O mercado brasileiro de caminhões enfrenta um 2025 desafiador, marcado por forte retração no segmento de veículos pesados. Para o fechamento do ano, a expectativa não é de retomada significativa. “A indústria está ajustando estoques e produção ao ritmo de mercado. Se a taxa de juros permanecer no patamar atual, o setor deve ‘andar de lado’ até o final do ano”, afirmou Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da Volvo.
Entre janeiro e agosto, o mercado de caminhões acima de 16 toneladas registrou queda de quase 20% em comparação com 2024. Em contrapartida, o segmento de semipesados avançou cerca de 16%, amenizando parcialmente a retração geral, que fechou o período com recuo médio de 16%. Segundo Cavalcanti, a principal pressão vem do agronegócio, que tem grande relevância na demanda por veículos pesados. “Mesmo com safra recorde, o agro sofre com preços mais baixos das commodities e custos elevados. Muitos produtores e transportadoras estão em recuperação judicial, o que derrubou a demanda”, explicou.
Além disso, os juros altos reduzem a disposição para renovação de frota. “O transportador só investe quando tem segurança de retorno. Hoje vivemos um ambiente de incertezas econômicas e políticas, além de riscos no comércio internacional”, destacou o executivo.
De acordo com dados da Anfavea, a produção de caminhões entre janeiro e agosto somou 88,5 mil unidades, queda de 1% em relação ao mesmo período de 2024. Em agosto, a retração foi ainda mais forte: 10,1 mil unidades, 22,9% abaixo do mesmo mês do ano passado e 16,3% menor que em julho. O desempenho só não foi pior graças ao crescimento das exportações, que aumentaram 89,6%, totalizando 19 mil unidades, com destaque para a Argentina, que recebeu 11 mil caminhões, quase todos pesados.
Apesar do impulso externo, os efeitos sobre o emprego foram negativos. Enquanto a indústria automotiva como um todo abriu 746 vagas, o setor de caminhões e ônibus fechou 148 postos até agosto. “Os pesados representam 45% do mercado e caem 19%. O grosso do mercado está em queda”, destacou Igor Calvet, presidente da Anfavea.
A Volvo conseguiu reduzir parcialmente os impactos da crise. Enquanto o mercado de pesados recuou 20%, a montadora caiu 15%. Já nos semipesados, registrou crescimento de 32%, o dobro da média do setor. Cavalcanti ressaltou que o modelo VM, voltado para setores como construção civil, tem ajudado, mas não compensa totalmente a queda dos pesados. “Os segmentos leves e semipesados ajudam a segurar o mercado, mas os pesados ainda são determinantes”, afirmou.
As exportações têm sido um alívio para a Volvo, com destaque para os mercados da América Latina, especialmente Peru e Argentina, favorecidos pela valorização do dólar. No entanto, o ganho externo ainda é limitado diante da forte dependência do setor em relação ao consumo interno.
Para se adequar ao cenário, a Volvo já realizou ajustes na produção ao longo do ano e não descarta novas reduções caso a demanda permaneça fraca. “Toda a indústria está calibrando os estoques. Nós também fizemos nossos ajustes e, se necessário, voltaremos a fazer”, disse Cavalcanti.
O executivo vê 2026 como um ano de oportunidades e riscos. A expectativa é que a queda prevista na taxa básica de juros estimule a renovação de frota e novos investimentos. “A queda da Selic é fundamental porque melhora as condições de financiamento e dá mais confiança ao transportador para investir”, ressaltou.
Outro fator positivo poderá ser o aumento histórico de investimentos públicos em obras e infraestrutura em ano de eleições presidenciais, o que tende a impulsionar a demanda por caminhões.
Apesar disso, Cavalcanti alerta que a recuperação pode ser limitada. O agronegócio ainda enfrenta altos níveis de endividamento entre exportadores, enquanto as transportadoras sofrem com fretes baixos. “Essa combinação pode restringir a retomada da demanda por caminhões pesados, mesmo em um ambiente macroeconômico mais favorável”, concluiu.
Foto: Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da Volvo

