Ângela Carrato – Jornalista. Professora da UFMG. Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Há duas semanas que o mercado e a mídia corporativa estão em guerra aberta contra o governo Lula. Guerra que permanece, mesmo após o anúncio, feito na quarta-feira (3/7), pelo presidente e por seu ministro da Economia, Fernando Haddad, de que não haverá descontrole nas contas fiscais e que o governo, além de um pente fino nos programas sociais, vai cortar R$ 25,9 bilhões no orçamento para 2025.
Se a maioria da população brasileira estivesse entendendo o que se passa, era para as praças e ruas estarem ocupadas por manifestantes protestando contra tais cortes. O alvo do mercado, como sempre, é o investimento em áreas sociais como saúde, educação e benefícios, considerados “gastos”.
As declarações de Lula e de Haddad significaram um recuo tático na posição do Palácio do Planalto que, como sempre frisa Lula, “não abre mão do compromisso com os mais pobres”. Já a vitória do mercado está longe de significar que a paz com o governo foi selada.
Os jornais do fim de semana continuaram batendo em Lula e atribuindo exclusivamente a ele a responsabilidade por “problemas que afetam a credibilidade do país no cenário internacional”. Esses mesmos jornais escalam seus articulistas, como Carlos Alberto Sardenberg, de O Globo, para completarem o serviço. Sardenberg chegou a escrever que o mercado perde dinheiro por acreditar no governo!
Temas econômicos são áridos e quase incompreensíveis para a maioria da população. Uma parcela da classe média, no entanto, se interessa por eles e os acompanha com regularidade. É para essa parcela que a mídia corporativa vem mentindo bem mais do que habitualmente faz. Mentiras que têm por objetivo impedir que essa parcela da sociedade, importantíssima para a formação da chamada opinião pública, saiba do que se passa.
Como sempre, é preciso ir aos fatos.
Ao contrário do que afirmou o economista inglês Adam Smith, em 1759, a economia não funciona de forma automática, como se houvesse uma mão invisível por trás de tudo, da mesma forma que o mercado está longe de ser um ente abstrato.
No caso brasileiro, o que a mídia corporativa brasileira chama de mercado não é o mercado produtor (industrial ou agrário), não é o comerciante (mercado vendedor) e, menos ainda, o mercado consumidor (o povo). Mercado, para ela, são apenas cinco banqueiros e alguns grandes rentistas que não produzem um prego.
É a serviço desse ultra restrito grupo de privilegiados que esta mídia trabalha. Ela, na realidade, é parte integrante do tal mercado. Basta lembrar que as seis famílias que comandam mais de 70 % de toda a informação que a população brasileira consome, através de jornais, rádios, TVs e portais de notícias, são bilionárias e algumas atuam diretamente no mercado financeiro, como Luiz Frias de Oliveira, proprietário da Folha de S. Paulo, da financeira PagSeguro e banco PagSeguro.
Se essa turma do mercado financeiro tivesse a mais leve preocupação social, era para estar batendo palmas para Lula.
O que o presidente sonha e para o qual trabalha é no sentido de transformar o Brasil em um país de classe média, como aconteceu, em décadas anteriores, com vários países europeus e com os Estados Unidos.
Mas não. O que esses rentistas querem é continuar ganhando rios de dinheiro com a especulação possibilitada pelos juros altos. A maioria da população que se dane.
Detalhe: só no primeiro trimestre de 2024, os cinco maiores bancos brasileiros lucraram R$ 29,2 bilhões. O valor é quase igual aos cortes anunciados pelo governo para manter o arcabouço fiscal, deixando claro o tamanho da ganância do mercado e do descompromisso dele e da mídia corporativa para com o Brasil e a população brasileira.
A decisão do governo foi recebida com críticas por parte de setores da esquerda e por parcela do próprio PT, para quem Lula não deveria ter capitulado diante do mercado ou, pior ainda, diante das posições consideradas pró-mercado do ministro Haddad.
Claro que o ideal teria sido Lula manter sua posição de compromisso com o social e continuasse pressionando o Banco Central para baixar a taxa de juros. Claro que o ideal seria o ministro Haddad conseguir ampliar a receita sem ter que cortar um centavo de setores sociais.
Só que não existe mágica e para reduzir gastos é preciso fazer cortes. Bem que Haddad tentou o equilíbrio a partir da reforma tributária, da taxação de itens supérfluos como jatos, iates e jet-skis, além do fim da desoneração fiscal para 17 setores da economia. A turma que seria atingida, os ricos e milionários, deram o grito e o Congresso Nacional, controlado por essa mesma turma, impediu que o ajuste fiscal se desse por essas vias. Moral da história: a gritaria do mercado e da mídia tem a ver com a manutenção de seus privilégios e com jogar a conta nas costas da classe média e dos mais pobres.
A título de exemplo, basta lembrar que neste ano, até maio, o valor das desonerações fiscais concedidas pelo governo soma R$ 51 bilhões. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2024 terá R$ 61 bilhões em investimentos, deixando claro o tanto de melhorias que o país poderia ter se deixasse de isentar de impostos apenas os mais ricos.
A mídia, obviamente, não mostra nada disso. Ela distorce e inverte os fatos para criticar Lula e responsabilizá-lo por tudo, até pela recente disparada do dólar.
Desde o início de 2023, quando assumiu o governo, Lula tem feito uma cruzada para baixar os juros (a taxa Selic), que se encontrava no estratosférico patamar de 13,65%. O responsável pela política monetária é o Banco Central, presidido pelo bolsonarista Roberto Campos Neto.
Uma das ações dos neoliberais durante o governo Bolsonaro foi deixar como bomba de efeito retardado para Lula um Banco Central supostamente independente e com seu presidente com mandato pré-fixado. Campos Neto foi nomeado por Bolsonaro na metade do governo e sua gestão só se encerra no final de 2024. Lula está sendo obrigado a conviver com esta instituição a serviço do mercado há quase dois anos.
A resposta de Campos Neto, supostamente um técnico, para as fundamentadas críticas de Lula de que não há justificativa para os juros continuarem na estratosfera ou cortados apenas a conta gotas, foi a decisão do Conselho Monetário Nacional, na última reunião, em junho, de manter estes juros no patamar de 10,25% e sinalizar que não haverá mais cortes até o final do ano.
Não satisfeito em boicotar e torpedear a política desenvolvimentista que Lula vem implementando e que está dando certo – inflação sob controle, desemprego no nível mais baixo em 10 anos e investimentos externos chegando em grandes volumes – Campos Neto começou a fazer oposição aberta ao governo, participando de reuniões com políticos da extrema-direita como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com representantes do mercado financeiro e da mídia.
Um desses encontros foi na casa de Luciano Huck, o empregado do Grupo Globo e garoto propaganda de banqueiros. Nele Campos Neto declarou apoio à candidatura de Tarcísio de Freitas à presidência da República em 2026 e ainda se ofereceu para ser o seu ministro da Fazenda.
Oposição mais explícita, impossível.
Lula questionou a atitude de Campos Neto, comparando-a ao ex-juiz parcial Sérgio Moro que, ao invés de se manter como um magistrado, tornou-se em 2018 parte da oposição que viabilizou a chegada de Bolsonaro ao poder, depois de ter prendido, sem provas, e impedido Lula de participar das eleições.
Campos Neto, que já vinha intrigando Lula com o mercado financeiro, não seu deu por vendido. Passou a pintar os cenários futuros para o Brasil como sendo “preocupantes”, gerando uma corrida ao dólar.
No meio da semana que passou, a cotação do real em relação ao dólar bateu em R$ 5,65, maior patamar em dois anos e meio, com a moeda brasileira figurando entre as que mais se desvalorizaram.
Como não existe razão objetiva para isso, tal desvalorização caracteriza-se como um ataque especulativo contra a moeda brasileira, partindo de Campos Neto, de grupos financeiros nacionais e de seus parceiros internacionais.
A mídia corporativa, a serviço do mercado e dos seus próprios interesses, tratou de esconder a realidade. Marchetou que a alta se devia às falas do presidente Lula, uma grossa mentira. Essas seguidas altas indicaram que o mercado estava se valendo da especulação com a moeda estadunidense para gerar uma crise e obrigar Lula a capitular e aceitar gerir a economia nos termos neoliberais que interessam a esses senhores.
Como toda a mídia corporativa divulgava a mesma mentira, dificultou muito para até pessoas que se consideram bem informadas entenderem o que estava se passando.
Não deve ter sido fácil para Lula aceitar os cortes que, na prática, vão acontecer apenas no orçamento de 2025. Por enquanto o governo se limitará a fazer um pente fino nos benefícios sociais, onde pode haver ainda irregularidades a julgar pelo uso que deles fez Bolsonaro na tentativa de se reeleger a todo custo.
Se o mercado e a mídia estivessem mesmo preocupados com as finanças públicas, não haveria motivo para toda a tempestade que criaram, uma vez que Lula é um gestor tarimbado e foram nos governos dele e de Dilma Rousseff que o Brasil acumulou o fundo soberano de US$ 200 bilhões, que hoje dá tranquilidade ao país, pois equacionou o eterno problema da vulnerabilidade externa.
Ao final do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, o país estava literalmente falido e de pires nas mãos em termos internacionais. O que não impediu de FHC se transformar em queridinho da mídia e dos banqueiros. Qual o seu segredo? Vender a preço de banana mais de 100 empresas estatais, a começar pela Companhia Vale do Rio Doce, empobrecendo a maioria da população e enchendo de dinheiro os bolsos dos especuladores nacionais e internacionais.
No episódio do recente ataque ao real, quando experimentou a maior desvalorização frente ao dólar dos últimos dois anos, conter a apreciação da moeda estadunidense teria sido simples. Bastaria ao Banco Central intervir no câmbio, vendendo dólares. Operações desse tipo são comuns e, no governo Bolsonaro, por exemplo, o BC, sob o comando do mesmo Campos Neto, vendeu US$ 70 milhões com esse objetivo.
Agora Campos Neto preferiu ficar de braços cruzados e deixar que os especuladores agissem com absoluta desenvoltura.
Quem perdeu com isso não foi o governo Lula, como faz questão de dizer a mídia, mas toda a população brasileira. A alta do dólar não incide apenas sobre quem tem dólar, mas em centenas de produtos como o trigo ou o preço dos combustíveis e na dívida pública.
O leitor ou a leitora que nos acompanha pode objetar que o dólar já começa a cair e, em breve, deverá alcançar patamares iguais ou menores do que os de semanas atrás, quando o ataque à moeda brasileira teve início.
É verdade. Mas esta queda não vai alterar um fato fundamental: alguns poucos especuladores ganharam muito dinheiro com essa alta e agora compram dólar na baixa. Além disso, comemoram ter “obrigado” Lula a adotar medidas que lhes interessam.
Da minha parte, acredito que Lula deu apenas um passo atrás para poder avançar.
Em dezembro ficaremos livres de Campos Neto no Banco Central. Em fevereiro de 2025 serão eleitos por seus pares, os novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado.
Lula sabe que seu mandato começará, na prática, só aí. E por isso que já admite disputar a reeleição. É por isso que os ataques contra ele tendem a continuar, sob os mais diversos argumentos. O da hora atende por etarismo.
Vamos tratar disso num próximo comentário.
P.S. STOK CAR, NÃO – Oportuna e acertada a decisão da UFMG de solicitar junto à advocacia-geral da União a suspensão da Stock Car em Belo Horizonte. Na última quinta-feira (4/7) a instituição entrou na Justiça com o pedido de suspensão imediata de todas as atividades envolvendo o evento. De acordo com a reitora da UFMG, Sandra Goulart, não houve alternativa, uma vez que o local é inadequado para receber a corrida e o hospital veterinário será o maior impactado pelo ruído dos carros em alta velocidade. Há meses que a UFMG vem se posicionado contra o evento. Nem os seus organizadores e nem a PBH, sua parceira, deram ouvidos. Árvores foram cortadas e as vias no local tiveram o piso reforçado para receber os possantes carros. Trata-se de um caso de nítido uso do dinheiro e do espaço público para benefício privado, sem falar que a principal prejudicada seria uma das maiores e melhores universidades brasileiras.
