Angela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

Todas as previsões para 2024 indicam que este pode ser um ano difícil para as forças democráticas brasileiras.

Mesmo tendo vencido o golpismo – e são infinitas as razões para que o 8 de janeiro seja sempre lembrado e repudiado – os golpistas continuam à espreita, aguardando um descuido do governo Lula e dos setores que o apoiam.

Um exemplo disso aconteceu com a tal CPI que a Câmara Municipal de São Paulo tenta instalar para investigar o padre Júlio Lancellotti. Possivelmente na avaliação da extrema-direita, o assunto passaria despercebido pelas forças democráticas neste início de ano e quando se dessem conta, o estrago estaria feito.

Para tanto, a extrema-direita contava com a maioria dos vereadores na Casa, um misto de oportunistas com bolsonaristas. Oficialmente o objetivo era investigar a utilização de convênios por parte de ONGs que atuam no trabalho com a população de rua da capital paulista, em especial na região central conhecida como Cracolândia, Na prática, o alvo era o padre Lancellotti, um verdadeiro apóstolo dos pobres, que prega somente o Evangelho.

A jogada veio à tona e as forças populares deram um belo exemplo de como se combate o mal pela raiz. Ao contrário de ficar aguardando que o governo Lula, o PT e demais partidos progressistas tomassem a frente, o chamado movimento popular se lançou na defesa do padre Júlio. De todas as regiões brasileiras e das mais diversas formas vieram apoio e solidariedade, mas também denúncias sobre as ações e intenções dos golpistas.

Do dia para a noite, as redes sociais – normalmente ocupadas por fake news – entraram de sola na defesa do padre Júlio de forma tão intensa que até a mídia corporativa, que costuma fingir que não está vendo nada, foi obrigada a noticiar o que estava acontecendo.

A essas manifestações se somaram os apoios de Lula, Janja, da maioria dos ministros, do PT e demais partidos progressistas e de todos os parlamentares comprometidos com a democracia.

A razão é simples. Padre Júlio é um verdadeiro defensor dos pobres e oprimidos. Faz isso sem qualquer convênio, se valendo do seu trabalho e de doações que recebe. Vive na pobreza, como as pessoas – homens, mulheres e crianças – que auxilia, mas a extrema-direita, ao invés de olhar para os seus pastores picaretas e bilionários, quer estigmatizar exatamente quem merece todo apoio e reconhecimento.

Do Oiapoque ao Chuí, os brasileiros e as brasileiras agora sabem quem é o Padre Lancellotti. A extrema-direita está tendo o dissabor de ver muitos dos adeptos da CPI retirarem seu nome, sob o argumento de que foram enganados ou não sabiam do que se tratava.

Como o ano está apenas começando, outras iniciativas igualmente canalhas serão tentadas em todos os níveis do Legislativo brasileiro. No Congresso Nacional, por exemplo, não faltam partidos e parlamentares anunciando que podem apresentar projeto de emenda constitucional (PEC) para tornar o famigerado Marco Temporal um item da Constituição e anunciam que vão anular medidas vetadas pelo governo. Dizem o mesmo em se tratando da reeleição para presidente da República.

Nos dois casos, o alvo é obviamente o governo Lula. Um dos compromissos da terceira gestão Lula é demarcar as terras indígenas. Para tanto, criou-se até um ministério, o primeiro destinado aos povos originários. E Lula está indo tão bem, apesar de todas as sabotagens, que seus opositores, preocupados com a possibilidade dele reeleger-se, tramam impedir que a população assim decida.

De novo, nos dois casos, não basta que se apoie o governo ou aguarde que ele vá à luta. O movimento social e popular pode se antecipar, tomando as ruas e as redes em defesa das pautas democráticas e dos interesses da maioria da população.

Quem quer incluir o Marco Temporal na Constituição são os grandes proprietários de terras, o agronegócio, aquele que só pensa em exportar e despeja toneladas de agrotóxicos nos alimentos que ingerimos.

Quem quer impedir uma possível reeleição de Lula são os que não têm projeto voltado para os interesses populares e querem ganhar no tapetão, como fizeram no golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, e na prisão sem crime do próprio Lula, em 2018.

Essa turma faz qualquer negócio para manter seus privilégios. Haja vista o que seus congêneres argentinos fizeram visando a vitória do ultraliberal, Javier Milei, na prática um ditador que se diz “libertário”. Detalhe: a mídia corporativa brasileira, que apoiou descaradamente Milei, agora finge que não está vendo o quer se passa na Argentina. E o que se passa lá é muito grave: contra os absurdos decretos de Milei, que condenam a população de seu país à fome e à miséria, em menos de um mês de governo já aconteceram três grandes manifestações contra ele. A quarta, uma greve geral , está prevista para o próximo dia 24.

A Argentina vai entrar para a história como o país em que a maioria da população reconheceu, quase imediatamente, o erro que havia cometido nas urnas. Erro para o qual pesaram muitos fatores, mas, sem dúvida, a postura canalha de sua classe dominante e as mentiras dos meios de comunicação ocupam lugares de destaque.

Se os argentinos estão se desiludindo com Milei a uma velocidade espantosa, no Brasil, as pesquisas indicam que cerca de 20% da população ainda apoia Bolsonaro. O número é altíssimo, quando se sabe que o ex-capitão não fez nada que preste e, pior ainda, destruiu as bases do nosso estado de direito, jogou a economia no buraco, transformou o país em pária internacional, corrompeu e permitiu a corrupção, sem falar nas milhares de mortes que provocou com o seu negacionismo durante a pandemia do covid-19.

O problema é que o “gado” não sabe disso. Confinado em bolhas nas redes sociais ou em grupos do Whatsapp, essas pessoas são induzidas pelas fake news a acreditarem que “Bolsonaro fez um grande governo”, que “ele é perseguido” e que “a esquerda quer tomar o patrimônio, destruir a família e implantar o comunismo”.

Claro que essas mentiras não resistem a cinco segundos de conversa. Mas quem disse que os bolsonaristas conversam? Instruídos por pastores e manipulados pelas redes sociais, eles tendem a ver o diabo, onde deveriam estar identificando os espertalhões que deles se aproveitam.

Tenho acompanhado alguns grupos bolsonaristas e chega a ser impressionante como os argumentos deles são rasos e lhes faltam informações elementares. Some-se a isso que a mídia corporativa, que poderia ser o contraponto, continua passando pano para Bolsonaro.

Quer um exemplo?

Em assuntos óbvios como o fim do seguro obrigatório para acidentes de trânsito (DPVAT) a mídia diz que ele acabou, mas não fala que foi por decisão do governo Bolsonaro. Na última quinta-feira, por exemplo, o Jornal nacional fez uma longa reportagem sobre o assunto e não citou Bolsonaro em nenhum momento. Em síntese, é como se nos quatro anos dele e nos dois do golpista Michel Temer, as decisões não tivessem alguém a executá-las.

Por isso, mais do que nunca é preciso denunciar os desmandos de Bolsonaro e dos golpistas e combate-los diuturnamente nas redes e nas ruas.

Um ótimo momento para se dar a partida em 2024 é nesta segunda-feira, 8 de janeiro.

Nada de ficar em casa apenas acompanhando o que acontece.

Todos, todas e todes nas ruas e nas redes, repudiando os golpistas e reafirmando os valores democráticos.

Nas capitais e principais cidades haverá manifestações em defesa da democracia. Descubra a mais perto de você.

Vá além. Se souber de qualquer manifestação golpista, denuncie. Não se pode ter complacência com quem quer destruir a democracia, com quem tramava até a morte de opositores.

Mobilizados, somos invencíveis. Não há suposta maioria parlamentar que tenha coragem de encarar uma população mobilizada e que sabe o que quer. Até porque, se este ano tem eleição municipal, é preciso varrer a direita das prefeituras e câmaras municipais. Já em 2026 será a vez de o Brasil acertar o passo com a sua história.

Ditadura e Extrema-direita nunca mais!