve buscar a reeleição em dois mil e vinte e seis. Para Baleia, Tarcísio é jovem, tem capital político e mantém compromissos regionais que dificultariam uma candidatura presidencial neste momento. Ele lembrou ainda que o MDB tem gratidão pelo apoio dado por Tarcísio ao prefeito paulistano Ricardo Nunes, considerado decisivo em disputas recentes.
Questionado sobre análises feitas por lideranças políticas de que o senador Flávio Bolsonaro seria um adversário mais fácil para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Baleia preferiu não subestimar nenhuma candidatura. Ele recordou que, antes da eleição de dois mil e vinte e dois, aliados do então presidente Jair Bolsonaro comemoraram a recuperação da elegibilidade de Lula, acreditando que ele seria um oponente favorável, avaliação que acabou se mostrando equivocada.
“O Ulysses Guimarães dizia que a política é como nuvem. Você olha para o céu num momento e ela está de um jeito, olha cinco minutos depois e está tudo mudado”, disse Baleia, ao ressaltar que cenários eleitorais se transformam rapidamente, sobretudo à medida que o calendário avança e as candidaturas ganham densidade.
Sobre um eventual apoio do MDB à candidatura de Flávio Bolsonaro, o dirigente não fechou completamente a porta. Ele lembrou que há lideranças do partido que já manifestaram simpatia pelo senador, como o próprio Ricardo Nunes. Ao mesmo tempo, destacou que, institucionalmente, o MDB mantém maior afinidade com candidaturas de perfil mais moderado e dialogal, o que explica a cautela da direção nacional em antecipar posicionamentos.
Baleia também comentou a relação do MDB com o atual governo federal. Ele afirmou que é natural que o presidente Lula espere apoio dos ministros indicados pela sigla, como a ministra Simone Tebet, mas lembrou que o partido decidiu, desde o início do mandato, manter uma relação colaborativa com o Planalto sem abrir mão de sua autonomia. “Nós sugerimos nomes para compor o governo e votamos as agendas que entendemos compatíveis com os posicionamentos do MDB, mas o partido não tem dono e exerce a democracia interna em todas as grandes decisões”, disse.
O dirigente destacou que as diferenças regionais pesam fortemente nas decisões do MDB. Segundo ele, o Nordeste e parte do Norte tendem a ser mais favoráveis a alianças com o governo federal, enquanto o Centro-Oeste, o Sul e o Sudeste demonstram maior resistência a uma aproximação com o PT. “Essas diferenças vão ser discutidas. O MDB sempre conseguiu conviver com elas”, afirmou.
Ele lembrou que, em dois mil e vinte e dois, quando Simone Tebet foi candidata à Presidência, líderes do Nordeste optaram por apoiar Lula já no primeiro turno, sem que isso gerasse conflitos internos. “Não houve nenhuma retaliação, porque o partido é democrático e respeita as diferenças regionais”, ressaltou.
Ao ser questionado se existe problema em ministros do MDB estarem alinhados ao projeto de Lula enquanto o partido, eventualmente, siga outro caminho em dois mil e vinte e seis, Baleia respondeu que essa convivência sempre foi característica da legenda. Ele citou exemplos de prefeitos e governadores do partido que têm posições distintas das adotadas por integrantes do governo federal, sem que isso comprometa a unidade institucional.
Para Baleia, a convenção nacional do MDB poderá avaliar até quatro possibilidades em dois mil e vinte e seis: candidatura própria, apoio à reeleição de Lula, apoio a uma candidatura mais à direita ou apoio a um nome de centro que venha a se consolidar. Há ainda a hipótese de neutralidade nacional, permitindo que os diretórios estaduais adotem posições mais condizentes com suas realidades locais. “Essa decisão não depende muito do presidente do partido, porque o MDB não tem histórico de dar cavalo de pau”, afirmou.
O dirigente disse evitar expor sua posição pessoal neste momento para não gerar ruídos internos. “Eu tenho um posicionamento, mas acho precipitado colocar porque o quadro de candidaturas ainda não está finalizado”, explicou.
A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, segundo Baleia, surpreendeu dirigentes do centro e do Centrão, que vinham observando um certo encaminhamento em torno do nome de Tarcísio de Freitas. Ele afirmou que o MDB não participou de diálogos que resultaram no lançamento do senador, mas considerou legítima a decisão do PL de apresentar um candidato próprio.
Sobre a tese de que Flávio seria o adversário ideal para Lula, Baleia voltou a dizer que prefere cautela. “Na política, principalmente no ano eleitoral, o Brasil começa depois do carnaval”, afirmou, ao reforçar que novas candidaturas podem surgir e alterar o equilíbrio da disputa.
Ele destacou que nomes como Ratinho Júnior, Eduardo Leite e até o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, apresentam perfil mais próximo do centro democrático e dialogam bem com o MDB em seus Estados. “Essas candidaturas combinam mais com o MDB”, avaliou, sem descartar que outras lideranças possam ganhar tração ao longo do tempo.
Questionado se houve conversas diretas com Lula sobre o posicionamento do MDB em dois mil e vinte e seis, Baleia respondeu de forma objetiva: “Não. Nenhuma”. Para ele, isso não configura falta de articulação, já que o presidente mantém diálogo com diversos líderes do partido, como senadores, deputados e governadores.
O dirigente também comentou o cenário das eleições para o Senado, apontadas por setores do bolsonarismo como estratégicas para tentar formar maioria capaz de avançar em pedidos de impeachment no Supremo Tribunal Federal. Baleia disse que o Senado é prioridade histórica do MDB e que o partido trabalha para, no mínimo, manter a atual bancada de dez senadores, com perspectiva de crescimento.
Ele destacou a filiação recente de Álvaro Dias, que deve disputar uma vaga no Senado pelo Paraná, e afirmou que o MDB já tem candidaturas competitivas em diversos Estados. Além disso, a legenda pretende ampliar sua presença nos governos estaduais, passando dos atuais três para pelo menos seis governadores eleitos.
Ao abordar a política de emendas parlamentares, Baleia disse que o MDB defende a canalização dos recursos para projetos estruturantes e prioritários, sem abrir mão da legitimidade das emendas individuais, que muitas vezes atendem municípios menores e pouco visíveis para a administração federal.
Por fim, ao falar sobre o futuro político de Simone Tebet, Baleia relatou que a ministra manifestou interesse em disputar o Senado pelo Mato Grosso do Sul. Para ele, essa intenção reforça o prestígio do nome dela e indica um caminho natural, caso não haja outro projeto em vista. “Conhecendo a Simone como eu conheço, acredito que ela não estaria falando em ser candidata se tivesse outra ideia”, concluiu.
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

