No mesmo dia em que o Banco Central subiu o tom dos alertas sobre riscos fiscais, em um duro recado à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, encontrou-se com membros do primeiro escalão do governo para defender reajustes salariais aos servidores do BC.

Pouco depois do término da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que decidiu manter os juros básicos em 13,75% ao ano, Campos Neto esteve, separadamente, com as ministras Esther Dweck (Gestão e Inovação) e Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) para debater o tema. Os encontros ocorreram na noite de quarta-feira (1º).

Segundo relatos colhidos pela Folha de S.Paulo, a concessão de reajustes e a realização de novos concursos para carreiras do BC foram os principais assuntos da reunião com o Ministério da Gestão. No Planejamento, o tópico também foi abordado dentro de um cardápio mais amplo de temas.

As reuniões foram incluídas na agenda pública de Campos Neto. Procurado, o BC não quis comentar.

De acordo com fontes do governo, Campos Neto elencou uma série de entregas do BC, entre elas o Pix, sistema de pagamentos instantâneos lançado em novembro de 2020 e que teve rápida adesão da população, para valorizar a categoria.

O presidente da autoridade monetária citou ainda recentes aumentos concedidos a carreiras do Legislativo e do Judiciário, além da existência de um bônus para servidores da Receita Federal e de honorários de sucumbência a advogados da União -penduricalhos que turbinam os salários dessas categorias.

A remuneração da diretoria do BC também foi alvo da discussão colocada por Campos Neto.

Segundo os relatos, o presidente da instituição disse enfrentar dificuldades para recrutar novos nomes para repor a saída de diretores, pois o salário é considerado baixo para um mandato de quatro anos.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, Campos Neto iniciou conversas com agentes do mercado financeiro em busca de um novo nome para o cargo de diretor de política monetária. O mandato do atual titular, Bruno Serra Fernandes, termina em 28 de fevereiro. Ele poderia ser reconduzido por mais quatro anos, mas não deve permanecer.

O presidente e os diretores do BC têm hoje um salário de R$ 17.327,65 mensais. Antes da autonomia formal da instituição, sancionada em fevereiro de 2021, Campos Neto tinha status de ministro e ganhava quase o dobro: R$ 30.934,70 por mês.

Desde 1º de janeiro de 2023, ministros de Estado recebem R$ 39.293,32 mensais, graças ao aumento do teto remuneratório federal e a um decreto legislativo estendendo a medida ao alto escalão do Executivo.

Segundo fontes do governo, o presidente do BC não chegou a apresentar uma proposta concreta de reajuste durante as conversas com as ministras.

Em maio do ano passado, a instituição causou mal-estar ao enviar ao Ministério da Economia, então comandado pelo ex-ministro Paulo Guedes, uma proposta de MP (medida provisória) para conceder reajuste salarial de 22% aos servidores a partir do mês seguinte e incluindo uma reestruturação de carreira.

A proposta também previa aumentos de 78,5% no salário de Campos Neto, voltando aos R$ 30.934,70, e de 69,6% na remuneração dos diretores, para R$ 29.387,96.


Avatar

administrator