As expectativas para o desempenho da economia brasileira no segundo trimestre de 2025 indicam que a desaceleração prevista desde o fim do ano passado deve ter se consolidado. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará na próxima terça-feira os números oficiais do Produto Interno Bruto (PIB), mas os economistas já projetam crescimento mais tímido do que o registrado no início do ano.

No primeiro trimestre, a supersafra agrícola e o forte consumo das famílias puxaram os indicadores para cima, resultando em alta de 1,4% frente ao último trimestre de 2024. Os investimentos também surpreenderam positivamente. Agora, o setor de serviços deve ter sustentado a atividade, impedindo uma queda no PIB.

Segundo Rodolfo Margato, economista da XP, o cenário deve mostrar sinais mistos. “Será um número mais fraco, mas ainda com sinais mistos, porque alguns fundamentos apontam para expansão, principalmente com o mercado de trabalho, que continua como fator de sustentação para setores sensíveis à renda, sem falar em gastos fiscais ainda em patamares elevados, como previdência e BPC. Mas outros indicam esfriamento na esteira da política monetária apertada, tendo em vista a necessidade de controle da inflação”, explicou. Ele prevê alta de 0,3% no trimestre.

Os serviços prestados às famílias devem ter sido os principais responsáveis pelo avanço, já que houve mais renda disponível para consumo. Para o economista Luís Otávio Leal, da G5 Partners, o setor de informação e comunicação também contribuiu, impulsionado pela digitalização das empresas e pela corrida tecnológica relacionada à inteligência artificial. “É uma dinâmica completamente diferente da indústria, por exemplo, que depende de crédito, depende de financiamento, e aí é onde bate mais forte essa questão dos juros em 15% ao ano. Essa desaceleração da indústria conversa muito bem com o que a gente viu no mercado de crédito ao longo do segundo trimestre, que foi uma perda de vigor ou aumento da inadimplência”, avaliou.

A indústria deve ter sido um dos setores a puxar os números para baixo. Enquanto a indústria extrativa ainda pode apresentar crescimento, a de transformação tende a registrar queda, por ser mais sensível à política monetária restritiva. O comércio e os investimentos, igualmente dependentes do crédito, também devem ter sentido os efeitos da Selic elevada.

Já o agronegócio, que havia sustentado o PIB no primeiro trimestre, deve mostrar leve retração, em razão da base de comparação elevada. Embora não tenha apresentado resultados ruins, não contou com safras recordes para repetir o desempenho anterior.

Para o terceiro trimestre, os analistas projetam retomada moderada, puxada pelos pagamentos de precatórios e pela expectativa de safra recorde do milho. O economista Luís Otávio Leal acrescenta ainda o impacto do ressarcimento dos descontos indevidos do INSS e da recuperação do crédito consignado privado, que desde julho passou a aceitar o FGTS como garantia. “A gente está com crescimento de 0,7% para o terceiro trimestre, por causa desse dinheiro sendo colocado na economia, tanto pelo precatório quanto pelo ressarcimento do INSS, além dessa questão do crédito consignado, que acho que vai pegar tração agora a partir do terceiro trimestre”, destacou.

No entanto, para o quarto trimestre, as previsões são menos otimistas. Sem o efeito dos precatórios e com base de comparação mais elevada, somam-se ainda os efeitos defasados da política monetária restritiva. “Vemos um PIB total ao redor de zero ou até ligeiramente negativo”, projetou Margato.

Para o ano, as expectativas oscilam entre 2% e 2,3%, configurando desaceleração em relação aos últimos anos, mas ainda um crescimento robusto, sustentado principalmente pelo desempenho do primeiro trimestre.

Além dos desafios internos, fatores externos também aumentam as incertezas. Economistas destacam os possíveis impactos das tarifas impostas ao Brasil pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Embora os efeitos concretos ainda sejam difíceis de mensurar, a medida pode prejudicar setores industriais e exportadores.

Para Juliana Trece, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), esse ambiente gera apreensão nos investidores. “Quando a gente adiciona incerteza, mesmo que, efetivamente, o dado possa não ser tão ruim, os investidores começam a ficar um pouco silenciosos porque não sabem o que vai acontecer. Normalmente eles esperam ter mais informações, e isso é ruim porque as decisões de investimento antecedem o resultado que a gente vai ver na atividade econômica lá na frente”, analisou.

Trece estima crescimento de 0,5% no segundo trimestre e 2% no ano. Para ela, a economia brasileira segue sustentada por alguns pilares, como o mercado de trabalho e os serviços, mas depende de maior previsibilidade, tanto no cenário doméstico quanto no internacional, para garantir a confiança necessária à retomada consistente.

Foto: David Hecker

 


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