A presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, Leticia Dornelles, foi exonerada hoje após entregar um dossiê contra seu ex-chefe Mario Frias, que por dois anos comandou a Secretaria de Cultura.
A demissão ocorre nove dias depois de uma reunião entre ela e membros do grupo de transição da Cultura no futuro governo Lula.
Na ocasião, ela entregou um dossiê contra seu antigo chefe Mario Frias. A pedido do atual secretário Nacional de Cultura, André Porciuncula, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, publicou hoje no Diário Oficial da União uma portaria com a demissão de Dornelles .
A reportagem procurou Dornelles, Frias e a Secretaria de Cultura, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
O que é a Casa de Rui Barbosa?
Localizada no bairro de Botafogo, no Rio, a Casa de Rui Barbosa é considerada uma das mais importantes instituições de cultura e preservação de documentos do Brasil.
Ela abriga correspondências originais de escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e Manuel Bandeira, além da biblioteca original da residência do jurista que dá nome à fundação.
Por que Dornelles foi exonerada?
Indicada em outubro 2019 ao cargo pelo pastor e deputado Marco Feliciano, Dornelles tinha uma boa relação com o primeiro secretário de Cultura, Roberto Alvim, demitido em janeiro de 2020 por supostamente copiar o discurso do ministro nazista Joseph Goebbels em um vídeo oficial.
Quando Frias assumiu, as tensões entre os dois começaram. Ela reclamava nos bastidores de que era desrespeitada por Frias e por seu gabinete. A relação conflituosa durou até Frias deixar o cargo em março deste ano para se candidatar —e se eleger— a deputado federal por São Paulo pelo PL, partido do presidente Jair Bolsonaro.
Apesar das tensões entre Dornelles e Frias, a expectativa era de que ela permanecesse no cargo até o dia 31 de dezembro, quando termina o mandato presidencial.
Mas a situação da presidente ficou insustentável na segunda-feira 5 de dezembro, quando ela recebeu membros do grupo de transição da Cultura.
A reportagem conversou com dois interlocutores que confirmaram a informação adiantada pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, de que ela entregou um dossiê com críticas à atuação de Frias.
Entre 9h e 11h da manhã, Dornelles se reuniu com três membros do GT da Cultura, os deputados federais Marcelo Calero (PSD-RJ), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Tulio Gadelha (Rede-PE).
Segundo apurado, o GT se reuniu com Leandro Jaccoud, presidente da Associação de Servidores da Casa, designado para repassar as informações sobre a fundação. Ao saber da presença do grupo, Dornelles pediu que eles a visitassem em seu gabinete.
Em razão da agenda de compromissos dos deputados, ela decidiu ir até o grupo. Na ocasião, Dornelles teria ela mesma provocado o assunto ao criticar Frias em voz alta.
Dentre as reclamações, ela relatou um suposto entrevero com antigo chefe, quando teria sido vítima de assédio moral e sabotagem em um projeto que ela desejava implementar.
Depois do relato, ela teria entregado papeis com uma troca de emails que manteve com Frias que comprovariam suas informações, qualificadas como dossiê.
Segundo esses interlocutores, Dornelles era conhecida internamente por produzir dossiês e ingressar em ações judiciais e administrativas contra desafetos e servidores da fundação.
Sua aproximação do GT de Cultura teria por objetivo se valorizar diante da próxima administração, mostrando que “não é bolsonarista raiz”.
Gaúcha, Dornelles é jornalista, roteirista, escritora e autora de TV. Na Globo, foi coautora das novelas “Por Amor” e “Andando nas Nuvens”. Ela foi nomeada para comandar a Casa de Rui Barbosa em 2019 após indicação do pastor Marco Feliciano.

