Responsável por elaborar a ação que o governo pretende apresentar ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter a derrubada do decreto que elevou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o ministro Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União (AGU), também tem se dedicado a uma missão paralela: aproximar o governo do segmento evangélico. No entanto, assim como no campo jurídico, essa tentativa encontra obstáculos significativos. “Líderes evangélicos enxergam o esforço como uma atuação pessoal de Messias e apontam falhas na estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, afirmam integrantes do segmento.

Messias tem marcado presença em eventos voltados aos evangélicos, como a Marcha para Jesus, além de manter encontros com pastores e investir em publicações direcionadas nas redes sociais. Durante este ano, o ministro recebeu representantes de várias vertentes protestantes, como as igrejas Assembleia de Deus, Batista e Presbiteriana. Ele também participou de campanhas publicitárias do PT direcionadas ao público cristão. Em maio, estrelou uma peça que associava valores familiares a programas governamentais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Aos domingos, Messias compartilha vídeos curtos lendo salmos da Bíblia e desejando “uma semana muito abençoada“. Como membro da Igreja Batista, o ministro tem sido constantemente citado em iniciativas ligadas ao segmento religioso, como o curso Fé e Democracia para Evangélicos e Evangélicas, promovido pelo PT entre maio e junho. “Messias foi apontado como peça-chave na construção de pontes entre o governo e os evangélicos”, destacaram organizadores do curso. Procurado, o ministro preferiu não comentar.

Desde o início do terceiro mandato, Lula tem tentado estabelecer um diálogo mais sólido com o segmento evangélico, historicamente resistente à sua gestão. O presidente determinou campanhas voltadas ao público cristão e acionou auxiliares com trânsito entre religiosos. Apesar desses movimentos, há críticas internas de que Lula permanece distante das lideranças evangélicas que mantêm contato direto com as bases — justamente as que exercem maior influência sobre os fiéis.

De acordo com o Censo de 2022, os evangélicos representam 26,9% da população brasileira, o que corresponde a aproximadamente 56 milhões de pessoas. Nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, pesquisas do Datafolha indicaram que 80% desse público votaram em Jair Bolsonaro. Hoje, a taxa de desaprovação do governo Lula entre os evangélicos chega a 66%, conforme levantamento da Quaest, quase dez pontos percentuais acima da média nacional, que está em 57%.

A atuação de Jorge Messias é considerada parte de uma estratégia institucional do governo, mas líderes religiosos avaliam que as ações do ministro não estão acompanhadas de um alinhamento mais amplo com o tom do governo federal. “O governo sabe da necessidade de abrir diálogo com os evangélicos. Mas há uma dificuldade muito grande, em função de pautas que são contrárias aos princípios bíblicos. Uma das maiores resistências é a postura do governo em relação a Israel”, afirmou o apóstolo Estevam Hernandes, idealizador da Marcha para Jesus e líder da Igreja Renascer em Cristo.

O pastor Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, também vê limitações. “O Messias é evangélico de longa data, mas não resolve nada para Lula. É um posicionamento individual”, avaliou.

Alguns episódios recentes contribuíram para o distanciamento entre o governo e o segmento. Um dos mais sensíveis foi a suspensão, no ano passado, da isenção tributária sobre os salários de pastores, determinada pela Receita Federal. A medida gerou forte reação nas igrejas. A AGU participou das discussões sobre o tema junto ao Tribunal de Contas da União, mas o impasse persiste.

Apesar das dificuldades, há quem veja valor na iniciativa. “Messias busca minimizar as tensões ideológicas e focar em temas de interesse comum, como geração de renda e desenvolvimento econômico, visando atrair apoio do segmento. Isso é muito importante”, disse o pastor Cesário Silva, integrante do PT e membro do Conselho de Participação Social, vinculado à Secretaria-Geral da Presidência.

Foto: Emanuelle Sena/ AscomAGU

 

 


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