Em cinco de novembro de dois mil e quinze, a barragem de Fundão, operada pela Samarco Mineração no município de Mariana, em Minas Gerais, rompeu-se sob o peso de quase sessenta milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro. A lama tóxica desceu em alta velocidade, inundou comunidades, devastou áreas rurais, atingiu o Rio Doce e chegou até o mar do Espírito Santo. O episódio deixou dezenove mortos e ficou marcado como o maior desastre ambiental do Brasil e um dos mais devastadores do mundo.
Entre as vítimas, estavam famílias que dependiam da agricultura e da pecuária leiteira em pequenas e médias propriedades às margens do Rio Doce. A contaminação do solo por metais pesados tornou inviável a produção nas mesmas condições anteriores. Quase uma década depois, a luta pela recuperação econômica e ambiental ainda é árdua, mas ganhou um novo fôlego com o apoio do Ministério Público Federal (MPF) e de pesquisadores de universidades federais.
O MPF fomenta um projeto pioneiro que busca transformar a pecuária leiteira em regiões impactadas pelo rompimento da barragem. Intitulada “Intensificação de Sistemas de Produção de Leite a Pasto para Melhorar o Balanço de Carbono em Regiões Impactadas por Rompimentos de Barragens de Mineração”, a iniciativa combina recuperação de pastagens degradadas, fortalecimento da cadeia leiteira, redução de emissões de gases de efeito estufa e desenvolvimento sustentável.
O projeto integra o programa ”Participa Minas”, criado a partir de parceria entre MPF, Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Fundação Arthur Bernardes (Funarbe). “É uma satisfação para o Ministério Público Federal apoiar este projeto que diminui a emissão de gases que provocam as mudanças climáticas. É a demonstração de que atuar extrajudicialmente — com a mudança de comportamento e a indenização por condutas irregulares — e reverter os resultados para a população afetada pode mudar a vida dos atingidos e trazer ganhos para toda a sociedade”, afirma o procurador da República Carlos Bruno Ferreira da Silva, idealizador e hoje responsável pelo acompanhamento do programa no MPF.
O Participa Minas é executado entre dois mil e vinte e quatro e dois mil e vinte e seis, financiado com recursos do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em dois mil e vinte e dois com a Samarco. Esse acordo resultou de descumprimento da lei estadual sobre desativação de barragens, e estabeleceu obrigação de cento e dezesseis milhões, duzentos e setenta mil reais. Desse valor, vinte por cento foram destinados a projetos socioambientais e socioeconômicos indicados pelo MPF e pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Só em dois mil e vinte e três, o Participa Minas recebeu um milhão e quatrocentos mil reais, correspondente a dez por cento da parcela anual.
A coordenação do projeto de leite é da professora doutora Polyana Pizzi Rotta, da UFV. Ela lidera uma equipe formada por sete docentes de quatro universidades federais — UFV, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Lavras (UFLA) e Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) — além de quinze estudantes da graduação e pós-graduação e dois técnicos.
“Se o sistema de pastejo estiver degradado, você vê um pasto muito baixinho ou até mesmo o solo exposto. Essa falta de material verde e de raiz faz com que não haja a captação do carbono que está na atmosfera”, explica Polyana. Segundo ela, o projeto propõe adubação, correção do solo, manejo adequado e, em alguns casos, a implantação de novas áreas de pastagem para reverter o quadro e aumentar a fixação de carbono.
As propriedades selecionadas precisaram atender a critérios rigorosos: terem sido diretamente atingidas pelos rejeitos, utilizarem predominantemente sistema a pasto, apresentarem degradação nas pastagens e demonstrarem disposição em adotar os manejos recomendados. Após a escolha, a equipe coletou e analisou amostras de solo no laboratório da UFV, o que permitiu elaborar recomendações personalizadas.
“Essas recomendações vão desde uma calagem, que é jogar o calcário no piquete, até a adubação, a implementação de um pasto novo, porque às vezes o pasto que ele tem não serve, não vai crescer, está todo degradado”, detalha Polyana.
O trabalho não se limita ao suporte técnico. Os pesquisadores também realizam inventários das emissões e remoções de gases de efeito estufa (GEE) nas propriedades, considerando fatores como energia elétrica, fertilizantes, combustível, fermentação entérica do gado e manejo de dejetos. O objetivo é reduzir a pegada de carbono e criar um modelo replicável de pecuária leiteira sustentável.
A realidade dos produtores afetados é dramática. Rafael Arcanjo, do sítio Ocidente em Barra Longa, relembra: “Ficamos ilhados por nove dias, cinco dias sem luz, e o lugar onde a lama passou, a terra não corresponde, não produz igual antes”.
Miguelito Teixeira, de Conselheiro Pena, reforça a dificuldade: “A perda de pastagem e os altos índices de contaminação com ferro e metais pesados impedem que a planta se desenvolva e isso afeta diretamente a nossa produção. A gente tem uma despesa maior com outros insumos, com ração, com fubá, com sal mineral, para que o gado continue a produzir”.
Maria Célia Albino de Andrade, da Fazenda da Pedreira, também em Conselheiro Pena, emocionou-se ao narrar sua experiência. Antes, sua propriedade era referência e integrava o programa Balde Cheio. “A nossa terra era uma terra muito boa. Eu sentia muito orgulho de falar isso, porque o Vale do Rio Doce era a segunda melhor terra do mundo”. Após o desastre, os níveis de fósforo caíram drasticamente, enquanto ferro e alumínio aumentaram. “Eu não aguentei, tive depressão, só chorava, tomando remédio contra ansiedade. Uma propriedade que era referência aqui na nossa região, que eu tinha orgulho de mostrar para todo mundo e hoje eu sinto até vergonha. A primeira coisa que fiz foi tirar a placa de unidade demonstrativa”, lamenta.
Cumprindo decisão judicial, a Samarco distribui silagem de milho para complementar a alimentação dos rebanhos afetados, mas esse auxílio só vai até dois mil e vinte e seis. Por isso, a recuperação das pastagens é urgente.
Na fazenda Rio Doce, em Governador Valadares, Adenilcio Santana Guerra, que perdeu cinquenta e seis hectares, demonstrou entusiasmo com a chegada dos pesquisadores. “Eu tenho muita vontade de voltar a mexer com leite. Esse novo projeto, com o pessoal que está agora nos atendendo aqui, é muito importante. Fizeram análise no solo, viram que o solo está fraco, precisa de calcário, precisa de gesso, uma adubação no plantio, uma adubação de cobertura. Então realmente eles sabem o que fazer”.
Maria Célia, por sua vez, mantém esperança: “Minha expectativa maior é ver a minha terra produzir, o meu gado produzir e eu conseguir trazer meu filho — porque nossa agricultura é familiar, eu trabalhava com meus filhos e marido aqui — e falar com ele, ‘olha, está entregue aqui da forma que eu recebi para trabalhar e vamos continuar trabalhando que agora ela produz. Você vai viver disso aqui também’”.
A proposta também pretende criar um selo de sustentabilidade para produtores que reduzirem significativamente o balanço de carbono na produção de leite. Os trinta e cinco produtores participantes poderão receber laudos e certificações, e o selo funcionaria como um diferencial de mercado. “Para isso se replicar, o produtor precisa ver vantagem econômica. E a vantagem econômica se dá no pagamento do preço do leite”, explica Polyana.
Embora ainda não exista bonificação direta para leite de baixo carbono no Brasil, a tendência internacional mostra que a sustentabilidade será cada vez mais determinante na precificação de produtos agropecuários. Estudos como o Inventário do Ciclo de Vida (ICV) do leite bovino no Brasil, realizado pela Embrapa e pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, já demonstraram que fazendas brasileiras podem alcançar índices de emissão de dióxido de carbono por quilo de leite muito inferiores à média mundial. Enquanto a média global é de dois vírgula quatorze quilos de CO2 equivalente por quilo de leite, algumas propriedades nacionais já produzem com apenas zero vírgula oitenta e cinco.
Esses resultados reforçam a relevância do projeto mineiro para alinhar práticas locais às metas pactuadas internacionalmente, como as da COP26. Além disso, ele conecta a produção leiteira com a agenda ESG (Environmental, Social and Governance), cada vez mais exigida por consumidores e investidores.
Outro ponto de destaque é a formação de novos profissionais. O envolvimento de estudantes de graduação e pós-graduação, muitos atuando como voluntários, garante que uma nova geração seja capacitada com valores ambientais e apta a enfrentar os desafios da sustentabilidade.
O projeto de intensificação da pecuária leiteira a pasto em áreas atingidas pelo rompimento de barragens é, portanto, um esforço que une ciência, sociedade e instituições públicas. Ele devolve esperança aos produtores, fortalece a cadeia produtiva e projeta Minas Gerais como protagonista em práticas agrícolas sustentáveis. E, sobretudo, mostra que a reparação ambiental não é apenas um dever jurídico, mas uma oportunidade de reconstruir vidas e transformar modelos produtivos em direção a um futuro mais sustentável.
Foto: Divulgação / MPF

