Representantes de povos indígenas, quilombolas, caiçaras, caboclos, marisqueiras, pescadores artesanais e povos de terreiro lançaram nesta quarta-feira, em São Paulo, a Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica. O movimento foi apresentado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, durante as atividades do Dia Nacional da Mata Atlântica.

A iniciativa reúne comunidades tradicionais de diferentes regiões do país com o objetivo de fortalecer a proteção do bioma, considerado um dos mais ameaçados do território brasileiro. Além da defesa ambiental, a articulação busca ampliar a luta pelos direitos territoriais dessas populações e pela valorização de seus modos de vida tradicionais.

No manifesto de lançamento, os integrantes da aliança afirmam que são guardiões de conhecimentos ancestrais responsáveis pela preservação das florestas, rios, mares e lagoas da Mata Atlântica. O documento também destaca que essas comunidades desempenham papel central na manutenção do equilíbrio ambiental do bioma ao longo de séculos.

Coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa e moradora da Aldeia Rio Bonito, em Ubatuba, no litoral paulista, Ivanildes Kerexu afirmou que a criação da aliança representa uma união necessária diante das ameaças crescentes ao território.

Segundo ela, as comunidades tradicionais sempre estiveram na linha de frente da preservação ambiental e precisam de mais reconhecimento e acesso a políticas públicas voltadas à proteção da Mata Atlântica.

Ivanildes também ressaltou a importância espiritual do bioma para o povo Guarani. De acordo com a liderança indígena, a Mata Atlântica representa uma “terra sem mal”, conceito tradicional ligado à relação sagrada entre natureza, ancestralidade e sobrevivência cultural.

A deputada federal Sonia Guajajara participou do lançamento e destacou que a nova articulação surge em um momento estratégico, marcado pelo avanço de grandes empreendimentos econômicos sobre áreas ambientalmente protegidas.

Durante o evento, a parlamentar alertou para os riscos associados à exploração de terras raras e minerais críticos sem respeito aos direitos territoriais dos povos tradicionais. Segundo ela, o país pode repetir problemas históricos ligados à exploração predatória de recursos naturais caso não haja salvaguardas ambientais e consulta prévia às comunidades afetadas.

Guajajara afirmou ainda que as estruturas econômicas e políticas frequentemente ignoram o papel exercido pelos povos tradicionais na preservação da biodiversidade e no enfrentamento das mudanças climáticas.

Atualmente, restam apenas cerca de 12,4% da vegetação original da Mata Atlântica, segundo dados apresentados durante o encontro. O bioma já ocupou aproximadamente 15% do território brasileiro e se estende por 17 estados.

Apesar da degradação histórica, a Mata Atlântica continua sendo uma das regiões mais biodiversas do planeta. A floresta abriga mais de 20 mil espécies de plantas e mais de 2 mil espécies de animais vertebrados, muitos deles exclusivos desse ecossistema.

Além da relevância ambiental, o bioma possui papel fundamental no abastecimento hídrico do país. A Mata Atlântica é responsável pelo fornecimento de água para cerca de 145 milhões de brasileiros.

Os integrantes da aliança afirmam que o avanço da especulação imobiliária, do turismo exploratório, da construção de resorts, do uso intensivo de agrotóxicos e da exploração de petróleo e combustíveis fósseis têm acelerado a destruição do bioma.

Coordenador executivo da aliança e integrante do Movimento Quilombola de Sergipe, Wellington Quilombola afirmou que comunidades tradicionais de diferentes estados enfrentam problemas semelhantes relacionados à devastação ambiental.

Segundo ele, em comunidades quilombolas já se tornou comum o aparecimento de animais silvestres em áreas urbanas devido à destruição dos habitats naturais. Cobras, tatus e pacas passaram a buscar abrigo próximos às residências.

Wellington defendeu que a nova articulação pretende ampliar o diálogo com governos, movimentos sociais e sociedade civil para discutir políticas públicas voltadas à preservação ambiental e ao desenvolvimento sustentável.

De acordo com ele, o objetivo é garantir um modelo de convivência que respeite os territórios tradicionais, preserve a biodiversidade e assegure condições dignas de vida para as futuras gerações.

Os integrantes da aliança afirmam ainda que pretendem participar mais ativamente das discussões sobre licenciamento ambiental, exploração econômica e políticas de preservação, reforçando o papel das comunidades tradicionais como protagonistas na defesa da Mata Atlântica brasileira.

Foto: Vinícius Carvalho/OTSS- Fiocruz


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