Faleceu nesta terça-feira (13), aos 89 anos, o ex-presidente do Uruguai José Alberto “Pepe” Mujica, uma das figuras mais emblemáticas da esquerda latino-americana. A morte foi confirmada pelo atual presidente uruguaio, Yamandú Orsi, aliado político de Mujica.
“Com profunda dor comunicamos que faleceu nosso companheiro Pepe Mujica. Presidente, militante, referência, liderança. Vamos sentir muito sua falta, velho querido! Obrigado por tudo que nos deste e por teu profundo amor pelo seu povo”, escreveu Orsi nas redes sociais.
Mujica, que completaria 90 anos no próximo dia 20, foi diagnosticado com câncer no esôfago em abril de 2023. A doença se espalhou para outras partes do corpo, e ele passou os últimos meses em cuidados paliativos, segundo declarou sua esposa, Lucia Topolansky. Devido ao agravamento de seu estado de saúde, Pepe não votou nas eleições regionais realizadas no último domingo (11).
Presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, Mujica ficou conhecido como “o presidente mais pobre do mundo”, devido ao seu estilo de vida simples. Vivia em uma chácara nos arredores de Montevidéu, dirigia um fusca da década de 1970 e doava parte de seu salário a projetos sociais. Era igualmente lembrado por seus discursos filosóficos e sua defesa da integração latino-americana.
Nascido em 1935, nos arredores da capital uruguaia, Mujica teve origem humilde. Atuou como guerrilheiro no Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros, nos anos 1960 e 1970, enfrentando a ditadura militar uruguaia. Foi preso quatro vezes, ferido com seis tiros e passou cerca de 14 anos encarcerado, muitos deles em regime de isolamento.
A trajetória no cárcere inspirou o filme *Uma Noite de 12 Anos*, de Álvaro Brechner. Em entrevista ao jornalista Emir Sader, Mujica contou que, para suportar a solitária, chegou a interagir com formigas e alimentar uma ratazana com migalhas de pão.
Com o fim da ditadura, Mujica foi libertado e ajudou a fundar o Movimento de Participação Popular, integrado à Frente Ampla, coalizão de partidos de esquerda e centro-esquerda. Foi eleito deputado, ministro da Agricultura e senador antes de assumir a Presidência.
Durante seu governo, promoveu reformas progressistas: descriminalização do aborto, legalização da maconha e reconhecimento do casamento igualitário. Sob sua liderança, o Uruguai viu avanços sociais expressivos. Segundo o professor Rafael Nascimento, da Universidade de Brasília (UnB), a pobreza caiu de 39% em 2004 para 11,5% em 2015. Houve ainda ampliação de programas de transferência de renda, aumento do salário mínimo, distribuição de laptops para estudantes e investimentos em habitação popular.
Para além dos números, Mujica tornou-se uma referência ética global. “Mujica é celebrado não apenas por suas realizações políticas, mas por sua ética de vida, simplicidade e luta por justiça social. Ele defendia valores como solidariedade, respeito à natureza e consumo consciente”, destacou Nascimento.
Mesmo após deixar a presidência, Pepe manteve influência. Foi eleito senador em 2019, mas renunciou ao cargo em 2020, durante a pandemia, por receio de exposição à covid-19. “Há uma hora de chegar e uma hora de partir na vida”, afirmou.
Em entrevista ao jornal espanhol “El País”, em novembro de 2024, declarou: “Me dediquei a mudar o mundo e não mudei nada, mas me diverti. E gerei muitos amigos e muitos aliados nessa loucura de mudar o mundo para melhorá-lo. E dei sentido à minha vida”.
Em outubro de 2023, participou do lançamento da Jornada Latino-Americana e Caribenha de Integração dos Povos, em Foz do Iguaçu. Na ocasião, reafirmou sua defesa da união regional: “Ou nos integramos, ou não somos nada”. Para ele, a América Latina só teria relevância geopolítica se unificada. “Para defender a pouca soberania que nos resta em um mundo global, se não nos unirmos, não existimos”, alertou.
Em dezembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Mujica em sua chácara e lhe concedeu a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração brasileira a estrangeiros. Emocionado, Lula declarou: “Essa medalha que eu estou entregando ao Pepe Mujica não é pelo fato de ele ter sido presidente do Uruguai. É pelo fato de ele ser quem é. A pessoa mais extraordinária que conheci entre os presidentes”.
A Frente Ampla, coalizão à qual Mujica dedicou sua vida política, retornou ao poder no Uruguai em março de 2025 com a eleição de Yamandú Orsi, vitorioso nas urnas em novembro do ano anterior.
O legado de Pepe Mujica vai além das fronteiras uruguaias. Com sua coerência entre discurso e prática, sua simplicidade desarmante e sua inabalável fé no ser humano, tornou-se uma figura rara na política mundial. Um símbolo de que é possível governar com ética, humildade e compaixão.
Foto: José Cruz/Agência Brasil

