O ministro da Defesa, José Múcio, confirmou a exoneração do general Júlio César de Arruda do comando do Exército em pronunciamento à imprensa no Palácio do Planalto nesta noite.

Após participar de reunião com o presidente Lula (PT), Múcio apresentou o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, do Comando Militar do Sudeste, como substituto. Ele deverá assumir já nesta semana.

As relações, principalmente no comando do Exército, sofreram uma fratura num nível de confiança e achávamos que precisávamos estancar isso logo de início para superar esse episódio. Queria apresentar o substituto, general Tomás que a partir de hoje é o novo comandante”, disse José Múcio, ministro da Defesa.

Segundo Múcio, a decisão foi tomada e informada a Arruda nesta manhã. Ontem, Lula se reuniu com Arruda, Múcio e os outros dois comandantes das Forças Armadas para, oficialmente, tratar da “modernização” das corporações.

Na fala, o ministro deixou claro que a decisão teve relação direta com “a questão dos acampamentos e a questão do dia 8 de janeiro”, quando ocorreram os atos golpistas em Brasília. Lula deixou claro que não ficou satisfeito com o que considerou inação por parte do Exército.

Na madrugada dos atentados, o Exército impediu que a PM entrasse no acampamento em frente ao QG, em Brasília, e prendesse os envolvidos —mesmo depois que os terroristas haviam depredado as sedes dos Três Poderes.

Segundo pessoas próximas ao governo, Arruda desautorizou pessoalmente o ministro da Justiça, Flávio Dino, a entrar no acampamento e prender os manifestantes, na frente de Múcio.

Conforme o Novojornal já havia adiantado, o principal motivo da destituição seria falta de confiança por parte de Lula com o comandante.

Arruda assumiu o cargo no dia 30 de dezembro, para ajudar a administrar a posse presidencial, mas teve a relação abalada com Lula depois de indícios de inação por parte do Exército durante os atentados.

O agora ex-comandante se mostrava resistente ao processo de “desbolsonarização” que Lula vem promovendo no governo, o que incomodava o presidente, chefe das Forças Armadas.

Agora, fontes militares do novo governo afirmam que o presidente ficou incomodado com a situação do antigo ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, que assumiria, nos próximos dias, o 1º Batalhão de Ações de Comandos, em Goiânia.

Segundo um auxiliar de Lula, o ex-assessor de Bolsonaro “está sub judice” por conta das investigações que avançam contra o militar.

O general Tomás comandou o Batalhão da Guarda Presidencial em Brasília e Academia Militar das Agulhas Negras, foi ajudante de ordens do presidente durante o governo FHC e estava à frente do Comando Militar do Sudeste.

A Lei Complementar 97, de 1999, define que o cargo de comandante nas Forças Armadas só pode ser ocupado por oficiais-generais. Estes militares são aqueles que exercem funções de chefia há mais tempo e que, por isso, têm precedência hierárquica sobre aqueles incorporados depois às tropas.

A mesma lei determina que quem está na ativa e assume o cargo de comandante é transferido para reserva remunerada ao assumir o cargo, o que deve acontecer agora com Arruda. Entre os militares, a reserva é o regime equivalente à aposentadoria.

Desde a redemocratização, em 1985, o Exército já teve dez comandantes. Até 2015, todos os ocupantes do cargo haviam se formado antes da ditadura, iniciada em 1964. Quem ficou mais tempo na cadeira foi o general Zenildo Lucena, que exerceu a função de 1992 a 1999.

“Acho que era hora da gente fazer um debate público franco sobre quais Forças Armadas a gente quer e precisa e sobre as reformas necessárias na estrutura, concepção e formação delas”, afirma o historiador Lucas Pedretti sobre as circunstâncias da última troca de comando.


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