Uma denúncia anônima recebida pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) em 8 de dezembro de 2022 alertou para um suposto plano de vandalismo em Brasília, dois dias antes da diplomação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como presidente da República. O relato mencionava “índios disfarçados” que viajariam em ônibus saindo do Paraná com o objetivo de realizar um “quebra-quebra” na capital federal.

A denúncia, enviada quatro dias antes dos eventos violentos registrados em 12 de dezembro de 2022, reforça as evidências de que a ação foi previamente organizada por golpistas. Isso contraria a narrativa apresentada na época, que vinculava os atos de vandalismo à prisão do cacique Serere Xavante.

Naquele dia, grupos bolsonaristas tentaram invadir a sede da Polícia Federal (PF) e causaram destruição no centro de Brasília. Postes de iluminação foram derrubados, carros e ônibus queimados, botijões de gás espalhados e um veículo quase foi jogado de um viaduto. A área próxima ao hotel onde Lula estava hospedado também foi cercada.

De acordo com o documento produzido pela PCDF, a denúncia apontava que diversos ônibus sairiam de Cascavel, no Paraná, e de outras cidades da região, transportando apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro. Segundo o relato, os passageiros eram descritos como “índios disfarçados”, e um dos motoristas teria avistado armas de fogo nas bagagens.

A denúncia foi repassada aos órgãos de inteligência, como a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Contudo, não está claro quais providências foram tomadas a partir dessas informações.

Novos depoimentos colhidos pela PF em 2024 têm lançado luz sobre os atos de vandalismo de dezembro de 2022. Um relatório elaborado pela corporação indica que os golpistas buscavam criar um cenário de caos que justificasse a intervenção das Forças Armadas antes da posse de Lula.

Entre os elementos investigados, estão mensagens de WhatsApp vinculadas ao general da reserva Mario Fernandes, ex-integrante da Secretaria-Geral da Presidência no governo Bolsonaro. Nessas mensagens, Fernandes convocava apoiadores para uma grande mobilização em 10 de dezembro de 2022. O objetivo, conforme registrado, era estabelecer uma crise nacional que fosse “impossível de ser resolvida sem a convocação das Forças Armadas”.

As mensagens ainda instruíam os destinatários a repassarem o conteúdo e apagarem os registros imediatamente após o envio, a fim de dificultar a rastreabilidade.

Apesar dos esforços para mobilizar apoiadores, o ato planejado para o dia 10 de dezembro não alcançou o impacto esperado. Contudo, a diplomação de Lula, antecipada para 12 de dezembro devido aos protestos em frente a quartéis, foi seguida por episódios violentos.

Segundo a PRF, as informações da denúncia foram “processadas e utilizadas para subsidiar o processo decisório” dos gestores à época. Entre os dias 8 e 10 de dezembro, a PRF fiscalizou 245 ônibus nos estados que compõem o trajeto entre Cascavel e Brasília: 31 no Paraná, 41 em São Paulo, 73 em Minas Gerais, 91 em Goiás e 9 no Distrito Federal.

Apesar das ações preventivas, os episódios de vandalismo em 12 de dezembro ocorreram com grande impacto. A PCDF, por sua vez, afirmou que o sigilo sobre procedimentos investigativos impediu o detalhamento público das medidas adotadas.

Procurada, a Polícia Militar do DF não confirmou se recebeu a denúncia e se realizou ações preventivas.

No final de 2024, a PF concluiu um relatório que indiciou o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras 36 pessoas por tentativa de golpe de Estado. O documento foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR), que deve decidir ainda em 2025 se apresentará denúncia formal contra os investigados.

O relatório também revelou que as tentativas de criar um “cenário caótico” em Brasília contaram com o envolvimento de figuras-chave do governo Bolsonaro e de apoiadores estratégicos.

Citado como pivô dos eventos de 12 de dezembro, Serere Xavante havia sido preso em 2022 na Argentina, após violar o uso de tornozeleira eletrônica que lhe fora imposto dois anos antes. Ele é réu por sua participação nos atos antidemocráticos daquele ano e segue como figura simbólica nos relatos sobre os atos de vandalismo.

A denúncia anônima recebida pela PCDF reforça a importância de canais de inteligência e colaboração entre diferentes órgãos de segurança pública. Contudo, as falhas na prevenção dos episódios de 12 de dezembro evidenciam a necessidade de maior articulação entre as autoridades para evitar situações semelhantes no futuro.

Os atos de vandalismo em Brasília e os desdobramentos posteriores também levantam questões sobre o uso de redes sociais para convocar movimentos antidemocráticos e a propagação de mensagens de ódio. A responsabilização dos envolvidos, incluindo líderes políticos e militares, é vista como essencial para preservar a integridade das instituições democráticas brasileiras.

Em meio aos desafios, o caso destaca a resiliência das instituições brasileiras frente às tentativas de desestabilização. A diplomação e posse de Lula ocorreram conforme previsto, reafirmando o compromisso com a ordem constitucional e a democracia.

Foto: Pedro Ladeira

 

 


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