Quatro em cada dez moradores do Aglomerado da Serra e da Cabana do Pai Tomás, duas das maiores comunidades de favelas da capital mineira, vivem em condição moderada ou grave de insegurança alimentar. O dado aparece na pesquisa Insegurança alimentar e nutricional sob a perspectiva da interseccionalidade no município de Belo Horizonte – MG, que levantou informações socioeconômicas com base na associação entre desigualdades históricas e vulnerabilidade da população em relação à insegurança alimentar.

O estudo foi desenvolvido por Karynna Ferreira no âmbito do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG. Valendo-se de dados do Projeto BH-Viva, empreendido pelo Observatório de Saúde Urbana (OSUBH), a pesquisa analisou os impactos das intervenções de transformação urbana no contexto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Vila Viva implementadas pela Prefeitura de Belo Horizonte.

“Belo Horizonte é reconhecida pelos avanços nas políticas públicas de promoção da segurança alimentar, mas os resultados são contraditórios, já que grupos mais vulneráveis não foram alcançados plenamente, como mulheres negras em condições socioeconômicas desfavoráveis”, afirma Karynna Ferreira.

O projeto foi executado em três fases, e a etapa 2, objeto da pesquisa de Karynna Ferreira, reuniu inquéritos domiciliares realizados em 2017 e 2018 no Aglomerado da Serra e na Cabana Pai Tomás e nos bairros que fazem divisa com essas duas Zonas e Áreas Especiais de Interesse Social (Zeis). Ao todo, 1194 pessoas foram entrevistadas.

Desigualdades estruturais

Segundo pesquisa nacional recente (Vigisan), o Brasil tinha, no biênio 2021-2022, cerca de 60% da sua população vivendo com algum grau de insegurança alimentar. Os resultados do estudo UFMG indicam que esse problema é marcado por desigualdades entre diferentes grupos sociais, e numa perspectiva interseccional, é possível identificar padrões e vítimas da insegurança alimentar, compreendendo como os eixos de desigualdades estruturais se articulam para moldar o panorama atual.

Uma possível explicação para esse cenário é o fato de a insegurança alimentar ser marcada pela exploração de trabalho e reforçada pelo acesso desigual à saúde, à educação e a recursos. “A construção de uma abordagem interseccional nos possibilitou avançar na compreensão da insegurança alimentar em Belo Horizonte e das formas como ela se reproduz nas interseções das relações de gênero, racismo e vulnerabilidade socioeconômica”, aponta a pesquisadora.

Segundo a Fundação Ipead/UFMG, levantamentos de dezembro de 2021 revelam que o preço da alimentação básica de um trabalhador adulto subiu 9,63% em um ano, correspondendo a 55,35% do salário mínimo.

Além da renda e da escolaridade

Por meio da abordagem interseccional e da criação de um Índice de Vulnerabilidade Socioeconômica Sensível à Insegurança Alimentar (IVSIA), o estudo buscou captar as complexas dinâmicas da vulnerabilidade socioeconômica para além de indicadores mais clássicos, como renda e escolaridade.

Com isso, a pesquisa identificou, por exemplo, que mulheres autodeclaradas negras em condições socioeconômicas desfavoráveis apresentam chance quase sete vezes maior de enfrentar a insegurança alimentar em comparação com homens autodeclarados brancos em condições socioeconômicas mais favoráveis. Além disso, pessoas autodeclaradas negras, assim como aqueles em condições socioeconômicas desfavoráveis, apresentaram maior exposição à insegurança alimentar do que pessoas autodeclaradas brancas e aquelas em condições socioeconômicas mais favoráveis.

Karynna Ferreira defende uma visão atenta para as desigualdades intraurbanas e a adoção de políticas mais sensíveis às desigualdades entre grupos sociais. “O entendimento da importância de uma abordagem interseccional nas pesquisas e na construção de políticas públicas é essencial para combater a perpetuação desse cenário”, afirma a pesquisadora.


Avatar

administrator