O pedido de Jair Bolsonaro por anistia aos presos por invadir às sedes do Três Poderes foi feito com o interesse próprio de se livrar da cadeia, avaliam deputados governistas.

Para a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), o ex-presidente é mandante de uma tentativa de golpe e tenta se proteger. A parlamentar disse que Bolsonaro fez “praticamente uma confissão” ao defender uma proposta que isenta de julgamento pessoas ligadas a intentona de derrubar a democracia.

A opinião dela é relevante porque Sâmia é relatora do projeto de anistia. Havia outras três sugestões no mesmo sentido que foram unificadas em um único texto que agora tramita na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

O parecer da parlamentar é contrário à anistia. O voto da deputada trata as invasões como “atrocidades” e argumenta que perdoar crimes reverteria decisões judiciais.

Ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, comentou no X que Bolsonaro sabe que será preso. A declaração vai na mesma linha dos deputados governistas.

O assunto surgiu porque Bolsonaro pediu anistia aos presos de 8/1. As declarações ocorreram durante ato realizado ontem (25), na avenida Paulista. A solicitação foi encaminhada ao Congresso. “É por parte do Parlamento brasileiro uma anistia para os pobres coitados que estão presos em Brasília”, disse.

Em outro momento, o ex-presidente mencionou episódios de anistia na história brasileira: “Nós já anistiamos no passado quem fez barbaridades no Brasil. Pedimos um projeto de anistia para que seja feita justiça no Brasil”.

Integrante da CPI do 8/1, Rogério Correia (PT-MG) criticou a declaração. Ele comentou o que entende se tratar de segundas intenções de Bolsonaro. “Diz que vai fazer um projeto de anistia para todos que participaram do ato golpista, incluindo ele”, avaliou.

O deputado Alencar Santana (PT-SP) chamou a atitude do ex-presidente de “oportunismo e covardia”. Ele justifica que os detentos estariam sendo usados por Bolsonaro como meio de alcançar um benefício próprio.

Bolsonaro mostra desespero e quer agora pautar uma anistia sabendo que o destino dele é cadeia. Deputado Rogério Correia

O projeto

A proposta prevê anistia a todas as pessoas que participaram de manifestações de 30 de outubro de 2022 em diante. Trata-se da data do segundo turno da corrida presidencial e coincide com o começo do bloqueio de rodovias, que foi seguido de acampamentos em quarteis e outros atos que culminaram no 8/1.

A relatora considerou a aprovação inviável por uma séria de motivos. Sâmia alegou que “todo tipo de atrocidade” foi cometido atrapalhando a segurança, locomoção e possibilidade de a população trabalhar.

Ela também recusou que postagens e comentários em redes sociais sejam perdoados. A deputada justificou que esta atitude fomentaria o ódio, violência e preconceito.

A parlamentar também analisou os efeitos da anistia na Justiça. Sâmia ponderou que veredictos onde foram encontradas provas seriam anulados com um projeto de isenção de responsabilidades.

Por fim, ela lembrou que houve aplicação de multas pelos estados e municípios. Além de não ter os prejuízos reparados, ficaria impossível manter sanções administrativas tomadas por governantes que enfrentaram interdição de rodovias e outras situações.

Minuta do golpe

Os deputados governistas estranharam Bolsonaro comentar a minuta do golpe no discurso feito ontem em São Paulo. Rogério Correia considera o documento criminoso por pregar prisão de ministros, modificar a composição do Tribunal Superior Eleitoral e convocar novas eleições.

O parlamentar acredita que Bolsonaro sabe que a PF tem provas que ligam o ex-presidente à minuta. Tratar do assunto em público seria forma de uma defesa prévia.

Correia mencionou o trecho da fala que o ex-presidente abordou estado de sítio. Na avaliação do petista, é mais uma situação de apresentar uma explicação antes de o tema vir à tona.

Para governistas Bolsonaro produziu provas contra si.

Gleisi: “Devia ter apresentado à Polícia Federal sua versão fabulosa sobre o decreto de golpe”. A presidente nacional do PT e deputada federal pelo Paraná endossou a hipótese de que Bolsonaro tentar aliviar uma possível condenação dele próprio, e mencionou o silêncio do ex-presidente durante depoimento prestado à Polícia Federal na última semana.

Freixo: “Bolsonaro produziu provas contra si”. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, também mencionou o documento e disse que o ex-presidente teria provado estar ciente do teor do texto —que incluía, segundo a Polícia Federal, um pedido prisão do ministro Alexandre de Moraes.

Líder do governo na Câmara chamou governadores participantes de “cúmplices da tentativa de golpe”. José Guimarães (PT-CE) também afirmou que não haveria “espaço para anistiar quem cometeu crimes contra a nossa nação”.

Além das autoridades, apoiadores do petista se mobilizaram para tentar reverter atenção nas redes. O termo “Chuva de Lula” e a hashtag #GolpistasNaPaulista foram compartilhados em publicações críticas ao ato de Bolsonaro. O primeiro ficou entre os assuntos mais comentados do X (antigo Twitter), com 130 mil postagens.


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