Angela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
“O Brasil está de volta” e “Lula Pop star”. Com manchetes assim, jornais, revistas e emissoras de TV nos mais diversos países, saudaram o discurso do presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, na COP 27, no Egito.
Para uma plateia formada pelos principais líderes mundiais e os mais importantes movimentos ambientalistas, Lula fez um discurso vigoroso, importante e oportuno.
Disse, com todas as letras, que não é mais possível adiar as decisões envolvendo o meio ambiente, enfatizou que temos um único planeta, anunciou o compromisso do seu governo com desmatamento zero da Amazônia e cobrou dos países ricos providências concretas em relação aos desafios que enfrentam as nações mais pobres.
Sobretudo, vinculou a defesa do meio ambiente ao combate à fome e à pobreza.
Seu pronunciamento foi considerado “magnífico“. Nada melhor do que ter Lula de volta e liderando uma campanha mundial contra a fome!
Apesar de ser esse o consenso internacional, a realidade nacional é bem diferente.
Depois dos outros sucessos que Lula também obteve nessa primeira viagem internacional após eleito, e de sua passagem por Portugal, o que o aguarda no retorno ao Brasil são muitos problemas e dores de cabeça.
Os problemas de Lula aqui atendem pelo nome de ganância de parte da classe dominante brasileira: mercado financeiro, agronegócio e mídia.
Bastou Lula autorizar o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, que coordena a Equpe de Transição, a negociar, através de uma PEC, a retirada do valor necessário ao pagamento dos benefícios do Programa Bolsa Família do chamado teto de gastos, para a lua de mel do mercado e da própria mídia corporativa brasileira com ele chegar ao fim.
Ironia das ironias, o motivo pelo qual Lula foi mundialmente saudado é o mesmo pelo qual as vorazes elites brasileiras o criticam.
Ao agirem assim, essas elites, na realidade elites do atraso, deixam claro o que são, como pensam, agem e o que querem.
O que Lula propôs lá fora é exatamente igual ao que fez em seus governos passados e ao que prometeu novamente na durissíma campanha eleitoral em que saiu vencedor.
Só que a elite do atraso sempre acredita que pode impor sua vontade. Daí os problemas e as pressões.
Depois de tentar evitar a vitória de Lula de todas as formas, essa elite partiu para a tática de colonizar o futuro governo.
Tentativa que passa por impor-lhe um plano econômico ortodoxo e até mesmo um nome para o ministério da Economia. Ambos, distantes dos princípios sociais-democratas (welfare state) propostos por Lula.
Se dependesse do interesse desta elite, Lula deveria manter o programa neoliberal de Bolsonaro e no lugar de Paulo Guedes (sua continuidade seria impensável), substituí-lo por alguém afinado com suas ideias.
Não por acaso, Lula, que sempre está muito atento a estes movimentos, fez questão de dar declarações duras e descartar esses acertos.
Diante das pressões e do mau humor do mercado, deu de ombros e disse não se preocupar se o dólar vai subir ou a bolsa cair.
Lula está certo.
Na prática, ele deixou claro que não vai aceitar imposições, especialmente porque não vê contradição entre apoio aos programas sociais e a saúde financeira do país.
Nos próximos dias, tudo indica que Lula deverá anunciar o ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, como o seu ministro da Economia.
O mercado, nome de fantasia da elite, vai reagir, mas as chances dele mudar de ideia são próximas de zero.
Como fez em seus mandatos anteriores, Lula aposta em um nome que reúna conhecimento técnico e sensibilidade social para comandar a economia.
Na tentativa de se contrapor a Lula, a elite, através de alguns dos economistas queridinhos como Edmar Bacha, Pedro Malan e Pérsio Árida, divulgou uma carta aberta, elencando os riscos de um descontrole fiscal.
É interessante observar como a elite só vê riscos quando se trata de recursos para os mais pobres. E a mídia, claro, divulga tudo isso, numa linguagem tão cifrada, quando abertamente manipulada, que até pobres caem na conversa.
Haja vista o apoio que um candidato nitidamente antipovo como Bolsonaro teve nas últimas eleições.
Por tudo isso, Lula sabe do tamanho dos desafios que o aguardam. O da economia é o principal, mas o envolvendo a mídia não fica atrás.
Se alguém tinha dúvida de quanto tempo duraria a trégua da mídia corporativa brasileira em relação à Lula, não tem mais.
A pancadaria já começou e ainda estamos no período de transição. A mesma mídia que nunca cobrou nada de Bolsonaro e segue acobertando seus desmandos é a que já bate num governo que ainda nem começou.
A mesma mídia que faz vista grosso para o golpismo explícito dos quartéis e do “gado” acampado nestas portas é o que tenta provocar divisão e crise entre os integrantes da frente ampla que apoia Lula.
Razão pela qual Lula não poderá abrir mão de contar com uma ágil e eficiente comunicação pública, seja através da revitalização da TV Brasil, do apoio à mídia independente e de uma radiodifusão comunitária que faça jus ao nome.
Nenhum país conseguiu romper os grilhões que o prendiam ao atraso, sem enfrentar os interesses dominantes. Alguns países fizeram isso em séculos passados e de forma violenta.
No Brasil, temos um estadista e uma chance única de superarmos o fascismo bolsonarista e avançarmos na direção de uma sociedade moderna, inclusiva e soberana, de forma pacífica.
Se dependesse da tal elite brasileira, a escravidão estaria perdurando até hoje, porque, segundo ela, a economia não iria resistir ao fim do trabalho escravo.
Agora não é diferente em relação aos programas sociais. Vão sobrar pressões, mau humor, editoriais críticos e textos de opinião indignados.
Mas Lula está determinado. Os pobres vão entrar no orçamento.
E, esperamos, desta vez para não sair mais.
