O relatório da Polícia Federal (PF) sobre o plano de golpe de Estado articulado após a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, destaca a inquietação dos envolvidos com as informações reveladas pelo tenente-coronel Mauro Cid em seu acordo de colaboração premiada. Os documentos apreendidos pela PF indicam que integrantes do grupo investigado, incluindo o ex-ministro da Defesa Walter Braga Netto, tomaram medidas para tentar acessar o conteúdo da delação.

De acordo com o relatório, Braga Netto teria buscado informações sobre o acordo por meio dos pais de Mauro Cid. “Outros elementos de prova demonstram que Braga Netto buscou, por meio dos genitores de Mauro Cid, informações sobre o acordo de colaboração”, descreve a PF.

Uma das principais evidências da preocupação do grupo foi encontrada durante buscas realizadas na sede do Partido Liberal (PL), em Brasília, em fevereiro de 2023. Na mesa do coronel Flávio Botelho Peregrino, assessor de Braga Netto, a PF localizou um documento que continha perguntas e respostas relacionadas à delação premiada de Mauro Cid.

O conteúdo sugere que integrantes do grupo investigado realizaram questionamentos específicos sobre a delação, indicando grande preocupação com os temas abordados. As perguntas incluíam: o que foi delatado sobre reuniões entre os investigados, a existência de uma minuta do golpe e os nomes mencionados nos depoimentos. Para os investigadores, isso demonstra que o grupo tentava entender a extensão das informações reveladas pelo colaborador.

O relatório também aponta menções a generais investigados no esquema golpista. Em um trecho do documento apreendido, há referências ao general Mario Fernandes, ao general Augusto Heleno e a Braga Netto. Segundo o relato, Mauro Cid teria defendido Braga Netto, afirmando que ele possuía um “pensamento democrático de transparência das urnas” e não era golpista. A PF considera essas anotações uma tentativa de minimizar a implicação de Braga Netto no plano.

Os agentes destacam que o documento estava sob a posse de uma pessoa próxima a Braga Netto, reforçando o interesse direto do ex-ministro em monitorar o conteúdo da delação. A PF classificou o contexto como “grave”, apontando para a tentativa de manipulação ou ocultação de fatos relacionados ao golpe.

Outra evidência apresentada no relatório envolve conversas entre o general da reserva Mario Fernandes, ex-secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, e o coronel reformado Jorge Luiz Kormann. Em mensagens analisadas pela PF, Fernandes relatou que os pais de Mauro Cid ligaram para Braga Netto e Augusto Heleno negando as informações divulgadas pela imprensa sobre o acordo de colaboração. A mensagem descreve que eles teriam afirmado que “é tudo mentira”.

Para os investigadores, esse diálogo reforça o vínculo entre os principais envolvidos no plano golpista e a tentativa de controlar os desdobramentos da delação. Além disso, evidencia o impacto das revelações de Mauro Cid sobre o núcleo articulador do golpe.

A tentativa de acessar e controlar o conteúdo da colaboração premiada de Mauro Cid demonstra a extensão da articulação entre os investigados para proteger os líderes do grupo e evitar a exposição de suas atividades. Para a PF, esses esforços indicam não apenas a gravidade das ações planejadas, mas também o envolvimento ativo de figuras-chave no plano de subversão democrática.

O relatório detalha como os indícios obtidos conectam militares de alta patente e ex-integrantes do governo Bolsonaro ao planejamento golpista, aumentando a pressão para responsabilização legal dos envolvidos. As evidências destacam a preocupação central do grupo com as informações fornecidas por Mauro Cid e o impacto de sua colaboração nos rumos da investigação.

Foto: Wilton Junior

 


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