Monte Azul, no Norte de Minas, vai participar de um projeto-piloto de rastreamento da doença de Chagas por meio da realização de exame de Eletrocardiograma (ECG).

Segundo a Superintendência Regional de Saúde, o município é o primeiro, entre outras 106 cidades de Minas Gerais, a participar da validação de uma ferramenta de inteligência artificial capaz de permitir o rastreamento da doença de Chagas crônica, através da identificação de alterações sugestivas no ECG, exame realizado no coração dos pacientes.

A previsão é que o projeto seja implementado neste mês e é desenvolvido por pesquisadores do Centro São Paulo–Minas Gerais para Tratamento da Doença de Chagas – (SaMI–Trop).

A iniciativa é coordenada pelo médico e professor da Universidade Federal de Minas Gerais – (UFMG), Antônio Luiz Pinheiro Ribeiro.

A expectativa, segundo a SRS, é que no período de dois anos o projeto envolva cerca de 2,5 mil pessoas, residentes em municípios do Norte de Minas e da região de Divinópolis. “Todos os pacientes que realizarem exame de eletrocardiograma terão os laudos analisados por sistema de inteligência artificial. Quando forem identificadas alterações sugestivas para a doença de Chagas um sistema de alerta informará este resultado aos serviços de vigilância epidemiológica do município de residência do paciente. O município deverá proceder a busca ativa do paciente para a coleta de sorologia e encaminhamento de material para análise no laboratório da Fundação Ezequiel Dias – (Funed), em Belo Horizonte”, explicou a referência técnica da Coordenadoria de Atenção à Saúde da SRS, Renata Fiúza Damasceno, por meio de nota.

O projeto prevê que, para os casos positivos para Chagas, o município deverá realizar a notificação no Sistema de Agravos de Notificação – (Sinan), mantido pelo Ministério da Saúde. Em seguida, caso seja recomendado, o município deverá ofertar ao paciente o tratamento antiparasitário, além de acompanhamento médico.

Sobre o projeto

Desde 2013, o Centro São Paulo–Minas Gerais para Tratamento da Doença de Chagas realiza pesquisas envolvendo doenças negligenciadas. O Centro é composto por um grupo de cientistas colaboradores de quatro instituições de ensino: Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes); UFMG; Universidade Federal de São João Del Rey e a Universidade de São Paulo (USP).

Os trabalhos são financiados pelo National Institute of Health, um conglomerado de centros de pesquisa que formam a agência governamental de pesquisa biomédica do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Está sediado em Bethesda, Maryland, e constitui o maior centro de pesquisa biomédica do mundo.

O SaMI-Trop já publicou mais de 30 artigos científicos. Dentre as temáticas há fatores associados ao tratamento antiparasitário; a qualidade de vida; ao prognóstico e a sobrevida; criação de escore de risco para prever mortalidade; identificação de novos biomarcadores; associação entre alterações cardíacas e biomarcadores, além dos desafios para a assistência à doença de Chagas nos serviços de atenção primária à saúde.

Atualmente, os pesquisadores pretendem aplicar os conhecimentos na identificação de metodologias e ferramentas que permitam aumentar o número de pacientes diagnosticados e a oferta de tratamento. Além disso, serão identificadas estratégias que possibilitem melhorar o acompanhamento dos pacientes e auxiliar na avaliação de novos candidatos a tratamento.

A doença

A referência técnica da Coordenadoria de Atenção à Saúde da SRS, Renata Fiúza Damasceno, explica que, assim como outros agravos negligenciados, a doença de Chagas está associada à pobreza. A doença é transmitida por diferentes vias, sendo a vetorial que envolve espécies de triatomíneos, insetos chamados popularmente de barbeiros. Estima-se que, no mundo, entre 6 e 8 milhões de pessoas têm a doença e mais de 75 milhões moram em áreas de risco de contágio.

A Fundação Oswaldo Cruz – (Fiocruz) aponta que “são inúmeras as barreiras existentes para o acesso da população a diagnósticos e tratamento da doença de Chagas, a maior delas, a educação. Apenas 1% ou menos, daqueles que poderiam se beneficiar obtendo a cura da doença ou a prevenção para formas sintomáticas crônicas, tem real acesso ao tratamento. Em geral, os diagnósticos ocorrem na fase tardia, quando já há comprometimento crônico e complicações, com grave prejuízo às pessoas, suas famílias e comunidades, além de elevado custo ao sistema de saúde”.

Devido a essa situação epidemiológica, a Portaria 1.061, publicada dia 18 de maio de 2020 pelo Ministério da Saúde, determina que os serviços de saúde além de oferecer diagnóstico e tratamento também deverão fazer a notificação compulsória da doença de Chagas. Com isso, será possível criar um banco de dados e ter indicadores que permitam fazer análises epidemiológicas mais precisas para fortalecer a política de controle da doença no país.


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