Batalhas no mar Negro, no mar Vermelho e o potencial incendiário do mar do Sul da China colocam o poder naval no centro da agenda dos estrategistas. Brasil deve se preparar para incluir novas tecnologias e muita tonelagem para travar as batalhas navais do futuro, dizem analistas militares ouvidos pela Sputnik Brasil.

Nesta quinta-feira (1º), o grupo iemenita houthi anunciou o ataque a navio mercante do Reino Unido no mar Vermelho, informou o general de brigada do grupo, Yahya Sari, conforme reportou o canal libanês Al-Mayadeen.

“As forças armadas do Iêmen atacaram com mísseis antinavio um cargueiro britânico que seguia em direção ao mar Vermelho […] Israel”, disse Sari. “[A operação foi realizada] em apoio ao povo palestino e em resposta à agressão americana e britânica no Iêmen.”

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA, por sua vez, informou haver abatido drones sobre o golfo do Áden e destruído uma embarcação sem tripulação pertencente aos houthis no mar Vermelho.

Diante da centralidade de conflitos navais no mar Vermelho, no mar Negro e do potencial explosivo do mar do Sul da China, a revista The Economist publicou artigo que defende o aumento da importância do poder naval no século XXI.

Segundo o editorial, a preponderância do transporte marítimo no comércio internacional e a transferência de dados via cabos submarinos contribuem para a relevância geopolítica dos mares.

Para o professor na Escola Superior de Defesa em Brasília, Wellington Dantas de Amorim, a questão logística não é a única responsável pela ascensão da relevância geopolítica no poder naval no século XXI.

“Há outro elemento que torna esse imperativo geopolítico cada vez maior, que é a crescente territorialização do mar”, disse Dantas de Amorim à Sputnik Brasil.

“Devemos considerar não só o combate no mar, mas os combates pelo mar, o que está incluído no Plano Estratégico da Marinha Brasileira para 2040.”

Os Estados ampliaram a sua soberania sobre os mares, se valendo de convenções da ONU que garantem o direito de explorar as águas de sua Zona Econômica Exclusiva e estender a sua plataforma continental.

Além disso, temos a prática de países como Malásia, Vietnã, Filipinas e China de construírem ilhas artificiais para instalar bases marítimas ou servirem de apoio a bombardeiros”, notou Dantas de Amorim.

O combate moderno, no entanto, verá não só a ascensão do poder naval, mas de todos os domínios da guerra, de maneira interligada.

“Os poderes estão cada vez mais interconectados. Não há poder naval sem o poder espacial de monitoramento, por exemplo”, considerou Dantas de Amorim. “Qualquer conflito hoje vai envolver o poder naval, terrestre, aéreo, espacial e cibernético, aliado à dimensão humana, que perpassa esses cinco domínios.”

Poder naval da China

A relevância geopolítica do domínio dos mares está na pauta de potências ascendentes como a China, que detém a maior Marinha do mundo, ultrapassando os EUA. Segundo relatório do Pentágono publicado em 2023, Pequim possui cerca de 370 navios de guerra contra 280 de Washington.

Realmente a tonelagem da Marinha chinesa está maior do que a dos EUA, o que não quer dizer que a eficiência ou projeção de poder naval de Pequim chinesa seja maior do que a de Washington. A China segue atrás dos EUA em quantidade e qualidade de submarinos, apesar de estar se aproximando”, ponderou Dantas de Amorim.

“Só é possível avaliar qual Marinha é a melhor no campo de batalha.”

O professor doutor em história da Escola Naval, Leonardo da Costa Ferreira, afirma que os EUA deverão manter a sua superioridade naval sobre a China por pelo menos mais uma década.

“Os EUA possuem mais de dez porta-aviões movidos a propulsão nuclear em serviço ativo e preparam o lançamento de mais unidades da classe Gerald Ford, o que totaliza, até 2035, mais de 1 milhão de toneladas nesses meios navais e quase mil aviões de caça embarcados”, disse Ferreira à Sputnik Brasil.

Outra vantagem que a Marinha dos EUA tem sobre sua adversária chinesa é a experiência em combate e adestramento profissional para conflitos em alto mar.

“O grande desafio da Marinha da China é o treinamento de seus tripulantes para situação real de combate”, disse Ferreira. “Acredito que o esforço de Pequim na próxima década não será de expandir mais a sua Marinha, mas aperfeiçoar a sua prontidão. Pois de nada adianta ter muitos meios navais, mas baixo índice de treinamento e adestramento das suas tropas em relação ao seu potencial adversário, que seriam os EUA.”

Revolução tecnológica

Mas não é só Pequim que não trava uma batalha naval interestatal há décadas. As grandes Marinhas mundiais investem no emprego de novas tecnologias nas suas frotas, mas ainda não sabem exatamente como elas serão empregadas nos embates navais no futuro.

“É um grande enigma. Sabemos que há uma tendência a menor uso de humanos nas batalhas, o uso extensivo do multidomínio – com constelações de satélites municiando as embarcações com informações – mais utilização de submarinos e mísseis hipersônicos, mísseis terra-mar ou mar-mar, que desabilitem navios”, enumerou Dantas de Amorim. “Mas nada disso ainda foi de fato colocado à prova.”

Os embates entre Rússia e Ucrânia no mar Negro deram algumas pistas sobre a necessidade de atualizar estratégias de embate naval como a da OTAN, excessivamente focadas no uso de porta-aviões, submarinos e mísseis balísticos, considera o professor da Escola Naval, Leonardo Ferreira.

“O que a guerra da Ucrânia tem mostrado de maneira relevante, e isso chocou alguns estrategistas, foi a eficiência do drone como arma de ataque, e não só de observação, mapeamento, vigilância e inteligência”, notou Ferreira.

Segundo ele, a eficiência do uso de drones de pequeno porte para incapacitar blindados, aviões em solo e embarcações fluviais e marítimas exigirá a atualização das estratégias navais da OTAN.

“Não me surpreenderia se na próxima década surgisse uma nova classe de navios: o navio drônico. Temos o navio aeródromo, que é o porta-aviões. Pode surgir o navio drônico, que leva vários modelos de drones”, apostou Ferreira. “Acho que a estratégia ao longo prazo não vai envolver só porta-aviões e submarinos, mas também o drone. Ele vai ser pensado como uma arma fundamental nas marinhas de guerra no futuro.”

Potencial brasileiro

Em um contexto geopolítico com alto risco de conflitos navais de médio e grande porte, envolvendo potências militares, o Brasil terá que redobrar os seus esforços para defender sua soberania sobre a Amazônia azul.

“A Amazônia azul, segundo o pleito brasileiro, tem 5 milhões e 700 mil quilômetros quadrados, o que equivale a 60% do território terrestre brasileiro. Ela seria o 7º país do mundo em superfície e 40% maior que a Índia”, disse Dantas de Amorim. “Como é que o Brasil vai poder preservar a soberania sobre essa extensão sem os recursos tecnológicos necessários?”

O especialista lembra que existem avanços na elaboração de sistema de gerenciamento da Amazônia azul, inclusive com o uso de drones, e na modernização da frota de submarinos e fragatas. “Mas talvez seja insuficiente”, lamenta o professor da Escola de Defesa.

“O Brasil apresenta novidades, como os novos submarinos convencionais da classe Riachuelo e a construção das novas fragatas da classe Tamandaré”, disse Ferreira. “Somos a única Marinha do Atlântico Sul com um porta-helicóptero de mais de 20 mil toneladas, com capacidade de operar aviões, em caso de combate.”

Além da segurança do Atlântico Sul, a Marinha do Brasil deve garantir a segurança de extensa rede fluvial, dentre as quais estão rios cobiçados por sua geografia, conectividade e oferta de água doce.

“O Amazonas tem sido alvo de investimentos pela Marinha na última década […] e protege a desembocadura do grande rio e vigia embarcações que adentram em direção a nossa floresta”, disse Ferreira. “Sempre que possível, a foz do Amazonas é patrulhada por submarinos, há um esquadrão de helicópteros, e corpo de fuzileiros navais.”

O especialista nega que haja “um vazio ou total desguarnecimento” da região da foz do Amazonas, mas sim a presença de objetos militares com a “possibilidade de pronto emprego, se necessário”.
No entanto, o risco de conflito interestatal nos rios brasileiros é menor do que no Atlântico Sul, que deve continuar sendo o foco das Forças Armadas, acredita Dantas de Amorim.

“Infelizmente, as ameaças provavelmente virão do Atlântico Sul, que conta com a ampla presença de marinhas de potências extrarregionais, que sabemos muito bem quais são”, concluiu o professor da Escola de Defesa.


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1 Comentário

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    Robson, fevereiro 8, 2024 10:09 @ 10:09 Responder

    Esse é um assunto poder naval está em alta e Brasil precisa ser mais discutido.
    snaptubeo

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