O ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, criticou publicamente os governadores de direita que têm responsabilizado o governo Lula pela imposição de tarifas de 50% anunciadas por Donald Trump a produtos brasileiros. Em publicação nas redes sociais, Messias acusou os críticos de ignorarem o papel da família Bolsonaro na crise comercial. “Fingem ignorar que os sérios prejuízos que as sanções econômicas podem causar ao povo brasileiro foram traiçoeiramente fomentados pela família Bolsonaro, clã político apoiado por esses mesmos governadores”, escreveu o ministro.
A reação veio após a participação dos governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Ronaldo Caiado (Goiás) e Ratinho Júnior (Paraná) em um painel promovido pela XP Investimentos, em São Paulo, no sábado (26). Durante o evento, os três governadores — todos próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro — criticaram a condução do governo federal diante do tarifaço, alegando falta de articulação e diplomacia. Messias, por sua vez, afirmou que o governo está atuando para evitar prejuízos. “Estamos trabalhando para impedir essa crise e proteger os empregos, o agronegócio e as empresas nacionais”, declarou.
O presidente Lula criou um comitê especial, coordenado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e pelo Itamaraty, para negociar com as autoridades norte-americanas. Durante evento em Osasco (SP), na sexta-feira (25), o presidente afirmou: “O Alckmin faz ligação todo dia para os Estados Unidos, mas ninguém quer falar com ele”.
O teor político do tarifaço tornou-se ainda mais evidente após a divulgação de uma carta enviada por Donald Trump ao governo brasileiro. Nela, o ex-presidente norte-americano critica o julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, classificando-o como “uma vergonha internacional”. Trump ainda associa as sobretaxas a supostas “ordens de censura” e multas aplicadas contra empresas de mídia dos EUA — entre elas, a plataforma Rumble, da qual é sócio, e que move uma ação contra o ministro Alexandre de Moraes. A carta, que alega de forma equivocada que o comércio bilateral é “injusto”, ignora o superávit americano na relação com o Brasil.
Durante o painel, os governadores demonstraram insatisfação com o tom adotado pelo governo federal. Ratinho Júnior criticou a retórica adotada por Lula e afirmou: “Alguém tem de sentar e conversar com os Estados Unidos, fazer como fizeram os outros países”. E completou: “Não temos de falar em desdolarizar o comércio. Nem a China ou a Rússia fizeram isso. É uma falta de inteligência. O Bolsonaro não é mais importante que essa relação comercial entre os Estados Unidos e o Brasil”.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, declarou que tem tentado costurar articulações diplomáticas por conta própria, envolvendo parlamentares e empresas americanas. Essas iniciativas, porém, geraram atritos com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que defende uma abordagem mais combativa, exigindo a aprovação do PL da Anistia e uma reação firme ao Supremo. Segundo ele, a prioridade deve ser “pressionar pelo fim da perseguição” ao ex-presidente.
Tarcísio defendeu sua estratégia: “Estamos conversando, buscando parlamentares americanos, empresas americanas, agentes do governo americano que podem se sensibilizar com o problema. Infelizmente, hoje a gente está vivendo um momento em que se busca tirar proveito do país, querendo dividir o país”.
No mesmo evento, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, criticou o governo federal por não dialogar com os estados diretamente atingidos pela medida norte-americana. “Uma coisa está bem clara: o Lula não quer resolver o problema. Ao invés de usar a chancelaria brasileira, que era uma das melhores do mundo, fica usando frases de efeito. Ele não tem o menor preparo para governar o país”, afirmou.
A ofensiva retórica de Messias busca reposicionar a narrativa do governo federal e rebater os argumentos de governadores alinhados a Bolsonaro. Com a proximidade das eleições de 2026, os atritos em torno do tarifaço evidenciam as tensões entre os grupos políticos e apontam para uma disputa antecipada pela opinião pública e pela condução da política externa brasileira.
Foto: Renato Menezes/AscomAGU

