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O casario colonial do século 18, as praças, a igreja e a capelinha ganharam placas em azul e laranja da Defesa Civil, que indicam para onde moradores devem correr para sobreviver em caso de emergência, deixando suas moradias no povoado de Brumal, patrimônio histórico em Santa Bárbara, na Região Central de Minas Gerais.

Porém, sem saber se há segurança estrutural em uma pilha de rejeitos minerários de ouro que está corroída pela erosão das chuvas e que tem um terço (3,2 milhões de metros cúbicos) do volume da barragem que se rompeu em Brumadinho, essas pessoas vivem apreensivas em um local onde a garantia seria a tranquilidade.

O temor é de que uma onda de detritos possa descer, invadindo suas vidas. “O sossego, a segurança que tínhamos aqui, acabaram. Tentamos saber da mineradora por que estava tirando os trabalhadores da mina, sem falar ou fazer nada com os moradores da comunidade, mas as respostas foram vazias”, considera uma das líderes comunitárias de Brumal, Dulce Mendes.

Na sexta-feira (4), foram mostradas imagens analisadas por especialistas em mineração que apontam como extremamente delicada a situação e urgentes as obras para sanar as avarias provocadas pelas chuvas nas estruturas, o que a empresa afirma estar em andamento e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) diz estar fiscalizando.

Em imagens aéreas, foi possível detectar nos taludes (encostas) e na base da pilha que recebe rejeitos a seco. As drenagens que deveriam deixar estável a estrutura se encontravam assoreadas e o fluxo desse material seguia diretamente pela área da mineradora para o Rio Conceição. Um panorama com potencial de desabamento na pior das hipóteses.Segundo a empresa, há trabalhadores e máquinas atuando na estabilização da pilha.

A necessidade de um projeto de adequação da estrutura é avaliada pela Semad, podendo ser necessário até mesmo um novo licenciamento. Fiscais estaduais e federais (da Agência Nacional de Mineração) também devem comparecer ao local a pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). A empresa garante a estabilidade do reservatório, a não poluição do ambiente e a transparência de divulgação de informações para a comunidade.

Alvo de denúncias

A estabilidade na pilha de rejeitos de minério de ouro já vinha sendo alvo de questionamentos de trabalhadores da Mina Córrego do Sítio, segundo o dirigente estadual da Região do Caraça do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Luiz Paulo Siqueira.

“Os trabalhadores da mina da AngloGold Ashanti nos relataram situações extremas em que suas vidas estavam em risco. Disseram operar máquinas como tratores no topo da estrutura e sentir, mesmo parados, que tudo trepidava, como se estivesse balançando de um lado para o outro. Com as chuvas, tudo piorou. Basta ver que em todos os taludes, em 360 graus, há erosões, e o pior, lavando e minando a base desse depósito de rejeitos”, observa Siqueira.

Um dos impactos piores, segundo o dirigente do movimento social, seria a contaminação da água, uma vez que uma possível onda de rejeitos desprendida da pilha pode percorrer a calha do Rio Conceição, transbordar e atingir a captação da Copasa que abastece cerca de 25 mil pessoas em Santa Bárbara.

A cidade utiliza o Ribeirão do Caraça, manancial que corre mais baixo que o rio que pode ser caminho dos detritos e fica a apenas 500 metros de distância. A reportagem questionou a Copasa e a prefeitura da cidade histórica para saber se há planos de contingência e acompanhamento da situação, mas não obteve resposta.

Na comunidade, as histórias são de medo e relatos de falta de informações. “Enviava perguntas para as pessoas que fazem a comunicação e o relacionamento. Mandavam eu registrar e formalizar por e-mail. Depois que fazia isso, era sempre a empresa dizendo que estava tudo bem, que estava tomando as medidas de segurança cabíveis, que as estruturas estavam seguras, mas nunca respondem diretamente o que perguntamos, nem eles nem a prefeitura: a Pilha do Sapê tem ou não cianeto e outros tóxicos? Se tiver um desabamento, nós vamos ter água, vai ter alerta para a gente fugir? Ninguém sabe”, questiona Dilce Mendes.

Fonte: Uai


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