Representantes de 28 povos e comunidades tradicionais de diferentes regiões do Brasil apresentaram, nesta quinta-feira, um pedido formal de reconhecimento de seus saberes ancestrais durante a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres, a COP15. A solicitação foi entregue ao presidente do encontro, João Paulo Capobianco, e propõe a inclusão desse reconhecimento no texto oficial da Convenção sobre Espécies Migratórias.
O documento também defende a criação de um espaço permanente de participação desses povos na estrutura de governança do tratado internacional. A proposta busca garantir que os conhecimentos acumulados ao longo de gerações sejam considerados na formulação de políticas globais de conservação ambiental.
Durante o encontro, Capobianco avaliou a demanda como pertinente e necessária, indicando que o Brasil deve liderar a construção de uma proposta formal ao longo dos próximos três anos. Segundo ele, o tema já começa a ganhar respaldo internacional, com a adesão de outros países a uma declaração de apoio elaborada pelo governo brasileiro.
A iniciativa, segundo o presidente da conferência, tem inspiração em experiências anteriores, como a Convenção da Biodiversidade realizada em Cali, onde o reconhecimento de saberes tradicionais também avançou. A expectativa é que o processo atual siga caminho semelhante, consolidando-se como política internacional.
Na véspera da entrega do documento, uma intervenção inédita chamou a atenção dos participantes da conferência. Edinalda Nascimento, representante do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, discursou por cerca de três minutos no principal espaço de negociações, marcando a primeira vez que esses segmentos tiveram voz direta na plenária principal.
Em sua fala, ela destacou a importância dos povos tradicionais na preservação ambiental, ressaltando que seus modos de vida estão diretamente ligados à conservação das espécies migratórias e dos ecossistemas. Segundo Edinalda, esses conhecimentos não apenas contribuem para a proteção da biodiversidade, mas também garantem a sobrevivência cultural e econômica dessas comunidades.
A manifestação foi acompanhada com atenção por diplomatas, cientistas e representantes de organizações internacionais, que interromperam momentaneamente as negociações para ouvir a fala. Após o discurso, delegações de outros países se posicionaram favoravelmente à proposta, defendendo a análise e possível implementação das reivindicações apresentadas.
O reconhecimento imediato por parte de diferentes nações foi celebrado pelos representantes brasileiros, que destacaram o avanço no diálogo internacional. Para eles, o apoio recebido indica uma mudança de percepção sobre o papel dos saberes tradicionais na agenda ambiental global.
A participação dos povos tradicionais na COP15 foi resultado de uma articulação entre diferentes áreas do governo brasileiro. Segundo integrantes do Ministério do Meio Ambiente, houve um trabalho prévio de preparação, com o objetivo de aproximar esses grupos dos temas técnicos discutidos na conferência.
Esse processo, conhecido como pré-COP, permitiu que os próprios representantes escolhessem seus porta-vozes e se familiarizassem com o funcionamento das negociações internacionais. A iniciativa foi considerada essencial para garantir uma participação qualificada e efetiva.
De acordo com autoridades envolvidas, a presença dos povos tradicionais abriu um novo campo de debate dentro da conferência. Até então, o tema não havia sido tratado de forma estruturada no âmbito da Convenção sobre Espécies Migratórias.
A discussão ganhou ainda mais relevância com a apresentação de estudos que integram conhecimento científico e saberes tradicionais. Um dos exemplos citados foi o relatório sobre peixes migratórios de água doce, lançado durante o evento e elaborado com a contribuição conjunta de pesquisadores e representantes dessas comunidades.
O documento foi apontado como um marco na integração entre diferentes formas de conhecimento, demonstrando que a experiência acumulada por povos tradicionais pode complementar e, em alguns casos, aprofundar as análises acadêmicas.
Para especialistas, essa abordagem amplia a capacidade de compreensão dos fenômenos ambientais e contribui para a formulação de políticas mais eficazes. A inclusão desses saberes nas decisões internacionais é vista como um passo importante para fortalecer estratégias de conservação.
O avanço da pauta na COP15 indica uma possível mudança na forma como a governança ambiental global incorpora diferentes perspectivas. A expectativa é que, nos próximos anos, o reconhecimento formal dos saberes ancestrais se consolide como parte das diretrizes internacionais.
Com isso, povos e comunidades tradicionais podem ganhar maior protagonismo nas discussões sobre biodiversidade, contribuindo diretamente para a construção de soluções sustentáveis em escala global.
Foto: Rafa Neddermeyer

